Avro Vulcan Malvinas Falklands RAF FAB Rio de Janeiro
O Vulcan B.2 Xm597 no pátio do Aeroporto Internacional do Galeão, sendo inspecionado por militares brasileiros. Foto: Eurico Dantas / Jornal O Globo

No dia 03 de junho de 1982 ocorria um dos episódios mais marcantes da história da Força Aérea Brasileira (FAB). Uma calma manhã no Rio de Janeiro seria interrompida por estrondos sônicos de um par de caças F-5E Tiger II do 1º Grupo de Aviação de Caça, partindo para interceptar um bombardeiro britânico Avro Vulcan que havia invadido o espaço aéreo brasileiro. 

A história começa no dia anterior, quando os seis tripulantes do Vulcan B.2 XM597 decolavam da Ilha de Ascenção para uma longa missão, a sexta da sequência de missões Black Buck. 

O objetivo da missão liderada pelo Squadron Leader Neil McDougall era destruir radares argentinos no arquipélago invadido meses antes pela tropas de Buenos Aires. Para isso, os britânicos decolaram com quatro mísseis antirradar AGM-45 Shrike, de origem norte-americana e que foram adaptados aos bombardeiros nucleares. 

AGM-45 Shrike Vulcan Malvinas Falklands
Mísseis AGM-45 montados em um Vulcan B.2. Foto: Time Line Images/Aviation Classics via Velho General.

As missões Black Buck estão entre as mais longas e complicadas da história da aviação militar moderna. A Ilha de Ascenção fica no meio do Atlântico a 6300 km das Falklands/Malvinas. Dessa forma, os bombardeiros precisavam do apoio de onze (!) aviões de reabastecimento em voo (REVO) Handley-Page Victor, que também transferiam combustível entre si para concluírem a missão, que tinha cerca de 16 horas de duração. 

Os britânicos chegaram na ilha no sul do Atlântico e esperaram até que os argentinos ligassem um de seus radares. No cockpit, sinais de um radar SkyGuard foram captados. Prontamente dois mísseis foram lançados contra o alvo, que foi destruído. A tripulação do XM597 começa então seu retorno para Ascenção. Então, as coisas começaram a dar errado. 

Durante o 5º REVO, a sonda de reabastecimento do Vulcan quebrou e a aeronave se tornou incapaz de chegar a ilha britânica. A única opção que restava era o pouso no Rio de Janeiro.

Operation Black Buck - Wikipedia

O Brasil mantinha neutralidade em relação ao conflito, que gerava sérias tensões na América do Sul. Ainda assim, aviões AT-26 e P-95 da FAB foram repassados aos argentinos. 

Neil traçou uma rota direta ao Aeroporto Internacional do Galeão, mas antes a tripulação do XM597 precisava resolver dois problemas: eliminar documentos secretos e se livrar dos dois mísseis antirradar que seguiam pendurados no bombardeiro Vulcan. 

Os documentos, que continham dados da missão, cartas e mapas, foram colocados numa lata de ração militar. Os aviadores colocaram pesos no “pacote”, para que afundasse nas águas do oceano. Uma escotilha no piso avião foi aberta a 43 mil pés, despressurizando o avião, mas garantido que os documentos fossem por água abaixo. 

Operação Black Buck: A invasão dos Avro Vulcan nas Ilhas Malvinas – AEROFLAP

Ainda restava o problema dos mísseis. Os pilotos dispararam um dos Shrikes, mas outro acabou ficando preso ao avião por conta de problemas técnicos, o que tornava a situação ainda mais complicada. 

E foi nesse cenário que os tripulantes do XM597 entraram em contato com o controle brasileiro. Usando o código-rádio Ascot 597, os militares afirmaram ao controle que estavam num quadrimotor britânico com emergência a bordo e pouco combustível. O controle de tráfego aéreo brasileiro negou a entrada do Ascot em espaço aéreo nacional, mas não tendo outra alternativa, McDougall seguiu conduzindo o avião ao Galeão. 

Ao mesmo tempo em que tripulação britânica tentava se salvar, um par de caças F-5E estavam sendo preparados para uma missão de treinamento na Base Aérea de Santa Cruz, zona sul do RJ. Enquanto estavam guarnecendo os jatos, os capitães Raul Dias e Marcos Coelho receberam a informação: Rojão de Fogo. 

Dentro da FAB, essas palavras significam uma invasão real do espaço aéreo brasileiro. Os mecânicos armaram os canhões de 20mm no nariz dos caças, enquanto os pilotos acionavam os aviões. Às 09h57, os F-5 4832 e 4845 decolavam de Santa Cruz, recebendo instruções do Centro de Operações Militares (COPM) para seguirem até o alvo em velocidade supersônica.

FAB-4845

Assim que romperam a barreira do som, os caças geraram um estrondo sobre o Rio, estilhaçando janelas e vidraças enquanto seguiam para interceptar o Vulcan britânico.

Acompanhado pelos F-5, o Vulcan não fez o circuito de pouso para pista 32 do Aeroporto do Galeão, executando uma aproximação direta. Após o pouso, os Tigres retornaram à Santa Cruz. A aeronave estava com tão pouco combustível que sofreu uma pane seca enquanto taxiava, sendo rebocada até a Base Aérea do Galeão. 

O incidente gerou um tremendo “estresse” diplomático entre Brasil, Argentina e Inglaterra. Ainda assim, o Itamaraty agiu de acordo com as leis internacionais: por uma semana o avião e os tripulantes ficaram retidos no país, decolando de volta para Ascenção no dia 10/06, com a condição de que o XM597 não fosse mais usado contra os argentinos, que ainda protestaram a liberação da aeronave pelas autoridades brasileiras. 

O que aconteceu com o míssil Shrike ainda é fonte de debates. Enquanto algumas fontes dizem que o armamento foi completamente confiscado e estudado pelos militares brasileiros – levando ao desenvolvimento do míssil MAR-1, cujo projeto foi abandonado -, outras relatam que ele foi devolvido posteriormente. 

Os tripulantes do Vulcan 597 no Brasil, junto de um adido da FAB. Foto: Vulcan to The Sky

Ainda assim, a guerra acabou mais cedo para os tripulantes do Vulcan. Quatro dias após a sua partida de volta a Ilha de Ascenção, a Argentina se rendia aos britânicos, encerrando uma guerra que gera polêmicas e disputas até hoje

Os aviadores brasileiros e britânicos já estão na reserva de suas respectivas forças aéreas, naturalmente. Assim como seus tripulantes, o XM597 também foi aposentado e hoje está preservado no National Museum of Flight, na Escócia, com duas marcas de mísseis Shrike e a bandeira do Brasil pintadas abaixo da janela esquerda.

O F-5 4832 foi perdido numa colisão aérea em 16/04/1985 durante um voo a baixa altura na região de Passa Quatro (MG), falecendo o Capitão Waldemar Estevão Alonso. O FAB 4845, por outro lado, foi modernizado e segue em operação. 

Fontes: Blog Velho General, Northrop F-5 no Brasil