Bandeirante é um nome relacionado aos desbravadores, pessoas que adentraram o interior do Brasil ainda na época colonial, geralmente aventureiros que buscavam por preciosidades em novas terras.

Mas na aviação quando ouvimos a palavra “bandeirante” lembramos do início da maior indústria aeronáutica do Brasil, a Embraer, fundada em motivação da comercialização dessa aeronave com todo o planeta.

O projeto do Bandeirante teve início em 1965, através de uma iniciativa do Ozires Silva em relação ao desenvolvimento da indústria nacional durante o Governo Militar. Até então poucos falavam no nome “Bandeirante”, o projeto era identificado como IPD-6504.

A encomenda desse projeto foi do Ministério da Aeronáutica (existente no governo militar), a intenção era fabricar um turboélice de dois motores para 8 passageiros, e com capacidade de operar em qualquer tipo de pista, visto que a maioria dos aeroportos do Brasil na década de 60, ainda mais os regionais, não tinha pavimentação asfáltica.

Durante três anos cerca de 150 engenheiros e profissionais do CTA (Centro Técnico de Aeronáutica) ficaram a cargo de realizar os primeiros desenhos do Bandeirante, além da fabricação de componentes do primeiro protótipo. A Embraer gosta de ressaltar que boa parte da equipe era derivada de projetos brasileiros, como o avançado (para a época) Convertiplano e o helicóptero Beija-Flor, ou seja, eram pessoas com experiência em projetos de aeronaves.

Montagem dos protótipos do Bandeirante.

O primeiro ano, 1965, foi essencial para determinar as características iniciais do avião. Os engenheiros do CTA poderiam ter optado por uma solução aproximada ao Cessna Caravan, mas quiseram um avião de asa baixa, dois motores turboélice e um interior de fácil acesso para 8 pessoas.

O projeto foi liderado durante esses três anos por Ozires Silva, que era chefe do Departamento de Aeronaves (PAR), a maior parte da engenharia foi liderada por engenheiro francês Max Holstee, que era subordinado ao Ozires. Aqui ressaltamos também a participação de Guido Pessotti no projeto.

O motor, fabricado pela Pratt & Whitney, foi importado e estudado pelos engenheiros para a maior integração com a aeronave, aliás, um motor não pode ter ressonância de vibração com a asa.

O requisito de ser turboélice era compatível com o desejo que a aeronave fosse moderna e relativamente espaçosa por dentro para até 8 passageiros. Lembre-se que estou falando de uma aeronave dos anos 60.

Foto tirada cerca de uma semana antes do voo.

Um semana antes do primeiro voo a situação da aeronave era (para os leigos) de quase desesperança com a data prevista pelo CTA. A foto acima descreve bem, a aeronave estava passando por uma série revisão dos componentes para garantir que tudo estaria em ordem durante o voo.

Os motores do Bandeirante funcionaram pela primeira vez no dia 17 de outubro, incrivelmente seis dias antes do primeiro voo. Vários testes de solo foram realizados exaustivamente pelos projetistas e pilotos, para garantir a confiabilidade dos sistemas, um trem de pouso foi danificado durante um taxiamento, mas consertado antes do dia previsto.

E no dia 22 de outubro, com vários funcionários envolvidos no projeto acompanhando em solo o avião, e também com uma equipe de engenheiros em contato com os pilotos para ficar de prontidão caso qualquer problema fosse registrado.

Quem estava presente disse que a cerimônia foi emocionante, com mais de 15 mil pessoas aplaudindo e comemorando.

O primeiro voo foi realizado pelo Major-aviador José Mariotto Ferreira e o Engenheiro Michel Cury, ambos realizaram cursos na França para saber como conduzir uma aeronave experimental. Antes de entrar na aeronave e ligar os motores, os dois pilotos fizeram uma última inspeção externa, arrumaram o paraquedas e entraram no avião, para levar à frente um sonho de uma nação inteira, ser capaz de competir com fabricantes europeias e dos Estados Unidos.

Pelo rádio Mariotto e Cury descreveram o comportamento perfeito de suave do novo avião, voava como um avião já certificado, sem demais problemas.

 

Produto de série

Durantes os anos posteriores o projeto do Bandeirante foi ganhando corpo e diversas alterações, mas entre as várias etapas que o projeto passou a mais importante foi a criação da Embraer, em 1969, para a comercialização da aeronave no mercado de aviação civil, além de atender a uma encomenda da Força Aérea para 80 aviões.

Ozires Silva, que conduziu o projeto do Bandeirante, foi nomeado como presidente da Embraer no ato da sua inauguração. Até os dias atuais a Embraer fica localizada ao lado do CTA, em São José dos Campos, apesar que a expansão da empresa forçou a abrir outros locais de produção no Brasil e no exterior.

Produção em série do Bandeirante. Esse hangar existe até hoje, onde a montagem da linha Legacy é realizada.

Na Embraer o IPD-6504 virou o Bandeirante EMB-110, o nome foi sugerido pelo Brigadeiro Paulo Victor da Silva, pelo mesmo motivo citado no primeiro parágrafo deste artigo.

Em quase cinco anos de desenvolvimento, o projeto do Bandeirante ganhou diversas alterações. A fuselagem foi aumentada para levar até 12 passageiros, a parte frontal da aeronave foi atualizada para melhorar a aerodinâmica, as janelas deixaram o formato redondo para algo mais retangular, motores mais potentes, até as naceles foram atualizadas, para melhorar o desempenho aerodinâmico da asa.

Embraer 110/C-95M da FAB. Foto – André Magalhães/Aeroflap

Então o primeiro avião de série decolou pela primeira vez no dia 9 de agosto de 1972, no fim do mesmo ano a aeronave com comprovada, certificada e entregue para a Força Aérea Brasileira, a primeira cliente do avião pela Embraer.

A primeira exportação da aeronave foi em 1977, quando a Air Littoral recebeu o primeiro avião. Essa entrega abriu espaço para o Bandeirante ser certificado por agências de segurança da Europa e dos EUA.

 

Versões e atualidade

O “Bandeco” operava pela VASP. Foto de Helio Bastos, tirada em dezembro de 1973.

Com várias versões, e uso até pela TransBrasil em rotas regionais, a aeronave teve um considerável sucesso comercial para o primeiro avião da Embraer, permitindo que a empresa avançasse em outros projetos e parcerias.

Boa parte das versões era devido aos aviões de uso militar e executivo. Geralmente os militares pediam mais alterações, como o “banderulha”. Algumas versões comportam até 21 passageiros.

Ainda na década de 70 o avanço da indústria aeronáutica brasileira permitiu criar o avião agrícola Ipanema, o EMB 400 Urupema, o importante EMB 326 Xavante, e o EMB-121 Xingu.

Todos esses projetos deram força para a empresa seguir em frente e criar o EMB-120 Brasília na década de 80.

No total, foram fabricadas até 1995 cerca de 498 aeronaves, 253 aeronaves para o Brasil e 245 aeronaves vendidas para o exterior.

Vale ressaltar que os dois primeiros clientes do Bandeirante foram a TransBrasil e VASP, isso mesmo, empresas brasileiras, a TAM utilizou a aeronave em rotas regionais, para complementar o serviço dos Fokkers. Um bandeirante da TAM está no Museu de São Carlos, atualmente fechado para visitas.

Atualmente a Força Aérea Brasileira ainda voa com as aeronaves do modelo Bandeirante, no transporte de pessoas e cargas, com uma frota pro volta de 40 aviões.