Há algum tempo a tal frase ficou marcada na GOL: “Nós só vamos onde o 737 permitir”.

Isso era uma afirmação clara sobre a padronização de frota da companhia. Não podemos negar, a GOL realmente é uma companhia Low Cost, veja bem, Low Cost é diferente de Low Fare.

Ser uma companhia Low Cost significa ter uma frota padronizada, no máximo 2 modelos de aviões, além disso os funcionários ganham menos em comparação com as tradicionais, e os procedimentos administrativos são “enxugados” ao máximo para diminuir os custos.

Padronizar os aviões tem um motivo, voar só com o 737 você simplifica tudo. Precisa formar só uma turma de mecânicos, só uma equipe de pilotos e comissários, e seu avião pode pousar em qualquer aeroporto que você já opera.

Dessa forma a operação fica simplificada, você não precisa ter um grande centro de treinamento, nem várias diretorias para administrar os diversos modelos em uso na frota. A manutenção e compra é feita com descontos, pela maior quantidade de componentes (ou produtos) negociados.

Você já deve ter percebido que o conceito Low Cost é vantajoso para uma companhia aérea. É exatamente isso que vamos falar hoje.

 

Novos voos para os Estados Unidos

Recentemente a GOL anunciou novos voos de Fortaleza e Brasília para Miami e Orlando, nos EUA. Esses voos só podem ser realizados devido ao novíssimo Boeing 737 MAX 8, antes a companhia não tinha um equipamento capaz de fazer esse tipo de voo sem escalas.

Não foi sorte, a Boeing realmente evoluiu o 737, lançando uma nova geração que consegue ter 6700 km de alcance na versão 737 MAX 8, um aumento de 1200 km em comparação com o 737-800 NG. Além disso o novo avião é 20% mais econômico em comparação ao anterior, e chega a ter um custo por assento 20% menor.

Se o Boeing 737-800 da GOL já era vantajoso, agora isso está ainda mais pronunciado no mercado, a companhia ganha margem para competir com outras sem para isso precisar cortar seu serviço. Além disso, o 737 MAX 8 alcança destinos internacionais fazendo voos diretos, onde antes o 737-800 exigia uma escala.

É exatamente essa vantagem que a GOL está levando no momento, mas vamos comparar melhor.

 

Comparativo de voo internacional

Vamos considerar a mesma rota, entre Brasília a Miami. A GOL anunciou na semana passada, e a LATAM já fez esse voo anteriormente de A330 e 767.

A distância é a mesma, porém os equipamentos são diferentes.

Os Boeing 767-300ER da LATAM são equipados com dois motores GE CF6-80C2, cada um com 62100 lbf de empuxo. O motor GE CF6 é de uma geração anterior, a GE já lançou o GEnx, uma atualização de nova geração para substituir o CF6, com um consumo 20% menor.

Foto – Paul Gordon/Boeing

Já o 737 MAX 8 é equipado com um motor de nova geração e várias atualizações, que juntas diminuem o consumo do 737 MAX em até 15%. Os motores CFM Leap-1B são baseados em tecnologias de nova geração, praticamente uma evolução daquele motor CFM 56 que apareceu na década de 70, compatíveis com os avanços vistos no GEnx. Eles geram uma propulsão (cada) de 28000 lbf.

Além disso, o Boeing 767-300ER tem o Operating Empty Weight (OEW) de 90011 kg, isso é pelo menos quase o dobro em comparação com o Boeing 737 MAX 8, que tem OEW de 45070 kg.

Na GOL o 737 MAX 8 será configurado com 186 assentos, sendo que as 5 primeiras fileiras funcionam como uma Premium Economy, com assento do meio bloqueado e maior custo de aquisição. Pelo menos 10 assentos são de uma “classe superior”, os outros oferecem o mesmo espaço dos voos domésticos, categorizado como “Classe A” pela ANAC, demonstrando o “bom” espaço disponibilizado.

Já o Boeing 767-300ER da LATAM é configurado com 221 assentos, sendo que 30 deles são na Business Class, que rendem mais dinheiro para o voo, mas que em rotas turísticas são mais difíceis de vender. Os outros 191 assentos são na Economy Class, assim como na GOL.

Temos então o Boeing 767 com quase o dobro de peso, o dobro da potência, para transportar 191 passageiros, enquanto o 737 MAX 8 faz isso com metade da potência, além de um consumo menor de combustível.

Não precisamos ilustrar mais para demonstrar a vantagem competitiva do 737 MAX nessas rotas. Com um avião mais barato de operar, frota padronizada e com consumo drasticamente menor, a GOL consegue operar esse voo com preços mais baixos, e assim conquistar o cliente, principalmente o que está indo aos EUA por turismo.

Em condições iguais, considerando as duas companhias como nacionais, o Boeing 767 amarga larga desvantagem nesse tipo de voo. A companhia não consegue competir com o 737 MAX 8 sem levar prejuízo em cada voo, isso considerando uma condição de igualdade tarifária.

 

A moda do mundo

Foto – Boeing/Divulgação

A vantagem operacional desses novos aviões já está se espalhando entre as companhias Low Cost da Europa.

A Norwegian foi a primeira que anunciou voos transatlânticos com o Boeing 737 MAX 8. Logo após outras companhias disseram que fariam o mesmo, algumas com o A321neo LR, que oferece até 7400 km de alcance.

Esse foi o modo que acharam para competir com as companhias tradicionais, que ainda usam o Boeing 767/787 e o Airbus A330 para fazer voos transatlânticos. O foco é oferecer o translado entre os dois continentes por apenas $99.

 

Não é só o consumo

Além do consumo maior, um Boeing 767-300ER novo custava em 2016 cerca de US$ 197,1 milhões, a maioria dos modelos que estão na frota da LATAM Brasil são fabricados em 2012, notavelmente são novos ainda.

Já um Boeing 737 MAX 8 custava na mesma época US$ 110 milhões. A manutenção da aeronave também é mais barata e simples.

 

A virada

No Brasil a Avianca, Azul e LATAM já se interessaram pelo A321neo, sem declarar se planejam encomendar o modelo LR, que oferece até 7400 km de alcance.

O A321neo pode alterar significativamente o mercado de voos internacionais partindo do Brasil para os EUA, principalmente considerando uma versão com maior autonomia. O A321neo LR é capaz não só de fazer voos para Miami partindo de Brasília, mas também voos para Nova York, ou ligando São Paulo com Miami.

Com capacidade para até 240 passageiros em classe totalmente econômica, ou 220 considerando uma boa distância dos assentos para maior conforto do passageiro, o A321neo LR apresenta uma relação de custo por assento ocupado ainda menor em comparação com outros aviões, como o A320neo e o Boeing 737 MAX 8.

 

*O A320neo tem 6500 km de alcance, na mesma condição o Boeing 737 MAX 8 tem 6704 km. A diferença é que com peso máximo (MTOW), o Boeing 737 MAX 8 tem alcance de 6504 km, nesse modo a Airbus não divulga publicamente a performance de alcance do A320neo.

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