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Vergeltungswaffe V2 – O foguete da Vingança

Assim como abordamos na postagem sobre o V1, presente nesse link, que não era um foguete, mas já era o princípio a qual queriam utilizar na guerra, a Alemanha ergueu um grande engenheiro conhecido como Wernher von Braun para então suprir suas necessidades por uma arma rápida e de longa distância (como se isso fosse vantagem). Von Braun desde sempre apaixonado por viagens espaciais, aceitou fazer parte do exército para então conseguir concluir seu doutorado sobre foguetes, o que ele não contava é que precisaria produzir em massa uma arma de alta destruição.

Peenemünde, V2 beim Start

Na concepção de ataque aéreo não tripulado o V1 exerceu sua função, porém tinha 3 problemas básicos, primeiramente ele era lento e carregava pouca carga, em segundo lugar ele era facilmente abatido por voar em baixa altitude e ser lento, e outra característica negativa sua era pouca precisão de ataque, menos ainda que a existente no V2.

Todas essas características negativas colaboraram para um investimento pesado em uma arma cara de produzir e com muito pouco estrago, porém que amedrontava seus inimigos que não sabiam a tecnologia imposta dentro do aparelho e muito menos se a Alemanha era capaz de colocar uma bomba atômica dentro do foguete e daí para frente atacar qualquer local da Europa.

O V2 ganhava confiança do ditador alemão por atingir se possível até 320km de altitude (só para comparação, a ISS fica por volta de 410km), e velocidade cinco vezes maior que a do som, sendo ela igual a 5760km/h, muito mais rápido, alto e ligeiro do que qualquer coisa criada até então, desbancava até os modernos bombardeiros americanos da época, tanto que era capaz de atingir Londres em poucos minutos partindo da Alemanha.

V2

A concepção do V2 não era tão simples como se parece, eles precisaram fazer um foguete de 14 toneladas, que tivesse um motor com quase meio milhão de cavalos e incrivelmente pesava menos que um carro popular, somente 450kg do motor.

Sua combustão utilizava uma mistura de álcool com água em proporção 3/4 de álcool etílico e o resto de água, mais o oxigênio líquido (parte mais difícil do sistema), como é observável na foto temos os tanques que ocupam boa parte do foguete, o pequeno e leve motor em baixo, além de ter uma turbina que jogava o combustível em altíssima pressão na câmera de combustão.

Toda essa combustão era alimentada por 2 combustíveis auxiliares, o primeiro contendo 80% de peróxido de hidrogênio com os outros 20% de uma mistura de Permanganato de Sódio com água. O curioso é que o álcool era obtido a partir de batatas, algo muito presente na Alemanha naquela época e que não corria risco de ter grande falta como a gasolina.

Outra característica é que o motor era refrigerado pelo próprio álcool que queimava dentro dele, só que a refrigeração ocorria por fora através de borrifamento ao redor do motor, isso era necessário porque um motor de foguete aquece muito mesmo.

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Seu direcionamento acontecia através das aletas que continha tanto na saída do motor como nos estabilizadores do foguete, como exemplificado na foto abaixo. Na sua ponta, antes da ogiva, existia um giroscópio muito mais preciso que o contido no V1, não tanto, os sistemas da época não eram totalmente eletrônicos como hoje, mas havia certa precisão nas medições, o foguete tinha um erro máximo de 16km. Era quase impossível fazer esse controle através de giro do foguete ou do motor por conta do tipo único de combustível utilizado, que era líquido e podia causar sua degradação, além de má combustão no motor.

ev 2

 

Como o V2 tinha autonomia de 300km ele era programado para então atacar um alvo a mais ou menos essa distância. De início seu lançamento era feito através de plataformas físicas como o conhecemos hoje, porém com o tempo essas plataformas sofriam ataques e eles tiveram uma ideia rápida e genial, adaptaram uma série de caminhões, que além de fazer o transporte do foguete eles serviam de base de lançamento móvel, como na imagem abaixo.

v2_harwich1

Sua altitude máxima de operação era 80km, passando assim até da estratosfera. Sua autonomia era controlada pelas superfícies de controle do foguete, além disso foi feito todo um planejamento em relação a sua trajetória, tanto para chegar a Londres como na capital da Bélgica.

Os testes começaram em 1942 desse modelo, em uma pequena ilha militar chamada de Peenemunde, os primeiros modelos não deram muito certo, porém após algum tempo e com a insistência de Hitler em obter resultados ou cortar os investimentos o foguete finalmente decolou, porém nas suas primeiras vezes não realizou ataques, de 9 protótipos feitos em outubro de 1942 o primeiro decolou com sucesso até uma altitude de aproximadamente 84km.

Cerca de 6048 V2 foram construídos, entre esses 3172 chegaram ao seu destino final, números bem melhores que o do V1, porém seu ataque era pouco eficiente por conta da pouca carga que levava.

Plano de voo do V2 para alguns países, instruções quanto a sua direção poderia ser passada via rádio.
Plano de voo do V2 para alguns países, instruções quanto a sua direção poderiam ser passadas via rádio.

