Você já pensou no tanto de parafusos que têm um motor de aeronave comercial? E o torque para cada um deles?

Parece algo complicado, e realmente tem o seu nível de complicação, por isso as oficinas de manutenção dos motores de grande porte, como um GE90, são bem equipadas e o serviço é bem organizado para evitar erros, na aviação cada etapa tem seu grau de redundância, para garantir a segurança e a confiabilidade do equipamento.



Apesar disso há uma possibilidade de melhorar ainda mais o tempo de manutenção dos motores, é exatamente nesta tecnologia que a GE, uma das maiores fabricantes de motores aeronáuticos do mundo e dona do GE9X (o maior motor aeronáutico do mundo), está trabalhando. A GE basicamente quer resolver isso com tecnologia pura e atual, baseada em realidade aumentada.

Fabricantes de motores a jato calculam perder milhões de dólares por ano porque as porcas e os parafusos que vedam as linhas de fluxo e mangueiras — conjuntos chamados de b-nuts — não estão presos tão bem. Caso os testes considerem esses parafusos muito soltos ou muito apertados, o motor precisa ser reparado antes de ser instalado em um avião com passageiros.

Até recentemente, havia poucas maneiras adequadas de verificar quando um parafuso atinge esse ponto ideal. Operários munidos de torquímetros só contavam com suas próprias habilidades e seu bom senso para chegar a esse tênue equilíbrio.

Mas uma empresa chamada Upskill, que faz software de realidade aumentada (RA) para dispositivos vestíveis — por exemplo, óculos inteligentes –, agora está transformando essa arte em ciência. A Upskill, que recebeu apoio da GE Ventures, começou a trabalhar com o Glass (antes Google Glass) e a GE Aviation para construir uma solução de RA que se conecta a uma chave de torque inteligente para aperfeiçoar todas as etapas da construção de um motor a jato que envolvam parafusos e porcas.

Um time de mecânicos de Cincinnati, no estado norte-americano de Ohio, testou óculos inteligentes que usam o software Skylight, da Upskill, para ensinar a ele várias tarefas difíceis. Por exemplo, o Skylight alerta os mecânicos, via óculos inteligentes, quando eles precisam usar um torquímetro. Em seguida, quando começa a aplicar o torque, o torquímetro habilitado com Wi-Fi compartilha a informação com o servidor do Skylight. Então, o Skylight fala para o mecânico se ele está apertando e vedando adequadamente os b-nuts, cruciais no motor a jato. O Skylight verifica a medida correta em tempo real antes que o mecânico prossiga para a próxima etapa.

“Isso tem um potencial tremendo de minimizar erros, reduzir custos e melhorar a qualidade do produto”, afirma Ted Robertson, gerente de engenharia da GE Aviation. “Também tivemos um aumento de produtividade e melhorias de eficiência.”

Antes de a equipe usar o Skylight nos óculos Glass Enterprise Edition com os novos torquímetros, os mecânicos muitas vezes tinham de parar o que estivessem fazendo, conferir os manuais ou chamar especialistas para se certificarem de estar aplicando o torque correto. Mas, com o Glass que roda na plataforma Skylight, eles conseguem facilmente puxar instruções digitalizadas e estudá-las em sua linha de visão.

Os mecânicos também podem acessar vídeos de treinamento ou usar comandos de voz para contatar especialistas para assistência instantânea. Eles podem até mesmo transmitir o que estão vendo, usando conexão de vídeo ao vivo, para mostrar ao especialista. Assim, o especialista pode orientar o mecânico passo a passo na solução do problema.

Cerca de 85% dos 15 mecânicos que participaram do projeto piloto afirmaram que o sistema reduz erros na manufatura, e 60% disseram preferir a tecnologia vestível aos métodos tradicionais. Um mecânico sênior levou 35 minutos para concluir uma operação sem os óculos, contra 32 minutos com os óculos — uma melhoria de 8%.

Mais tarde naquele dia, ao realizar outro trabalho de manutenção, o mesmo mecânico marcou 51 minutos com o procedimento padrão e 38 minutos com os óculos — uma melhoria de 25%. A média de todos os mecânicos testados foi entre 8% e 11% de aumento na eficiência, números que podem crescer quando a curva de aprendizagem de uso desses dispositivos tiver sido dominada.

Com base nesses dados, a GE calcula que a tecnologia para aperto de parafusos pode economizar milhões de dólares para a companhia em dez anos.

O Skylight também acompanha digitalmente os resultados. Após cada parafuso ser apertado, o Skylight tira uma foto (com os óculos inteligentes), registra automaticamente o valor final correto de torque e salva essa informação. Esses registros poderão promover controle de qualidade instantâneo em projetos futuros, além de criarem um roteiro digital do trabalho que foi realizado em cada motor a jato.

O Skylight atualmente é usado em sete projetos diferentes, espalhados por 12 unidades da GE e em quase todos os negócios da companhia. As aplicações dele incluem produção e montagem, reparos, manutenção e gestão logística de alta complexidade. Nem todos esses projetos usam o Glass Enterprise Edition. “Somos agnósticos em termos de hardware”, afirma Christine Bohle Boyd, vice-presidente de marketing da Upskill. “Deve-se poder escolher o hardware que é melhor para cada caso.”

Segundo ela, o Glass funcionou bem para o In-Torque Team, a equipe de torqueamento do projeto na GE Aviation, porque esses óculos são extremamente leves e sua tela não obstrui a linha de visão do usuário.

Robertson afirma que há oportunidades de expandir esse programa específico para indústrias de outros setores. “Ele pode ser usado em tantas aplicações”, diz. “Esporadicamente, os humanos cometem erros — ele melhorará muito isso.”

 

Via – GE Aviation Brasil