A revolução no sistema de passagens feita pela American Airlines

Vamos começar esse artigo com uma pergunta. Você já pensou como seria a aviação de hoje sem os computadores?

A implementação de computadores na aviação não é uma novidade, desde a década de 50 que essas ferramentas atuam nas mais diversas áreas, e principalmente durante o voo. Mas toda a história sobre a automação das funções começa lá em 1953, quando o presidente da American Airlines tinha uma solicitação muito importante.

Para começar bem, essa história iniciou-se durante um voo da American Airlines, em que o presidente da companhia na época, C.R. Smith, estava tranquilamente em seu assento. Não demorou muito para uma comissária convidasse o representante de vendas sênior da IBM, o R. Blair Smith, para conhecer o presidente da AA. Então os dois começaram a conversar sobre o tema sobrenome, aliás, tinha algo em comum sobre os dois, o sobrenome Smith.

Mas logo após essa conversa foi para o tema indústria de viagens, C.R. Smith tinha uma solicitação para fazer, a American Airlines estava expandindo rapidamente e precisava de um sistema confiável e que suportasse uma grande quantidade de consultas por segundo, o sistema deveria ser interligado entre as cidades que a companhia operava e conseguir registrar todos os dados dos voos, inclusive nome do cliente, quantos lugares ocupados e também seria capaz de controlar os preços das vendas, de acordo com a demanda do voo/classe.

Blair afirmou que a IBM poderia desenvolver um computador que seria capaz de gerenciar a disponibilidade de assentos e manter um registro de um passageiro: nome, itinerário, bem como informações de contato.

Antes disso, em 1946, a American Airlines usava um sistema arcaico e totalmente manual para controlar suas reservas, com base em papel marcado na borda e várias baias que demarcavam cada voo da companhia (imagine a bagunça disso), dessa forma não era possível reservar um bilhete aéreo meses antes da viagem, pela própria infraestrutura disponível. Era tão complicado que, procurar um voo, reservar um assento e, em seguida, emitir a passagem, poderia demorar até 3 horas.

Assim era uma central de reservas antigamente.

Na realidade a American Airlines já estava desenvolvendo várias formas de padronizar e automatizar o sistema de reservas, desde 1946 quando lançou oficialmente o projeto Reservisor. Um sistema quase semi-automatizado que seria capaz de informar por placas e luzes quando a lotação do voo ultrapassasse 75%, e assim conseguiu reduzir drasticamente o número de telefonemas entre a central e os stands de vendas da American.

Em 1952 a American conseguiu resolver mais uma parte de seu problema adotando um sistema de memória baseado na tecnologia Drum memory, sendo a segunda geração do Reservisor, essa tecnologia é um dos primeiros métodos de gravação de dados em massa da computação e também um pouco similar aos HDs, que usamos nos dias atuais.

Isso à direita é um Drum Memory.

Com esse sistema de memória magnética era possível salvar vários dados em um espaço pequeno, porém ainda necessitava de um manejo manual de funcionários, através de cartões perfurados que eram complicadíssimos de serem manuseados por qualquer pessoa. A gravação no disco passava antes por um computador que era capaz de ler o cartão perfurado, esse último era o responsável por registrar os dados na Drum Memory.

Ao usar essa nova tecnologia a American Airlines conseguiu reduzir o tempo de pesquisa de cada voo para 1 segundo, o sistema Drum Memory era muito rápido, apesar de ter pouca capacidade de armazenamento e ocupar muito espaço. O primeiro sistema era capaz de armazenar 1000 voos para os próximos 10 dias, e foi instalado no Aeroporto de La Guardia, em Nova York.

Um segundo sistema foi implementado em 1956 com capacidade para armazenar 2000 voos para os próximos 31 dias, sendo possível assim informar a ocupação para um mês todo. Agora seria possível vender passagens aéreas com uma antecedência razoável.

O sistema da American Airlines fez tanto sucesso que outras companhias como a United Airlines, Braniff Internacional e National Airlines encomendaram um sistema semelhante. Companhias de trem dos EUA como a New York Central Railroad e a New Haven Railroad, também começaram a utilizar o sistema para organizar o transporte de cargas e a capacidade da frota.

Então começa a colaboração da IBM na história, ela fabricou o Reserwriter, um sistema que foi capaz de resolver os problemas da American Airlines ao gravar os dados dos passageiros indiretamente na Drum Memory, juntamente com o voo. Agora a companhia substituiu uma pasta física por um sistema de pasta digital, onde o voo tinha seus assentos bloqueados remotamente e cada assento tinha os dados do passageiro que comprou a passagem, é bem similar ao que acontece atualmente quando passamos pela ponte de embarque.

Fita perfurada para impressoras do UNIVAC.

O Reserwriter era capaz de imprimir os dados inseridos em uma fita perfurada (punched tape), essa fita por sua vez era lida pelo computador do Reservisor, que gravava esses dados na Drum Memory. Dessa forma não precisaria de uma pessoa que entendesse de programação para fazer a fita perfurada, a própria impressora já era capaz disso.

 

Agora a evolução começa

Primeiro terminal Sabre.

O Reservisor e o Reserwriter trabalhavam bem juntos, ainda mais para um sistema daquela época, porém tinha um grande problema, os funcionários ainda precisavam inserir manualmente os dados no Reservisor para ele gravar na Drum Machine, o sistema de fita perfurada era engenhoso, mas precisava de um grande esforço humano para inserir tudo no “computador central”, além de exigir que as fitas fossem transportadas das bases de vendas até Nova York, onde ficava a Drum Memory.