O V2 tinha alguns problemas básicos de uso, o primeiro já citado é quanto ao seu controle de direção que era bastante impreciso, a própria Inglaterra conseguiu enganar os alemães , os britânicos foram capazes de convencer os alemães a dirigir os V1 e V2 destinados a Londres para áreas menos povoadas ao leste da cidade. Isso foi feito através do envio de relatórios enganosos sobre os danos causados, e através de notícias falsas.

Os primeiros modelos usavam o mesmo computador encontrado no V-1, um analógico de pouca precisão, porém com o tempo e refinamentos no projeto, foi utilizado os comandos via rádio, onde era possível “rastrear” o foguete e enviar informações de controle para as suas superfícies.

O sistema via rádio foi desenvolvido em 1944 pelo Dr. Friedrich Kirchstein da Siemens, além de um sistema tipo Doppler com um transponder acoplado em que era enviada a posição estimada e a velocidade. Um controlador na Suécia também conseguiu desviar um através de envio de comandos errados a seu rádio, colocando a rotação da terra ao contrário.

Von Braun trabalhando nos motores do V2.
Von Braun, ao meio, trabalhando nos motores do V2.

Os primeiros modelos lançados se despedaçavam reentrada na atmosfera devido a estrutura de sua ogiva que não era preparada para tal, mais tarde o foguete recebeu materiais diferentes em seus tanques e superfície de controle, porém a ogiva continuou utilizando fibra de vidro mais reforçada ainda devido a manter o poder de detonação do explosivo a qual carregava, tal explosivo também era acionado via rádio, disparando uma descarga elétrica para se detonar. O explosivo não era tão eficiente por não utilizar um sistema de proximidade do solo, sendo assim muitos dos foguetes caiam sem antes explodir.

Suas plataformas de lançamento fixas eram muito vulneráveis a ataques aéreos, era feito um reconhecimento da região e depois ataque, além da fábrica também ter sido atacada. Depois disso em tempo recorde foi feita outra fábrica subterrânea no interior da Alemanha e seu sistema de lançamento atualizado para um móvel, como já citado aqui. Depois disso nenhum lançamento foi abatido e nenhuma fábrica foi destruída.

Descobriram depois em projeto e testes que o motor precisava ser arrefecido por algo, que as mangueiras deveriam ter uma linearidade e desobstrução, a espaçonave teria que ser controlada através de superfícies de controle normais pois o combustível não poderia girar como em uma centrífuga. Os relés do computador de bordo precisaram de maior durabilidade, para resistir a vibração tanto na decolagem quanto no funcionamento, e também na reentrada.

Primeiras imagens da Terra feita pelo V2 e divulgadas hoje pela NASA.
Primeiras imagens da Terra feita pelo V2 e divulgadas hoje pela NASA.

O V2 pode não ter sido a arma mais importante da guerra, tanto que a Alemanha não ganhou ela, porém foi essencial para desencadear a Guerra Fria, pois era a menina dos olhos tanto da URSS como dos EUA, que viam em seus sucessores, o V-10 e V-12 uma arma muito mais letal do que essa.

Antes do final da guerra Von Braun foi aconselhado a fugir ou então o exército o mataria, ele que residia no norte da Alemanha fugiu para o sul e decidiu se entregar para os americanos, junto dele estava uma papelada enorme sobre seus projetos, junto dele foi uma equipe de 100 pessoas mais 200 V2 para uma base militar no estado do Texas, EUA.  Futuramente ele foi escolhido para a NASA quando ela surgiu e posteriormente virou diretor de operações da Nasa, foi responsável pelos foguetes Júpiter e Saturn.

Von Braun e motores do Saturn V, já na NASA essa foto.
Von Braun e motores do Saturn V, já na NASA essa foto.

Diferente do que ele sempre pensava em querer levar o homem ao espaço não ocorreu por sua causa, visto que os EUA estavam muito mais interessados em satélites de espionagem e foguetes capaz de lançar bomba atômica na URSS.

O primeiro a fazer por essa causa foi Korolev da URSS, convencendo os seus superiores na época que quem dominasse o espaço também dominaria a Terra, começando assim toda uma série de evoluções em que a URSS saiu na frente, vale citar que eles conseguiram amostras do V2 através da invasão de uma fábrica, além de alguns manuais de construção e uso, fazendo disso uma engenharia reversa a qual desencadeou em toda a corrida espacial.

O Estados Unidos se viu pressionado a aceitar que a evolução aconteceria através da dominação do espaço quando a União Soviética começou a enviar satélites e seres vivos, incluindo um homem ao espaço e caminhadas espaciais, todos esses fatos ganhavam grande repercussão positiva na mídia e colocava os EUA em segundo plano devido a sua pouca evolução na área. A história de Von Braun pode ser acompanhada por esse link, e nesse link para o Korolev.

Abaixo 2 imagens que mostram como o V-2 influenciou a linha de evolução dos foguetes, chegando inclusive aos foguetes atuais.

Mostra como o V2 influenciou nos projetos da URSS e hoje Rússia.
Mostra como o V2 influenciou nos projetos da URSS e hoje Rússia.
Como o V2 influenciou dentro da NASA.
Como o V2 influenciou dentro da NASA.

 

Nesse vídeo abaixo tem alguns lançamentos do V2.

About the author

Pedro Viana

Pedro Viana

Acadêmico de Engenharia Aerospacial - Editor de foto e vídeo - Fotógrafo - Aeroflap

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