(Bloomberg) – Um piloto da Ethiopian Airlines alertou a alta gerência da companhia aérea, meses antes do desastre com um de seus jatos 737 Max da Boeing, que era preciso mais treinamento e melhor comunicação com os membros da tripulação para evitar um acidente parecido ao ocorrido com a Lion Air.

Segundo e-mails e documentos revisados pela Bloomberg News, em dezembro do ano passado, o piloto recomendou que seus superiores reforçassem o treinamento sobre uma ferramenta de controle de voo do 737 Max para que as equipes estivessem melhor preparadas para lidar com a situação enfrentada pelos pilotos da Lion Air em outubro, antes de o avião cair no Mar de Java, matando todos a bordo.

“Aconteceria um acidente com certeza caso os pilotos estivessem tentando resolver o mau funcionamento do sistema de controle de voo do 737 Max e também tivessem de lidar, por exemplo, com um alerta da cabine de que estavam voando muito perto do solo,” escreveu o piloto Bernd Kai von Hoesslin, em e-mail enviado em 13 de dezembro.

Em 10 de março, um avião da Ethiopian Airlines guiado por outros dois pilotos caiu minutos após a decolagem em Adis-Abeba, matando 157 pessoas.

Embora o acidente tenha ocorrido de forma diferente da descrita por von Hoesslin, o piloto previu com precisão o caos e o perigo dos vários alertas que os pilotos tiveram que lidar no acidente de março.

Nas 418 páginas de correspondências e documentos enviados para os gerentes da companhia aérea, mas que não haviam sido divulgados, von Hoesslin citou uma série de preocupações que, segundo ele, precisavam ser abordadas em relação à manutenção, descanso dos pilotos e procedimentos operacionais.

Suas preocupações colocam novamente o foco sobre o acidente com o jato da Ethiopian Airlines, o que levou a uma suspensão dos voos com o 737 Max, o modelo mais vendido da Boeing, em todo mundo e à pior crise enfrentada pela fabricante americana de aviões em décadas.


Von Hoesslin não quis dar entrevista. Os documentos vistos pela Bloomberg foram fornecidos por outra pessoa que pediu para não ser identificada.

Em comunicado divulgado no Twitter na quarta-feira, a Ethiopian Airlines disse que “cumpre rigorosamente com todos os padrões globais de segurança e exigências regulatórias”. A companhia aérea também disse que as alegações “são falsas e factualmente incorretas”, chamando o piloto de “ex-funcionário descontente”.

Não está claro se as recomendações de von Hoesslin para o treinamento teriam feito diferença, disse Jeffrey Guzzetti, ex-diretor da Divisão de Investigação de Acidentes da Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos, observando que investigadores, reguladores e companhias aéreas ainda estão avaliando o treinamento adicional necessário.

Von Hoesslin, que se identificou nos documentos como instrutor certificado do 737, pediu demissão da Ethiopian Airlines em abril. Os documentos analisados pela Bloomberg, incluindo o e-mail de dezembro pedindo treinamento adicional, foram anexados à carta de demissão de von Hoesslin.