Então em 1957 a IBM apresentou para a American Airlines o sistema SABRE, que era um computador derivado do projeto SAGE (este feito para a Força Aérea dos Estados Unidos). O SAGE era incrível, o computador tinha um sistema operacional, era totalmente digital e com resposta em tempo real, era capaz de transferir dados digitais através de uma linha telefônica, um sistema de exibição de dados visual e memória de núcleo magnético.

Veja como o sistema expandiu com o Sabre.

Mas a IBM não usou o SAGE para construir o sistema (e hardware) do SABRE, ela apenas pegou sua expertise em comunicação de computadores e teleprinters para criar um sistema mais moderno para a American Airlines, com hardware baseado em dois computadores IBM 7090, instalados em Briarcliff Manor, NY. A IBM ainda teve o trabalho de criar um software próprio para uso próprio, chamado SABRE, para lidar com o dia-a-dia de uma companhia aérea.

Detalhe – Cada computador IBM 7090 custava US$ 53.800.000, em valores atuais.

Com o SABRE a American Airlines tinha o sistema perfeito na mão, o computador era muito rápido, e capaz de processar uma grande quantidade de informações ao mesmo tempo, os teleprinters enviavam as informações via linha telefônica para o IBM 7090, eliminando a necessidade de um atendente para receber o pedido na central.

Cada computador era capaz de receber 84000 chamadas telefônicas diárias, mas como cada chamada do teleprint transportava dados, era possível vender mais de 84000 passagens por dia.

Acessar rotas, ver horários, analisar preços e lotação dos voos estava fácil com o uso do sistema automatizado por computador. Não precisava buscar os dados em uma infinidade de arquivos e todo o processamento de dados passou a ser digital, com possibilidade de imprimir um relatório por um computador auxiliar em qualquer aeroporto, via Fax, esse relatório era importante para saber quantos assentos estavam disponíveis horas antes de um voo partir de qualquer aeroporto.

 

A implementação continua

O sistema logo tomou conta das centrais de outras companhias aéreas, como a Delta, com o IBM Deltamatic, baseado no computador IBM 7074, além do PANAMAC para a Pan American World Airways, baseado no IBM 7080, todos menos potentes que o sistema usado pela American.

IBM 7094, usado pela American a partir de meados da década de 70.

Em 1976 as grandes agências de viagem começaram a utilizar o sistema SABRE, mas agora rodando em outros computadores, que eram cada vez menores e mais potentes. O novo sistema que integrava as reservas de hotéis e de passagens, foi desenvolvido com a ajuda da American para agilizar e melhor a comunicação entre as linhas aéreas e as agências de viagens. Cerca de 130 escritórios de viagens dos EUA tinham o sistema no mesmo ano do seu lançamento.

Hoje mais de 57000 agências de viagens em todo o mundo fazem login em um desktop Sabre diariamente e o sistema Sabre processa mais de 42000 transações a cada segundo. Também há cerca de 130000 computadores de agências de viagens que usam esse sistema.

 

No Brasil

A Varig se destacou pelo investimento em tecnologia no Brasil, já no início da década de 80 a companhia brasileira precisava se alinhar com as suas concorrentes no exterior, principalmente as americanas, que já usavam modernos data-centers para gerenciar seus voos e os clientes. No entanto a Varig tinha computadores, 371 deles, porém sem um sistema redundante de interligação entre eles.

A Varig adotou um caminho diferente para mitigar custos, a maioria dos equipamentos foram montados na unidade de manutenção da empresa em Porto Alegre, esses eram os terminais de vídeo, onde os operadores tinham acesso às informações do mainframe.

A parte cara de tudo era o mainframe IBM 4341, que ficava na sede da empresa e não poderia ser nacional. A empresa operou com o sistema Iris, um sistema integrado capaz de gerenciar agências de turismo e companhias aéreas ao mesmo tempo.

A implementação foi tão rápida que ainda no início da década de 80 a Varig já tinha 960 terminais de vídeo, tanto nos aeroportos como nas lojas da Varig e agências de viagem. Logo a Varig passou a usar terminais programáveis com processadores Intel 80386, o mais avançado na época.

Nessa primeira fase a Varig investiu cerca de US$ 68 milhões. Já na década de 90 o sistema da empresa era tão robusto que permitiu a incorporação de outras companhias que operavam no Brasil, como a British Airways, JAL e Eastern Airlines. Nessa mesma época a Varig começou a usar um sistema via satélite para fazer comunicação com várias partes do Brasil e do mundo.

A VASP também investiu em seu sistema de computadores, a companhia até mesmo lançou propagandas na época, falando da comodidade em obter os dados da viagem em no máximo 10 segundos.

Porém a Vasp não seguiu uma solução ao estilo da Varig, a empresa precisou encomendar computadores prontos e sincronizar eles com a central, também da IBM (mas com menor potência), na sua sede em São Paulo.

 

Pequenas curiosidades sobre o texto acima:

  • Em 1960 as companhias aéreas dos EUA transportaram 8.615.000 de passageiros;
  • A implementação dos jatos em rotas antes realizadas por turboélices quase que dobrou a oferta de voos, um avião a jato como o 707 conseguia fazer um voo transatlântico com a metade do tempo utilizado por um DC-7 ou um Super Constellation. A facilidade dos jatos, que eram mais rápidos, modernos e econômicos, tornaram a aviação mais acessível para as pessoas que não tinham tanto dinheiro. Nas tabelas de voo abaixo podemos ver a incorporação dos jatos nas companhias durante os anos de 1957 e 1967.
COMPARTILHAR
Pedro Viana

Acadêmico de Engenharia Aerospacial – Editor de foto e vídeo – Fotógrafo – Aeroflap