Vamos saudar a mandioca!

Não é comum aqui no Portal Aeroflap a equipe emitir opiniões de natureza pessoal através das matérias, mas na manhã de hoje, enquanto a “correria” gerada pelo fim do Airbus A380 agitava os editores, eu consegui tirar um tempo para ler uma matéria publicada pela Valor que falava sobre a proposta da Secretaria de Aviação Civil para criar uma nova pista em Congonhas (link da matéria aqui).

Um pouco mais tarde recebi uma renderização do que poderá ser a “pista central” do Aeroporto de Congonhas. A imagem está disponível abaixo.

De acordo com informações da matéria da Valor, a nova pista seria construída ao lado da atual principal (17R – 35L), que tem 1940 metros, e a nova pista teria 2000 metros. Não é uma expansão tão significativa do tamanho da pista, nem acrescenta muita margem de desempenho para as aeronaves.

De acordo com integrantes do governo, essa nova pista seria adequada pois terá melhores saídas para as taxiways e cabeceiras com o famoso concreto de segurança, que pode desacelerar bastante uma aeronave que ultrapasse os limites da pista, essa tecnologia é bastante utilizada fora do Brasil, como na foto abaixo, onde o avião de campanha do Donald Trump utilizou essa tecnologia durante um pouso no Aeroporto LaGuardia, em Nova York.

O problema é que essa obra toda causa DOIS problemas básicos no Aeroporto de Congonhas.

O primeiro é a desativação da pista auxiliar, que só seria utilizada em caso de emergência. A pista central e única pode ser soberana e vai abrigar todo o tipo de tráfego, de aeronaves comerciais e executivas.


O segundo é o custo, a SAC estima que a obra custaria 1 bilhão de reais, para uma pista semelhante a atual em tamanho e largura, algo que não acrescenta basicamente nada em desempenho para os aviões que já utilizam o aeroporto.

O governo diz que há uma vantagem de possibilitar voos para o Norte e Nordeste, mas com esse tamanho de pista continua inviável sem uma grande penalidade de desempenho para as aeronaves, que precisam decolar com um payload menor para compensar o combustível adicional exigido para cumprir a rota.

Congonhas é atualmente o 2º aeroporto mais movimentado do Brasil, transportando no ano mais de 22 milhões de passageiros. E ele tem problemas básicos para resolver, como todo aeroporto administrado por via estatal.

Foto – Infraero

Vou listar esses problemas abaixo:

+ Terminal inadequado para o tráfego de passageiros: O Aeroporto de Guarulhos recebeu 27,9 milhões de passageiros em voos domésticos em 2018, enquanto o Aeroporto de Congonhas recebeu por volta de 22 milhões. Aqui temos uma clara limitação do terminal, que ultrapassou o limite de conforto.

Quem usou o Aeroporto de Congonhas recentemente sabe que existe fila para tudo. Há filas no check-in (mesmo no totem), no raio-x, para acessar a área de embarque, para embarcar, muitas vezes precisamos até mesmo esperar um lugar para sentar, dependendo do horário.

Congonhas precisa de uma expansão urgente no seu terminal.

+ Há hangares desativados e ocupando espaço no Aeroporto de Congonhas, como os que pertenciam à Vasp, e podem dar lugar para outros serviços no sítio aeroportuário.

+ Falta de áreas de escape na pista: Apesar de haver uma limitação do tamanho da pista, para criar áreas de escape “virtuais”, não há após as duas cabeceiras da pista principal um sistema de concreto poroso, como o representado acima pela aeronave alugada por Trump.

+ A pista principal (17R-35L) tem 1940 metros, não é outra pista de 2000 metros que vai resolver o problema de desempenho das aeronaves no aeroporto. O ideal seria uma desapropriação de lotes na região da cabeceira 35 da pista principal, e uma expansão de pelo menos 500 metros, já contabilizando áreas de escape de 150 metros em cada cabeceira.

É uma obra custosa, e aproveitaria ainda mais o montante de 1 bilhão de reais, estipulado para o gasto com a construção da nova pista.

+ Falta de ligação com o sistema de metrô: Congonhas é um aeroporto bastante complicado em termos de acessibilidade no contexto da metrópole que é São Paulo. Há anos prometem o monotrilho, que seria inaugurado antes da Copa de 2014, mas isso não ocorreu até o início deste ano.

+ Fazer um novo projeto para o acesso ao embarque do aeroporto: Sempre no horário de pico é garantia de perder até 20 minutos só na alça de acesso ao Aeroporto de Congonhas. Se houver acidente na pista ou carro quebrado você ganhou na loteria! Melhor descer do carro e seguir caminhando.

 

Depois de listar os problemas de Congonhas temos que apontar outros itens que não fazem o menor sentido neste tipo de obra:

+ O Governo de São Paulo já mostrou ser favorável por diversas vezes ao fechamento do Aeroporto Campo de Marte. O tráfego seria distribuído entre vários aeroportos, na metrópole paulista Guarulhos e Congonhas seriam os responsáveis por absorver essa demanda.

Fechar Congonhas e Campo de Marte nos próximos dois anos, sendo que o primeiro seria para obras, não é uma opção viável.

+ A Infraero já está conduzindo estudos para aumentar de 33 para 39 a quantidade de pousos e decolagens por hora. Antes do acidente de 2007, que foi causado por uma série de irresponsabilidades, Congonhas chegou a receber 48 pousos e decolagens por hora.

Vale ressaltar aqui sobre o acidente, ele pouca influência do desenho Aeroportuário de Congonhas. Se todos cumprirem as normas de segurança, o local tem total capacidade para movimentar 39 pousos e decolagens por hora, anulando quaisquer justificativas do Governo de construir a pista para aumentar o tráfego, aliás, é só uma pista, não duas no esquema do Aeroporto de Brasília.

+ O Governo Paulista e o Governo Federal já consideram uma 3ª pista no Aeroporto de Guarulhos, essa possibilidade foi ventilada até mesmo em um documento sério da Secretaria de Aviação Civil, formulado em 2018. Atualmente o Aeroporto de Guarulhos é limitado a 58 pousos e decolagens por hora, com a nova pista seria capaz de receber até 75 movimentos por hora.

Aqui temos uma clara demonstração sobre o conceito dos terminais, uma nova pista seria extremamente necessária no contexto de Guarulhos, visto que lá há espaço para construir um terminal maior

 

Esse é todo o contexto da história, que pareceu “bonitinha” na matéria que foi lançada nesta manhã, mas não tem o menor sentido na parte operacional do terminal.

Uma obra desse porte só desviaria o foco dos principais problemas do terminal, que pode ser concedido na mesma “loucura” que Viracopos, onde a ANAC está multando a concessionária do terminal por não cumprir obras que seriam adequadas para um aeroporto com 3 vezes o movimento do local.

Congonhas precisa de melhorias e neste momento de uma expansão, mas ela deve ser realizada preservando as prioridades do terminal, e considerando termos técnicos da aviação alinhados com novos conceitos de engenharia.

Segurar a concessão do terminal para 2022 só atrasará as inúmeras alterações que o local precisa, algumas em regime de urgência, como justificativa de segurar o caixa de uma empresa pública que será extinta nos próximos anos. Falando hipoteticamente, o governo quer voar sem pagar o querosene.

 

Texto e opiniões por Pedro Viana (Fundador e editor do Portal Aeroflap desde 2012).