Foto - Boeing/Reprodução

O Boeing 747 é sem dúvidas um dos aviões mais famosos já fabricados, e você pode provar isso ao perguntar para qualquer pessoa sobre o “Jumbo”, apelido dado ao 747 por causa do tamanho avantajado.

Depois de seis versões, 1546 aviões fabricados e meio século de existência, o Boeing 747 está lamentavelmente no fim de sua vida, com poucas encomendas fixas, mas foi um avião que deixou o seu legado, e ainda operado por uma quantidade considerável de companhias aéreas no mundo.

E neste último dia 30 de setembro de 2018 o Boeing 747 completou 50 anos, desde que foi apresentado em Everett, onde fica um dos centros de fabricação dos Estados Unidos.

Não podemos continuar esse artigo sem antes falar das origens do Boeing 747, na época o maior avião já lançado por uma empresa, posição que manteve por vários anos nas décadas seguintes.

 

Início do projeto

O Boeing 707 era um avião consideravelmente grande para a época, e com boa autonomia. Mas a Força Aérea dos Estados Unidos queria novamente um outro avião, ainda maior, principalmente para fazer transporte de carga.

Uma das exigências era uma porta de carga dianteira e quatro motores ainda mais potentes. Com base nesses pontos, quatro empresas apresentaram propostas, e depois a Boeing entrou como fornecedora.

Uma parte desse projeto virou o Galaxy C-5, fabricado pela Lockheed, e o Boeing 747 tomou certo rumo com algumas tecnologias do próprio projeto do C-5.

Joe Sutter, como projetista chefe, foi responsável por formatar essas tecnologias para o novo avião da Boeing. A porta dianteira agilizava o embarque e desembarque de carga, assim como no C-5, só não era mais rápido devido ao padrão de asa baixa, mas precisamos considerar que o Boeing 747 também era uma aeronave comercial, enquanto o C-5 era um projeto exclusivamente militar.

Os motores eram derivados do C-5, com maior potência devido ao turbofan que agora aumentou a relação de ar frio em relação à parte quente, era o novo General Electric CF-6, que foi bastante utilizado até surgir a nova geração de motores, para o Boeing 777, na década de 90.

Enquanto o mundo apostava no Concorde e no SST para o futuro, a Boeing preferiu seguir um caminho diferente, depois que uma grande companhia aérea solicitou que o Boeing 747 fosse utilizado para transporte de passageiros, ao invés de ficar com cargas de um lado para o outro.

Com ajuda da Pan Am, a Boeing formatou um avião que teria facilidade em transporte de passageiros e também de carga caso as suas vendas comerciais não fossem bem-sucedidas, fazendo da Pan Am a empresa que mais influenciou no projeto de alto risco da Boeing.

Era de alto risco porque se não houvesse a crise do petróleo na década de 70, talvez as companhias teriam optado por operar voos transatlânticos com o Concorde. E Sutter era o único projetista disponível para ser retirado do desenvolvimento de um avião, na época todos estavam concentrados no SST e no Boeing 737.

“Eles estimaram que provavelmente venderíamos mais ou menos 50 747s para uso de passageiros”, disse Sutter em uma entrevista.

 

O 747-100

O primeiro modelo do Boeing 747 já foi projetado para ser um avião de dois andares, equipado com quatro motores e uma largura capaz de receber 8 assentos por fileira. Vale lembrar que naquela época a classe econômica tinha um pouco a mais de espaço, mesmo assim era possível levar quase 350 passageiros em uma configuração típica de três classes.

Esse segundo andar pequeno na verdade era um local para a tripulação, em um voo de carga, mas que na versão para passageiros a Boeing sugeriu que fosse utilizado como Lounge.

A primeira encomenda foi realizada pela Pan Am, em 1966, quando o primeiro avião ainda estava no papel, e longe da linha de montagem. Desde então a equipe da Boeing teria 28 meses para desenvolver esse avião, em uma época de poucos computadores e CNCs, esse era um imenso marco para a fabricante.

Everett apareceu como uma solução ainda em 1966 para montar o Boeing 747, era um espaço de 780 acres, perfeito para fazer uma linha de montagem enorme, capaz de montar vários aviões dessa envergadura ao mesmo tempo, e até hoje um dos maiores centros de montagem de aeronaves do mundo.

Comissárias das companhias aéreas clientes do avião. Foto – Boeing/Reprodução

Em 1968 a apresentação oficial do Boeing 747 ocorreu exatamente no dia 30 de setembro, quando uma comitiva de 26 companhias aéreas clientes do avião puderam ver a maior aeronave para transporte de passageiros do mundo.

Foram quase cinco meses de vários entraves e problemas, que vamos descrever melhor na parte de projetos, e em 09 de fevereiro de 1969 o Boeing 747 pela primeira vez retirou seu trem de pouso do solo através da potência dos motores e da sustentação gerada pelo par de asa.

Fruto de um projeto bem congelado e amplamente testado em solo, o Boeing 747 entrou em atividade já no dia 22 de janeiro de 1970, menos de um ano após o primeiro voo, em uma rota clássica da Pan Am, ligando Nova York com Londres.

