As primeiras décadas da segunda metade do Século XX foram de muita prosperidade para o meio artístico e de mídia, com dinheiro abundante nas produções e grandes ostentações para chamar a atenção.

Os mega empresários, e excêntricos artistas, já tinham a ideia de utilizarem aviões para o transporte pessoal. Seria impossível imaginar Elvis Presley transitando no lotado Aeroporto John F. Kennedy, que fica localizado em uma das maiores metrópoles do mundo, Nova York.

Elvis, citado acima, utilizava um Convair 880 com um interior totalmente adaptado. O avião foi batizado de “Lisa Marie” e além de “quebrar aquele galho” nas turnês de Elvis no próprio EUA, ele também utilizava da aeronave para transporte pessoal.

Mas entre os diversos jatos de celebridades, incluindo um Lockheed Constellation do Rolling Stones, o mais simbólico foi o DC-9 das coelhinhas, pertencente ao dono da Playboy, o já falecido Hugh Hefner.

Enquanto outros aviões na época (1968) levavam uma quase simbólica indicação que o artista estava a bordo, Hefner foi na contramão e solicitou um avião branco e preto, com fuselagem toda na cor preta, quase zero quilômetro, com o famoso coelho da Playboy na cauda da aeronave. O visual apontou para o nome do avião, o “Big Bunny”.

A pintura icônica do N950PB era diferente de qualquer outra da época. Nenhum outro jato particular havia sido pintado de preto antes, então a Playboy teve que buscar aprovação especial da FAA antes de aplicar o esquema único. Hefner queria que o avião se destacasse.

O interior contava com sofás de veludo e um excelente sistema de áudio, também feito sob encomenda, várias televisões, dois projetores de filmes de 35mm, tudo com indicações que os designers pensaram em algo futurista.

Até a matrícula era personalizada: N950PB.

“Enquanto estava em construção, a FAA deu uma olhada e disse: ‘Espere um minuto, isso não atende às nossas especificações”, lembra Rosenzweig. Tudo o que havia sido feito até aquele momento tinha que ser arrancado, custando mais tempo e dinheiro. A partir de então, os construtores seguiram as restrições precisas de peso e design estabelecidas pela Federal Aviation Administration. Até o inconfundível esquema de pintura do avião e o conjunto de luzes que brilhavam no design da Cabeça do Coelho exigiam aprovação. 

No interior, havia um teatro, vários salões, banheiros completos com chuveiros e, claro, uma grande cama redonda para o próprio Hugh Hefner. A cama tinha lençóis de seda com uma colcha de couro de gambá da Tasmânia e todo o conforto e conectividade que o avião tinha para oferecer eram construídos em um console lateral, localizado perto da cama.

O DC-9 também recebeu um conjunto de comunicações que permitia a Hefner e seus convidados fazerem ligações enquanto voavam 10km longe do solo. Ressaltamos que isso ocorreu em um período onde os primeiros satélites ainda estavam sendo lançados.

O avião estava equipado com fornos especiais para cozinhar carne, além de grelhadores para crepes e waffles – sem mencionar fritadeiras para o frango. Um armário de bebidas totalmente abastecido garantiu que os passageiros tivessem qualquer opção, alcoólica ou totalmente sem álcool.

Na época, o DC-9 era econômico, confiável, oferecia um interior espaçoso, podia operar até mesmo no mais remoto interior, visto que tinha duas escadas de série, ao contrário do 737-200 que listava o item como opcional (e só havia uma no avião, na porta da frente).

A escada traseira do DC-9 dava acesso direto à suíte.

Com todo o visual personalizado, e o interior seguindo o mesmo conceito, Hefner não hesitou em assinar o cheque de US$ 5,5 milhões, que nos dias atuais com a inflação corrigida seria de US$ 40 milhões.

 

As Jet Bunnies

Como não poderia deixar de ser, e para não fugir tanto do assunto “Playboy”, Hugh tinha suas próprias comissárias, escolhidas a dedo.

O Big Bunny ostentava uma equipe especial de comissárias de bordo, apropriadamente apelidadas de “Jet Bunnies”, que não eram escolhidas apenas por sua aparência, mas também por sua capacidade de realmente fornecer serviço de comissária de bordo.

As comissárias eram coelhinhas que trabalhavam nos clubes da Playboy em Los Angeles e Chicago, e enviadas para treinamento na Continental Airlines. Passar na intensa escola de comissários de bordo da famosa companhia aérea era um pré-requisito para o trabalho.

Suas roupas eram únicas, desenhadas pelo estilista Walter Holmes com a contribuição de Hefner. Geralmente eles exibiam mini vestidos de couro, botas pretas, echarpes brancas de aviador e até orelhas e rabos de coelho em algumas ocasiões.

 

O fim do “Big Bunny”

O jato transportou Hugh e sua comitiva de belas mulheres, celebridades e funcionários da Playboy em todo o mundo, incluindo alguns locais extremamente exóticos e austeros. 

“Adorei a conveniência do jato … Era literalmente um apartamento flutuante com um quarto, uma sala de estar, uma sala de jantar e uma área de discoteca nos fundos”, disse Hefner ao Wall Street Journal enquanto descrevia suas lembranças do avião. “Emprestei para Elvis Presley voar para shows e emprestei para Yul Brynner … Quando alguém me pergunta se algum dia sinto falta do avião, respondo: ‘apenas quando voo'”.

O Big Bunny tinha tamanha importância que festas de recepção luxuosas seriam organizadas para sua chegada a países estrangeiros, geralmente incluindo celebridades internacionais e elite local. 

Em 1975, Hugh até emprestou Big Bunny para uma boa ação, a “Operação Babylift”, que trouxe órfãos da Guerra do Vietnã para Nova York, onde foram recebidos por suas famílias adotivas.

Órfãos refugiados da Guerra do Vietnã.

O enorme custo de manutenção e operação de um avião sem fins lucrativos, com sua própria tripulação escolhida a dedo, foi muito alto para a Playboy justificar quando a circulação da revista começou a declinar em meados da década de 1970.

Em 1974, ele não estava mais dividindo seu tempo entre Los Angeles e Chicago, o que significava a necessidade do avião. foi amplamente reduzido. 

O famoso jato foi vendido para a Venezuelan Airlines em 1975. Passou décadas entre idas e vindas da estocagem, antes de terminar na Aeromexico, onde atuava transportando passageiros, algo que foi até 2004, quando finalmente foi aposentado. A fuselagem do jato separada agora é uma ferramenta educacional que foi doada à cidade de Cadereyta, no México.

Hugh Hefner é um personagem tão interessante que viveu uma vida absolutamente fascinante. Ele era reverenciado e desprezado, mas ele realmente incorporava o estilo de vida que sua marca promoveu. Parte disso era ter os melhores e mais estranhos brinquedos. Um grande jato preto que era tanto uma boate voadora quanto uma ferramenta de negócios certamente se encaixa nessa conta.

Em uma época que ter um Learjet já eram um luxo, voar entre várias cidades com um grande jato comercial como sua aeronave, além das coelhinhas como comissárias, era o extremo de ter dinheiro.

 

Via – The Drive

Texto – Aeroflap (com alterações)