Cansados de esperar pela doação de aeronaves de caça da OTAN, a Ucrânia lançou uma campanha de arrecadação de fundos para aquisição de aviões de combate. Até o momento não está claro se a “vaquinha” é oficial. 

Um vídeo com o título ‘Buy me a fighter jet!’ — “Compre-me um caça” em tradução livre — publicado na última terça-feira (12) mostra o que aparenta ser um piloto de caça ucraniano, andando entre os destroços de caças MiG-29 Fulcrum destruídos e danificados. 

No vídeo, que parecer ter um certo nível de produção, o suposto aviador diz em inglês  que os caças doados vão “me ajudar a proteger o meu céu, cheio de aviões russos que bombardeiam a minha terra, matam os meus amigos e destroem as nossas casas e tudo o que já conheci”. “Dê-nos asas para lutar pelo nosso céu”, apela o homem. 

O vídeo também inclui um QR Code que leva para um link onde as doações podem ser feitas. 

“Compre-me um caça! Eu vou lutar com todo meu coração para destruir os tanques, blindados e criminosos de guerra. Eles não escaparão nem de mim, você ou a fúria do povo ucraniano e de Deus”, afirma o “piloto” a bordo de um MiG-29. 

Como observa o portal The War Zone, a Força Aérea Ucraniana perdeu dezenas de jatos desde que a Rússia lançou sua ofensiva, mas não está claro se os aviões no vídeo foram danificados recentemente ou se são alguns dos muitos jatos fora de operação, destruídos no decorrer das hostilidades. 

Os pilotos do país estão lutando contra hordas de jatos russos e sendo alvos rotineiramente enquanto estão no solo. 

Em seu site, o projeto #buymeafighterjet estima o custo médio de um avião de combate em US$ 25 milhões, o que está sujeito a interpretação. O site segue listando os jatos de que a Força Aérea Ucraniana atualmente voa: Su-24, Su-25, Su-27 e MiG-29.

MiG-29 Ucrânia
Caça Mikoyan Gurevich MiG-29 Fulcrum da Força Aérea Ucraniana.

Um novo MiG-29 Fulcrum pode valer US$ 25 milhões, mas um Su-27 Flanker pode custar até US$ 40 milhões por unidade, de acordo com a página.

Um gráfico detalhado, como uma espécie de “lista de desejos”, dos tipos de aeronave, localização e disponibilidade está vinculado, embora a fonte dos números não esteja clara.

Os doadores não são solicitados a contribuir diretamente para a “vaquinha”. Em vez disso, eles são incentivados a enviar um e-mail para obter mais informações. O site afirma que seus “especialistas irão aconselhá-lo sobre questões técnicas e legais”.

Em um outro apelo, que o portal norte-americano aponta como surreal e ambicioso, o site ucraniano também afirma que os pilotos serão capazes de “dominar rapidamente e proteger com sucesso nossos céus com as seguintes aeronaves”: JAS-39 Gripen, Rafale, F-15, F-16, F-18, F -22, F-35.

É absurdamente irreal que os pilotos possam ser treinados rapidamente para pilotar aeronaves “desconhecidas”, ou treinar as equipes de solo que precisam apoiá-los. Os caças construídos no Ocidente também são significativamente mais caros e complexos do que os atualmente operados pela Ucrânia.

Listar o F-22 e o F-35 é especialmente absurdo, seria absolutamente irreal transferir qualquer um desses modelos por uma enorme lista de razões, sublinha o portal. O próprio F-22 tem sua exportação proibida por lei, mesmo para países membros da OTAN ou nações parceiras dos EUA como Japão e Israel, que já expressaram desejo de adquirir o Raptor. 

Sukhoi Su-27UB Ucrânia
Sukhoi Su-27UB da Força Aérea Ucraniana. Foto: Chris Lofting via Wikimedia.

Líderes ucranianos como o presidente Volodymyr Zelensky e o ministro das relações exteriores Dmytro Kuleba, já pediram múltiplas vezes por doações de caças e sistemas antiaéreos mais potentes, bem como a implantação de uma zona de exclusão aérea acima de seu país. 

A Eslováquia enviou uma bateria completa de mísseis S-300 de longo alcance para a Ucrânia e disse que poderia transferir caças MiG-29 ao país se tivesse sua defesa aérea assegurada pela OTAN. 

Os EUA disseram que não se opõem ao envio dos aviões de combate eslovacos, apesar de terem rejeitado a transferência dos MiG-29 que a Polônia pôs à disposição para eventual envio aos ucranianos, no início de março. 

Polônia disponibilizou toda sua frota de 28 caças MiG-29 aos EUA. Foto: Master Sgt. John E. Lasky/USAF.

Recentemente, o governo tcheco coordenou o financiamento coletivo de armas e equipamentos em nome da Ucrânia, supostamente levantando US$ 29,6 milhões em um único mês. 

Isso mais do que pagou os US$ 18,3 milhões em equipamentos que o Ministério da Defesa Tcheco disponibilizou para compra com os fundos doados. Os fundos foram para a Embaixada da Ucrânia em Praga, que lançou sua própria campanha de arrecadação no país poucos dias depois que a Rússia lançou sua invasão total.

O Banco Nacional da Ucrânia não está acima de pedir financiamento externo para pagar o esforço de guerra. Segundo a Reuters, em meados de março a instituição já havia havia arrecadado US$ 40 milhões para apoiar as forças armadas e ações de assistência humanitária do país. Qualquer pessoa pode doar diretamente ao banco por meio de seu site usando aplicativos de pagamento móvel, cartões de crédito e outros métodos.

A Antonov também lançou uma vaquinha para ajudar a custear os “reparos” do cargueiro An-225 Mriya, o maior avião do mundo. O jato desenvolvido nos Anos 80 foi destruído pelos russos no Aeroporto de Gostomel nos primeiros dias de conflito. 

Embora esse financiamento coletivo de caças para a força aérea ucraniana, cada vez mais esgotada, pareça intrigante, a realidade de realmente fazê-lo funcionar é uma história totalmente diferente. E independentemente do dinheiro que está no banco ou não, é necessário comprar aeronaves relevantes para causar, de fato, algum impacto.

Além disso, a Ucrânia precisa sim de caças, mas também precisam começar a treinar em um modelo ocidental de 4ª geração, já que certamente não poderá obter aviões russos no futuro. Levará muitos meses, talvez anos, para treinar pilotos e equipes de apoio nessas novas aeronaves. Cada dia passado é um dia a mais que a Ucrânia levará para retomar uma capacidade mínima de combate.