Análise: Recuperação da Alitalia pode diminuir drasticamente o tamanho da frota

Há poucos dias o próprio Governo da Itália, que tenta contornar crises econômicas cumulativas, declarou que o Ministério da Economia e Finanças do país vai passar a controlar a Alitalia, que já passou anteriormente pela mão estatal.

A Alitalia foi novamente salva enquanto enfrentava uma grande crise financeira, tendo prejuízo milionário, e sem reação das empresas acionistas. A posse do controle da empresa mudou, mas os problemas operacionais são os mesmos, e agora o governo (já apertado pelo COVID-19) precisará agir.

É inegável que a Alitalia precise atualmente de uma verdadeira agitação na sua administração, organização operacional e nas finanças, se quiser sobreviver para além dos próximos meses.

Antes da crise intensa e repentina do COVID-19, a companhia já torrava 2 milhões de euros por dia, mesmo operando seus voos normalmente e gerando receita.

Novo interior reformulado foi positivo para a Alitalia.

Assim como é inevitável a reformulação, também é inevitável os cortes na ineficiente frota da companhia aérea. Uma nova proposta aponta que a companhia pode ter uma frota de 25 a 30 aeronaves no futuro, em contraste com as 93 aeronaves atualmente em sua frota.

A companhia também pode diminuir drasticamente, e dessa vez sem choro, do quadro de funcionários. De 12000 para aproximadamente 3000.

“O governo disse que 25 a 30 aeronaves seria apenas o ponto de partida, mas estamos preocupados que a frota não será expandida quando a emergência terminar”, disse um sindicato de tripulantes à Reuters.


O corte na frota diminuiria drasticamente o custo operacional da empresa, e provavelmente levaria a Alitalia a ter somente aviões próprios, sem compromisso com leasing. 

No entanto, a diminuição repentina da frota joga a companhia em diversos problemas para resolver:

  • O primeiro é a concorrência frente às europeias, todas bem fortes, que poderiam minimizar a Alitalia ao máximo, aplicando preços com intenção de fazer a empresa “sumir”.
  • O segundo problema é ficar com aviões “velhos”, que gastam mais combustível e exigem um maior cuidado com a manutenção. No longo prazo não é viável, no curto, ajuda a companhia pelo menos a sair do ‘buraco’.
  • No terceiro caso, é a Alitalia tentar operar com poucos aviões como uma companhia “tradicional”. Isso não dá certo!
  • No quarto caso, logicamente essa diminuição causará um extenso corte de voos, e não será possível atingir 100 destinos como atualmente, diminuindo os voos diretos da Itália para outros países.

 

Mas nem tudo é um enorme problema, podemos avaliar algumas opções abaixo, que podem ser aplicadas na Alitalia:

Modernização da frota e diminuição dos custos

Neste momento, com o petróleo nas suas mínimas e demanda baixa de QAV (Querosene), o custo do combustível virou algo insignificante.

Mas essa situação não ficará assim daqui um a dois anos. Da mesma forma, a renovação da frota de uma companhia aérea precisa ser pensada com antecedência, ninguém fabrica um avião em dois dias, nem quando a Airbus está com pressa e decide retirar 63 aviões A320neo da linha de montagem em um mês. 

Em termos de sua frota, a atual linha de aeronaves da Alitalia inclui cerca de 15 aviões que se aproximam ou têm mais de 20 anos de idade. Outros 50 ou 60 aviões têm mais de 10 anos de uso, algo não tão preocupante.

Na linha dos aviões de corredor único são 22 Airbus A319, 38 do irmão maior (A320), e 7 da versão A321. Já para sua frota de voos de longa distância a Alitalia conta com 14 aeronaves A330, fabricadas pela Airbus e mais 12 aviões Boeing 777, sendo que somente um é o 777-300ER (não faz sentido).

