F-5EM Tiger II da FAB. Foto: Sargento Johnson Barros/Força Aérea Brasileira.

Como muitos sabem, os F-5EM/FM Tiger II que servem à FAB foram adquiridos em três lotes distintos, sendo que o segundo foi adquirido em 1988 por US$ 13,1 milhões, composto de 26 aeronaves (22 F-5E e quatro F-5F) usadas da Força Aérea dos EUA.

Dos 26 aviões, 11 serviram em Esquadrões Aggressor, mais especificamente os 64th e 65th Aggressor Squadron da Base Aérea de Nellis, em Nevada. Os esquadrões aggressor (ou adversary como são chamados na Marinha dos EUA) são unidades dedicadas a representar e simular aviões inimigos em treinamento, aumentando o realismo da instrução.

Tais unidades ainda existem atualmente, tanto na USAF quanto na Marinha e nos Fuzileiros Navais, mas seu papel vem sendo realizado cada vez mais por companhias privadas operando caças de vários modelos, como Mirage F-1, IAI Kfir, A-4 Skyhawk e até mesmo o próprio F-5. 

Mas, voltando ao que interessa. O foco é um dos F-5E ex-aggressor e uma pequena curiosidade de sua vida antes de chegar à FAB. Vamos falar do F-5 matrícula 74-01557, o atual F-5EM FAB 4875. 

A foto abaixo mostra militares do 4477th Test and Evaluation Squadron (4477th TES), Esquadrão Red Eagles, posando com o 01557 na década de 80. Criado em 1977, o Red Eagles era a unidade secreta da USAF responsável por manter e voar caças soviéticos capturados em plena Guerra Fria, principalmente os MiG-17 Fresco, MiG-21 Fishbed e MiG-23 Flogger. 

Militares do 4477th TES com o F-5E 14-01557. Foto: USAF via Wikimedia.

Antes mesmo da existência do Red Eagles, pilotos da Força Aérea, Marinha e Fuzileiros, selecionados a dedo e voando inicialmente em Groom Lake (região que hoje abriga a infame Área 51) e mais tarde a partir do Tonopah Test Range, no deserto de Nevada, tiraram o máximo de detalhes sobre a performance dos caças mantidos em extremo segredo, além de obter informações sobre os materiais usados na sua fabricação. 

As aeronaves recebiam matrículas provisórias seguindo o padrão americano – YF-110 para os MiG-21 e YF-113 para os MiG-23, com diferentes unidades e variantes do MiG-17 usando as mesmas designações com sufixos adicionados no final – com os mecânicos fazendo milagres para manter os caças em condições de voo, já que a obtenção de manuais e peças sobressalentes era mais do que difícil, envolvendo bastante o contrabando por parte de fornecedores da CIA. 

Uma das fotos mais famosas dos MiGs americanos mostra um par de caças F-5E em formação com um MiG-17 Fresco (líder) e um MiG-21F Fishbed. Foto: USAF via Wikimedia.

Até hoje não se sabe ao certo quantos e quais modelos de aeronaves de origem soviética ou chinesa foram capturados e/ou adquiridos pelos EUA e, mais tarde, estudados “até os ossos” pelos membros do 4477th TES e demais unidades e comandos da USAF. 

O fato é que os trabalhos de inteligência “mudaram a cabeça” dos EUA. Dois anos antes da fundação oficial da unidade, a USAF realizou a primeira edição do mundialmente famoso exercício Red Flag, considerado o mais completo treinamento de combate aéreo atualmente, realizado em múltiplas edições ao longo do ano com a participação de diversos países. 

MiG-23 Flogger do 4477th TES.

Evidentemente, a foto do F-5E 01557 com os membros do Red Eagles não é uma prova cabal de que ele realmente voou contra os MiGss capturados, mas pode ser considerada uma forte indicação disso. 

O 01557 foi adquirido pela FAB com outros 25 caças em 1988, na época em que a aeronave servia ao 65th Aggressor Squadron. Em 13 de outubro do mesmo ano, o 4875 chegou à Base Aérea de Canoas (RS), seu novo lar, com outros cinco Tigers acompanhando o Boeing KC-137, marcando o primeiro de seis voos de traslado trazendo os “novos” caças do Esquadrão Pampa (1º/14º GAv).

Os F-5E FAB 4864, 4857, 4875 e 4862 sobrevoando o litoral gaúcho em 1989. Foto: Livro do Northrop F-5 no Brasil/Arquivo Leandro Casella.
O 74-01557 pode ser visto nesse conjunto de artworks ostentando o esquema New Blue quando ainda era da USAF. Autor desconhecido.

De acordo com o livro Northrop F-5 no Brasil, de Leandro Casella e Rudnei Dias da Cunha, o 4875 chegou com matrícula errada (4877), o que foi corrigido mais tarde. Pintado com a inscrição “The Old Rooster” no frame do canopy, o 75 ostentava o esquema de pintura “New Blue”, também usado pelos 4857, 4859 e 4869.

Antes do processo de modernização, os F-5 ex-aggressor foram operados exclusivamente pelo 1º/14º. Em agosto de 2006 a aeronave voltou à Canoas, agora recém modernizada pela Embraer e AEL Sistemas (Elbit Systems). Curiosamente, em 2008 o 4875 voltou à Nellis quando o Esquadrão Pampa foi enviado para participar da Red Flag 2008-03. 

O F-5EM Tiger II 4875 segue em serviço na FAB. Segundo informações, a aeronave está no 1º Grupo de Aviação de Caça, sediado na Ala 12 (Base Aérea de Santa Cruz), no Rio de Janeiro. 

Caças F-5EM no pátio da Base Aérea de Santa Cruz (Ala 12), sede do 1º Grupo de Aviação de Caça, em 2018. O 4875 pode ser visto logo após o avião em primeiro plano. Foto: Sargento Johnson Barros/FAB.
Os F-5EM 4875 e 4845 em Canoas, 2015. Foto: Leandro Krentz.
O F-5EM 4875 na Base Aérea de Canoas em 2015.

Artigo atualizado às 20:23 de 08/05*