O piloto imobilizado e encapuzado na caçamba da caminhonete usada para levá-lo até o campo de tiro. Imagem via La Provence.

Um piloto de caça da Força Aeroespacial Francesa (Armée de l’Air et de l’Espace) entrou com uma ação legal por conta de uma sessão de trote ocorrida em 2019, quando ao chegar em sua nova base na Ilha de Córsega, foi sequestrado, encapuzado e amarrado em um alvo de um campo de tiro. Durante 20 minutos, caças Mirage 2000 dispararam canhões e lançaram bombas perto de onde o militar de 30 anos estava imobilizado. 

A reportagem do portal francês La Provence obteve imagens exclusivas que mostram o piloto amarrado e encapuzado na caçamba de uma caminhonete, que mais tarde, em alta velocidade, foi usada para levá-lo até um alvo em forma de X no Campo de Tiro de Diane, onde foi amarrado. 

O militar amarrado alvo, já no campo de tiro. Imagem via La Provence.

De acordo com os advogados do militar, Frédéric Berna e Silvio Rossi-Arnaud, primeiro foram 10 minutos de total silêncio que foram rompidos pelo som de caças Mirage, que, durante outros 20 minutos, dispararam os canhões de 30mm e lançaram bombas perto de onde a vítima estava imobilizada. Depois disso, o piloto foi libertado e forçado a andar de volta à caçamba da caminhonete, que andou em alta velocidade. 

Tudo isso ocorreu no final de março de 2019, logo ao chegar à base. Os advogados dizem que o militar, transferido da Base Aérea 115 Orange-Caritat, foi recebido friamente pelos seus superiores logo ao chegar na Base Aérea 126 Solenzara no dia 27/03, em Córsega, afirmando que foi menosprezado. 

“Ele enfrentou o risco de morte ou de ferimentos graves devido às suas condições de transporte e às intimidações que sofreu no campo de tiro”, afirmam os redatores da denúncia.

“Os disparos dos caças (…) poderiam tê-lo ferido gravemente ou matado, sabendo que se trata de disparos de canhões de 30 mm. O alvo pretendido estando localizado a uma distância de um quilômetro, existe o risco de ricochete ou fragmentos (…) Além disso, os tiros simulados na sua direção poderiam, por um erro, um descuido de segurança, se tornar reais”, insistem.

O alvo em forma de X usado para amarrar a vítima. Imagem via La Provence.

Os advogados não especificaram a versão do Mirage 2000 usada no trote. Todavia, ao falar de outro caso, a reportagem cita o Mirage 2000D, versão de ataque ao solo do caça desenvolvido pela Dassault originalmente como um interceptador.

Apesar desse modelo não carregar canhões DEFA de 30mm internamente (como é o caso das versões monopostas), as versões modernizadas já podem carregar um pod CC422 de 30mm, uma versão mais curta do pod CC420 usado no Mirage F-1, já aposentado.

Além do 2000D, a França também opera os Mirage 2000B/C e os Mirage 2000-5F. 

Rossi-Arnaud também destacou que uma hora de voo em um Mirage 2000 equivale à 15 mil euros só em combustível: “Equipamento militar de alto nível usado em um monumental desperdício de dinheiro público”, diz o advogado. 

Pod de canhão CC422, calibre 30mm, montado no pilone embaixo da entrada de ar esquerda de um Mirage 2000D. Via Meta-Defénse.fr

Berna e Rossi-Arnaud apontaram que as queixas apresentadas nesta semana pelo piloto na cidade de Marselha “podem ​​levar à acusações de colocar deliberadamente a vida de alguém em perigo e agravar a violência”.

Contatado pelo portal, o Ministério da Defesa da França, através da porta-voz Stéphane Spet, confirmou a veracidade do trote, considerando o evento inadmissível. 

“Recentemente informado de um acontecimento ocorrido em março de 2019, o Chefe do Estado-Maior da Força Aeroespacial lançou uma investigação de comando para lançar luz sobre os fatos de que tomou conhecimento”, frisa.

“Essa investigação levou o Comando a iniciar o processo disciplinar contra os responsáveis ​​identificados. As sanções firmes foram então pronunciadas. O Chefe do Estado-Maior da Força Aeroespacial (CEMAAE) gostaria de lembrar que a Força Aeroespacial condena qualquer atividade que possa minar a integridade física e psicológica dos seus quadros e da imagem da instituição. A Força Aeroespacial colabora de forma totalmente transparente com o sistema de justiça, que atua com total independência, estando portanto à sua disposição, dependendo sobre o acompanhamento que o Ministério Público pretende dar ao ajuizamento da denúncia.” 

Não foram especificados o número de militares identificados e punidos pelo trote de março de 2019. 

Imagem via La Provence.

Segundo os portais The Guardian e Daily Mail, a vítima quebra o silêncio meses depois que outros três militares foram acusados de homicídio, depois de um trote resultar na morte de um homem de 24 anos na Academia Militar de Saint-Cyr, em 2012.

Nesse caso, a vítima acabou se afogando após ser forçada a nadar em águas pantanosas no meio da noite, sobrecarregada por equipamentos, ao som da música “Cavalgada das Valquírias” de Wagner.