Mirage 2000 B Cruzex FAB
Um Mirage F-2000B na CRUZEX 2013. Foto: Tenente Enilton/FAB.

Há exatamente oito anos, ocorria o último voo de um Dassault Mirage 2000 da Força Aérea Brasileira. Até a chegada do primeiro Gripen E em 2020, o delta francês era o caça com a melhor performance já operado pela FAB. 

O derradeiro voo do jato Mach 2 se deu no dia 31 de dezembro de 2013, véspera de Ano Novo. Às 10h42 daquela terça-feira, o F-2000C FAB 4948 do 1º Grupo de Defesa Aérea, o Esquadrão Jaguar, decolava para sua última viagem nas cores da Força Aérea. 

Capitão Ramalho Mirage 2000 FAB
O então Capitão Aviador Augusto Ramalho antes de decolar com o Mirage 2000 no último voo do modelo na FAB. Foto: Cabo V. Santos.

No cockpit do caça estava o então Capitão Aviador Augusto Ramalho. O militar acelerou a manete, fazendo o potente turbofan Snecma M53 rugir no cerrado brasileiro pela última vez. A proa era o Rio de Janeiro, mais precisamente o Museu Aeroespacial no Campo dos Afonsos, na zona oeste da cidade maravilhosa.

“Nossos Mirage cumpriram sua missão e agora dão espaço a equipamentos mais modernos, um ciclo se completa. É uma honra fazer o último voo, é um misto de tristeza e alegria”, comentou o Capitão Aviador Ramalho na época. 

Ás 11h53, o F-2000 pousava na pista dos Afonsos. O voo entre SBGO e SBAF marcava o fim da Era Mirage no Brasil, uma história que começou na Década de 1970 com a chegada dos Mirage III DBR/EBR, os primeiros caças supersônicos da FAB. 

De 2006 a 2013

A história dos Mirage 2000B/C na Força Aérea começou com a iminente aposentadoria dos F-103 Mirage III. Em serviço desde 1972, os Mirage III já davam os sinais das décadas de serviço. Ainda na década de 1990, a FAB já estava na busca de um caça para substituir o modelo mais antigo. Essa busca deu origem ao Programa F-X, que eventualmente acabou sendo cancelado. 

Sem opções, o Comando da Aeronáutica optou por adquirir um lote de 12 caças Mirage 2000B e Mirage 2000C usados. O contrato de 80 milhões de euros foi assinado em Paris no dia 15 de julho de 2005 entre o então Presidente Lula e sua contraparte francesa, Jacques Chirac. Os aviões foram adquiridos como uma solução temporária, algo comumente chamado de “tampão”.

O valor cobria dois Mirage 2000B bipostos, 10 Mirage 2000C, material logístico, tanques externos, equipamentos de solo, ferramental, treinamento dos pilotos e especialistas e os armamentos: mísseis ar-ar Matra Super 530D, guiados por radar semi-ativo, mísseis Matra R.550 Magic II, guiados por infravermelho e os canhões DEFA 554 com suas munições de 30mm, além das contramedidas chaff e flare. 

As aeronaves foram separadas em três lotes de quatro unidades e trazidas ao Brasil em voo. Percorrendo a rota Orange-Dakkar-Anápolis e reabastecendo em voo com os KC-135 da Armée de l’Air, os primeiros Mirage 2000 brasileiros, agora designados F-2000, chegaram ao país em 2006, recebidos em uma cerimônia na Base Aérea de Anápolis. Os jatos remanescentes foram entregues em 2007 e 2008. 

Começava, então, o serviço militar dos 2000 na FAB. Operados exclusivamente pelo Esquadrão Jaguar, os caças e os militares da unidade tinham por missão principal a defesa da Capital Federal. 

Mirage 2000 C FAB CRUZEX
Mirage F-2000C na CRUZEX 2013. Foto: Tenente Enilton/FAB.

Contudo, os Mirage adquiridos eram provenientes dos primeiros lotes de produção do modelo, fabricados entre 1984 e 1987, como aponta o site Poder AéreoAntes de serem entregues à FAB, as aeronaves passaram por uma revisão que lhes deu 1000 horas de voo, marca que foi atingida em 2011. 

A demora na definição de um novo caça no Projeto FX-2 afetou os Mirage 2000. A FAB foi obrigada a estender o contrato de suporte logístico dos Mirage, além de canibalizar metade da frota de 12 aviões em 2013. Mesmo tendo uma performance superior, a nova aviônica embarcada dos F-5M já era superior a dos caças franceses. O armamento, na forma dos mísseis Rafael Derby e Python IV, combinados com o HMD DASH IV, também “estava na frente.”

Em 2012, a FAB anunciou que os Mirage 2000 seriam aposentados em dezembro do ano seguinte. O custo operacional das aeronaves já estava alto demais e uma decisão sobre o novo caça já estava por vir. No dia 18 de dezembro, o então Ministro da Defesa Celso Amorim anunciava o Saab Gripen NG como vencedor da licitação que adquiriu 36 caças novos e transferência de tecnologia. 

Mirage 2000 KC-130 REVO FAB
Os Mirage 2000 recebendo combustível do KC-130 Hércules durante a CRUZEX 2013, última missão operacional do modelo na FAB. Foto Sargento Johnson Barros/FAB.

No dia 20 de dezembro, ocorria a cerimônia oficial de desativação dos Dassault Mirage 2000. Em 2014, os F-5EM assumiram o lugar do delta Mach 2 no cerrado, situação que deve mudar em 2022 com a chegada e introdução em serviço dos quatro primeiros F-39E Gripen. 

Remanescentes

Dos 12 caças adquiridos pela FAB, três ficaram no Brasil e os outros nove remanescentes foram vendidos. Um Mirage 2000C, o 4948, foi levado ao MUSAL. Um F-2000B está na Base Aérea de Brasília junto do Mirage III que ostenta a pintura de 30 anos de serviço do modelo no país. Uma terceira aeronave, também monoposta, ainda está em Anápolis.

Em 2019, o FAB 4940 recebeu uma pintura estilizada, homenageando o tricampeão de Fórmula 1, Ayrton Senna, e os 40 anos do Esquadrão Jaguar. Em 1989, Senna voou em um Mirage III DBR da unidade, fato que é relembrado com carinho pela Força Aérea até os dias de hoje. 

Foto: Marcos Henrique Rocha

Os nove Mirage 2000 que sobraram foram postos a venda e acabaram sendo adquiridos pela companhia francesa PROCOR em maio de 2019 por R$ 1,8 milhão. A PROCOR já tinha experiência com o jato, prestando serviços de apoio à frota mundial do modelo. Os Mirage ex-FAB serão usados pela empresa nos serviços de treinamento de combate aéreo, um mercado que vem crescendo no mundo todo nos últimos anos. 

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