Analisando a fundo, o A319ceo já foi um bom avião para a sua categoria, nos dias atuais, com opções muito mais econômicas e que oferecem mais espaço a bordo e 20% de economia de combustível. Esse avião é o A220-300, escolhido por companhias como a JetBlue, Air France e Air Baltic.

O A220-300, lançado pela Bombardier e adquirido pela Airbus, oferece um espaço interno para até 160 passageiros, com alcance de 6400 km e promete um consumo de combustível até 20% menor em comparação com o A319ceo. O baixo preço de leasing/aquisição, comparando com a família A320neo, é outro grande atrativo.

Esse avião citado no parágrafo anterior é ideal para substituir as aeronaves do modelo A319ceo e A320ceo, com uma eficiência superior. Companhias como a Air France e a JetBlue tomaram essa decisão, substituindo os seus A320ceo pelo A220-300, mesmo com a menor capacidade de passageiros, quando comparamos os dois.

No campo dos aviões de voos de média e longa distância, a Alitalia tem diversas opções, algumas até muito boas e com slots de produção que garantem uma renovação mais rápida.

A Airbus disponibilizou nos últimos anos um avião que mudou o mercado novamente, em um conceito que já existiu com o Boeing 757. Esta aeronave é o Airbus A321XLR, e a versão A321LR (abandonada por alguns a favor da primeira que foi citada), possibilitando voos com 240 passageiros por até 8700 km.

A eficiência do A321XLR em voos transatlânticos e de média distância fez a Airbus acumular quase 500 pedidos só nos primeiros 6 meses de produto no mercado. Um número bastante significativo. Algumas companhias europeias, como a Air France e a TAP optaram por essa versão.

O atual uso do A330ceo facilita a transição de tripulantes e mecânicos para o novo avião.

A Alitalia ainda tem a opção de incluir na sua frota o A330neo ou o Boeing 787 Dreamliner, sendo que este último é amplamente utilizado por diversas companhias aéreas, com mais de 1400 pedidos, e variantes que podem transportar de 250 a 330 passageiros em duas classes, uma flexibilidade impressionante.

Para a sorte da Alitalia, é possível encontrar algumas unidades do 787 já utilizadas no mercado de leasing, com menor valor quando comparamos com uma aeronave nova de fábrica. Já a Airbus concede generosos descontos para o A330neo, como tentativa de ganhar mais encomendas.

Renovar a frota da Alitalia é uma questão de tempo. Com o passar dos anos ficará cada vez mais necessário, porém, a decisão precisa ser tomada em breve, visto que as entregas são progressivas, e ocorrem ao longo de vários anos.

 

Importância da Alitalia para o país

Foto – Alitalia/Divulgação

Não é raro o próprio governo utilizar aviões da Alitalia para transporte de apoio, bem como o próprio Papa, a maior figura do cristianismo no mundo, utilizar os aviões da Alitalia para transporte.

Uma vez o próprio Papa realizou um casamento a bordo. Com certeza um privilégio para poucos.

Neste ponto a Alitalia atende bem o quesito de “companhia de bandeira” e justifica tantas tentativas do governo de tentar resolver a situação, apesar da concorrência desleal, má administração, e dos sindicatos, sempre jogarem a companhia na fossa.

 

Nossa proposta de reformulação

Não posso terminar esse artigo sem declarar a minha opinião de reformulação para a Alitalia, visto que analisamos o caso de uma emblemática companhia, e que em partes lembra a saudosa Varig.

A Alitalia precisará mesmo de uma profunda reformulação administrativa, inclusive com diminuição de salários e renegociação de contratos.

Além disso, a companhia precisa rever seus serviços, e tentar equilibrar os custos de fornecê-lo ao passageiro e obter lucro, talvez o maior gargalo da companhia depois do quadro de funcionários.

A reformulação da frota é ideal até mesmo para aumentar a vantagem competitiva da companhia quando ela for privatizada novamente, algo que deverá ocorrer de qualquer forma.

No mais, desejamos um futuro feliz para a Alitalia, com bons voos.

 

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