Finalmente o Governo Brasileiro parece estar dando uma finalidade às nossas duas bases de lançamento, com destaque para o Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão. Isto porque no Brasil temos duas bases com excelente localização quando o assunto é lançamento para órbita equatorial ou geoestacionária.

O governo fez uma proposta inicial para a Boeing, que é da United Lauch Alliance (ULA) e a SpaceX para usar o Centro de Lançamento de Alcântara como um local para seus voos espaciais, com início em 2021.

“Ainda não há nenhuma parceira fechada, mas estamos conversando e negociando com várias empresas do setor aeroespacial, incluindo a SpaceX, para o uso da nossa base em Alcântara”, disse o major-brigadeiro Luiz Fernando Aguiar. De acordo com ele esse também é o primeiro passo para reformular a AEB, Agência Espacial Brasileira.

O CLA tem o potencial de gerar 1,5 bilhão de dólares por ano ao país, valor que poderá ser pago através do aluguel do espaço para a montagem de PADs de lançamento.

“Dado o mercado hoje e o valor de um lançamento, que pode girar de US$ 30 milhões a US$ 120 milhões, nós temos condições aqui de gerar recursos da ordem de US$ 1,2 bilhão a US$ 1,5 bilhão por ano”, disse o Ministro da Defesa Raul Jungmann.

As negociações estão ocorrendo pelo menos desde novembro, quando o governo reuniu representantes das empresas Boeing, Microcosm, Lockheed Martin e Vector Space Systems no Centro de Lançamento de Alcântara, e também no polo espacial de São José dos Campos. A SpaceX não participou essa reunião, mas foi convidada pelo governo.

A SpaceX realizou uma visita recente, conhecendo o CLA e a infraestrutura disponível no local.

 

Porque lançar no Maranhão?

As empresas sabem que o Centro de Lançamento de Alcântara é um dos melhores do mundo para o lançamento de foguetes, que vão colocar carga em uma órbita inclinada ou geoestacionária.

A mudança principal para o foguete é o desvio de rota que não precisa ser realizado, dessa forma é possível diminuir a quantidade de combustível a bordo, e aumentar a capacidade de transportar carga.

Para as empresas o consumo de combustível pouco importa, visto que este custa uma fração do valor total do foguete, mas colocar mais carga no mesmo foguete é interessante, principalmente porque dessa forma é possível faturar mais com um lançamento.

Foguete Falcon 9 sendo lançado do Kennedy Space Center. Foto – SpaceX

A SpaceX, por exemplo, ao obter uma economia de até 30%, poderia lançar o Falcon 9 com dois satélites geoestacionários de 6000 kg, e ainda conseguir pousar o primeiro estágio em terra firme. Atualmente o Falcon 9 só tem capacidade para lançar um satélite geoestacionário de 6000 kg, e retornar para a Terra.

“Nossa base tem a melhor localização do mundo para lançamentos espaciais, as empresas sabem disso e, assim como a gente, querem aproveitar esse potencial’, disse Aguiar.

O CLA é um bom local para o lançamento de foguetes por um bom motivo, o centro fica muito próximo à Linha do Equador, e dependendo da órbita que o satélite precisa ser inserido, é mais vantajoso lançar o mais próximo possível da Linha do Equador.

Alguns países como os Estados Unidos, Russia e França contornam bem esse problema usando o Kennedy Space Center (EUA), Cosmódromo de Baikonur (Rússia) e Centro Espacial de Kourou (União Europeia). Porém o único centro de lançamento próximo o suficiente da Linha do Equador é o Centro Espacial de Kourou, que fica na Guiana Francesa.

“Este Centro tem as melhores condições geográficas e também em termos de equipamento é o melhor do hemisfério sul. O Brasil tem muito a lucrar com Alcântara”, disse o Ministro da Defesa Raul Jungmann durante uma visita ao CLA em 2017.

O CLA fica à 2º da Linha do Equador ao Sul, e Kourou fica a 5º ao Norte. Só para efeito de comparação, atualmente a Boeing e a SpaceX lançam foguetes rumo à órbita inclinada ou geoestacionária a partir do Kennedy Space Center, que está 28º ao Norte.

 

Há interesse internacional pelo menos desde 2016

Foto – Força Aérea Brasileira

O governo está negociando o uso do Centro de Lançamento de Alcântara pelo menos desde 2016, quando houve o interesse de alguns países.

“Rússia, França, Israel e Estados Unidos já demonstraram interesse. Também garantiremos a participação de empresas e órgãos nacionais”, destacou o Ministro da Defesa Raul Jungmann.

Recentemente o Governo Brasileiro enviou uma proposta aos Estados Unidos, que antes deve ser analisada pelo Congresso dos EUA, e se for aprovada, ainda precisará de outra aprovação aqui, no Congresso Nacional.

O acordo com os norte-americanos é mais complicado, devido aos requisitos de um acordo de salvaguarda tecnológica, basicamente é uma forma de negociar o compartilhamento de tecnologias de ponta entre um país e outro. Os EUA querem a garantir que sua tecnologia de ponta não seja dominada totalmente por outro país, assim como o Brasil quer garantir a sua soberania e a distribuição de conhecimento através de parcerias com uma ou mais empresas dos EUA.

Centro de controle do CLA. Foto – Força Aérea Brasileira

O Centro de Lançamento de Alcântara opera há 34 anos, desde sua criação, em 1º de março de 1983. Ao todo, 475 veículos já foram lançados pelo CLA. A unidade possui em torno de 900 militares e servidores civis, que atuam nas áreas de lançamento e no apoio e suporte às atividades que envolvem as operações realizadas pelo CLA, como administração, logística, pessoal, saúde, segurança, entre outras.

 

Via – UOL