De qualquer forma o 747-100 durou pouco no mercado, e logo foi substituído pela versão -200, que surgiu em 1971 com maior desempenho. Vale ressaltar que nesse ponto o 747-200 ainda utilizava a mesma tecnologia da primeira versão, ou seja, tinha a necessidade de tripulação técnica com dois pilotos e um engenheiro de voo.

Cockpit do Boeing 747-100. Sim, nada de telas, só “reloginhos”.

Projeto

Como falamos anteriormente, esse projeto foi extremamente complexo para a Boeing, mas logo depois que as companhias aéreas demonstraram interesse, a fabricante percebeu que realmente precisava investir no projeto.

A construção em Everett começou em 1966, inicialmente seria um hangar “simples” e capaz de produzir o Boeing 747 em série, vale ressaltar aqui o tamanho da envergadura dessa aeronave.

Um Boeing 747 em montagem no centro de Everett. Foto – Boeing/Reprodução

De um modo bizarro, uma maquete em tamanho real foi construída em Everett para alguns testes, como o de emergência em voo, que utiliza as saídas de emergência. Não era bizarro por causa da maquete, até bem-intencionada, mas ela estava em um prédio que não tinha telhado naquele momento.

O primeiro teste das saídas de emergência exigiu uma mudança no projeto, principalmente na forma dos escorregadores infláveis, pois várias pessoas ficaram feridas nesta ocasião. O tempo de evasão da aeronave foi quase o dobro do permitido pela FAA.

Mapa das áreas do Boeing 747 da Pan Am.

Ainda resolvendo esse problema, a equipe de desenvolvimento estava concentrada nos testes de sistemas auxiliares, muito feitos em Renton enquanto o centro de Everett ainda estava em construção.

Uma característica do Boeing 747 é a quantidade de sistemas redundantes na aeronave, indo desde o sistema hidráulico de acionamento das superfícies aerodinâmicas, até mesmo ao trem de pouso, que foi projetado para possibilitar o pouso da aeronave mesmo que tivesse uma pane em somente um conjunto. Era um projeto baseado na “árvore de falhas”, um recurso usado para avaliar a redundância da aeronave, e evitar acidentes por problemas mecânicos.

O programa de testes ainda sofreu alguns atrasos, por problema nos motores Pratt & Whitney JD-9, acidentes como o ocorrido em dezembro de 1969, oscilações nas asas e estabilizadores em voo, e alguns problemas nos primeiros voos relacionados ao sistema hidráulico.

Algumas soluções foram importadas de outras aeronaves, a escada em espiral que levava ao andar superior, era uma ideia já implementada no 377.

 

Os anos seguintes

O Boeing 747 resistiu aos seus anos no mercado, mesmo com vários problemas gerados por crises no mercado financeiro, combustível alto, concorrentes como o DC-10, MD-11 e Lockheed Tristar, e ainda conseguiu acumular 1189 entregas ao longo de 30 anos de existência, ou neste caso 1546 em 50 anos.

Notavelmente a Boeing canibalizou a sua própria aeronave com o lançamento do Boeing 777, e suas versões de longo alcance com certificação ETOPS.

Boeing 747-100 e 747-SP.

O Boeing 747-200 foi lançado em 1971, já o novo 747-300 com aumento da capacidade de assentos chegou em 1980, um pouco antes a versão reduzida 747-SP foi lançada, com alcance ampliado e menor capacidade de passageiros.

Poucos anos depois a Boeing lançou um 747 com a mesma capacidade do -300 e novas tecnologias importadas do 767, dispensando desta forma o Engenheiro de Voo, além disso os novos motores eram mais econômicos e potentes, essa versão é a 747-400.

Boeing 747-8I, com capacidade para até 420 passageiros em três classes. Foto – Wikipédia

Já em 2008 a Boeing lançou o 747-8, baseado nos novos motores e sistemas do 787, além de um considerável aumento da fuselagem, era uma opção com maior economia de combustível para as empresas de carga.

No Brasil o Boeing 747 foi usado pela Varig, que teve na sua frota os modelos 200, 300 e 400. Esses voavam para a Europa, os EUA e rotas na Ásia.

Boieing 747 Varig
Imagem via – Blog Cultura Aeronáutica

O Boeing 747 foi um projeto que quase levou à falência da Boeing, quando ela adquiriu uma dívida de US$ 2 bilhões para desenvolver a aeronave e construir a linha de montagem em Everett. Vale ressaltar que era uma outra época, onde os 25 aviões Boeing 747 da Pan Am valiam a mesma quantia em comparação com uma aeronave 747-8 atualmente.

Foi um investimento excelente da empresa, que entregou 92 aviões deste modelo em 1970, suficiente para pagar quase todo o desenvolvimento.

Apesar disso, o Boeing 747 garante até hoje uma soberania no campo dos aviões widebody, para viagens de longa distância, onde a Boeing lidera o mercado com o 787 e o 777.

 

Bônus – Vídeo do Boeing 747 da NASA, modificado para levar o Space Shuttle na parte superior da fuselagem.