O dia 20 de maio tornou-se uma data histórica para a Força Aérea Brasileira, o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA) e o Centro Regional de Controle do Espaço Aéreo Sudeste (CRCEA-SE). 

Neste dia entrou oficialmente em operação o Projeto TMA-SP Neo: Reestruturação da Área de Controle da Terminal (TMA) São Paulo. O empreendimento integra o Programa SIRIUS Brasil, que trata da estratégia de evolução do Sistema de Gerenciamento de Tráfego Aéreo (ATM) brasileiro, sob a responsabilidade do DECEA.

O primeiro voo a inaugurar o novo procedimento para o Aeroporto de Guarulhos foi uma aeronave da Azul Linhas Aéreas (AZU2014), às 4h23 UTC, 01h23 no horário de Brasília, fazendo uso do Point Merge System, método que visa otimizar o sequenciamento das aeronaves em descida para pouso, especialmente nos momentos de alta demanda. Este é o maior aeroporto do País em volume de tráfego aéreo, com mais de 24 mil voos por mês.

Funciona assim: as aeronaves entram por dois arcos, separadas em 1.000 pés. Cada uma em um momento adequado, segue para um ponto de convergência – o Point Merge, prosseguindo, posteriormente para o pouso. Utilizado em alguns países do mundo, o método será aplicado para as aeronaves que acessam a Terminal São Paulo.

Mas não foi só a Terminal São Paulo que passou por modificações. As TMA Rio de Janeiro (RJ), Pirassununga (YS), Curitiba (CT), Florianópolis (FL) e Porto Alegre (PA) foram adaptadas para atender a nova circulação de São Paulo. Por exemplo, destaca-se que a área da Ponte Aérea Rio-São Paulo ficará sob a jurisdição do Controle de Aproximação do Rio de Janeiro (APP-RJ).

O primeiro movimento foi acompanhado no APP-SP, na capital paulista, pelo Chefe do Subdepartamento de Operações (SDOP) do DECEA, Brigadeiro do Ar Eduardo Miguel Soares, pelo Comandante do CRCEA-SE, Coronel Aviador Chrystian Alex Scherk Ciccacio, pelo Diretor do Instituto de Cartografia Aeronáutica (ICA), Coronel Engenheiro Alessander de Andrade Santoro, pelo gerente do Projeto TMA-SP Neo, Major Aviador Sergio Luiz Marques Malecka, além de muitos outros militares que se dedicaram aproximadamente três anos para essa realização.

De acordo com o Brigadeiro Miguel, o principal ganho será no balanceamento dos setores da Terminal São Paulo, o que vai refletir no aumento da capacidade do fluxo aéreo. O Chefe do SDOP também chamou atenção para o novo conceito que está sendo aplicado pela primeira vez no Brasil: o Point Merge.

“Este procedimento permite que a aeronave reduza a necessidade de fazer esperas usuais e isso faz com que o piloto possa ganhar tempo e fazer a aproximação de uma maneira mais rápida, otimizando os fluxos dos movimentos que se aproximam para Guarulhos”, disse o Brigadeiro Miguel.

A implantação foi dividida em duas fases. A primeira, de transição, foi iniciada no dia anterior à 00:00 UTC, 21h no horário local, com a entrada do novo ciclo AIRAC (Regulamentação e Controle de Informação Aeronáutica) – um calendário internacional e permanente, estabelecido pela Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), que fixa as datas para a divulgação de dados ou mudanças relacionadas à infraestrutura da navegação aérea, bem como novos procedimentos de voo.

Durante quatro horas, determinados procedimentos da circulação aérea anterior permaneceram sendo utilizados para que a troca para o novo fosse feita em um momento mais apropriado, de baixa demanda, às 04:00 UTC (01h local) do dia 20, conforme previsões do Centro de Gerenciamento da Navegação Aérea (CGNA). Os desafios desta fase eram bem conhecidos.

O Major Malecka conta que, apesar de serem necessárias correções manuais em diversos planos de voo, estavam todos preparados e as equipes reforçadas para absorver a alta demanda: “As intercorrências foram mínimas, considerando a realidade da implementação de um projeto com esta magnitude”.

Concluído este prazo, às 04:00 UTC (01h local), foi oficialmente implementado o Projeto TMA-SP Neo.

“Ficamos orgulhosos do resultado. A transição ocorreu de maneira bastante tranquila. Nos momentos de maior demanda, logo após a mudança, entre 6h e 7h, os controladores puderam colocar em prática todo o treinamento que tiveram no laboratório de simulação do Instituto de Controle do Espaço Aéreo (ICEA). O excelente desempenho de toda a equipe valida o trabalho de planejamento feito desde o início”, falou o Major Malecka.

Para o Coronel Santoro, o sucesso na implementação era esperado já que, em todo o trabalho realizado, o que se almeja é a melhoria do espaço aéreo para os usuários dos serviços.

“São poucos os países no mundo que têm capacidade, conhecimento ou condições de realizar um projeto como este que executamos no espaço aéreo brasileiro”, esclarece o diretor do ICA.

O Coronel Santoro ressaltou, ainda, que a estrutura de desenvolvimento do Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro (SISCEAB) permite a utilização dos principais meios para que o controle de tráfego aéreo seja coordenado de maneira eficiente: “Gostaria de parabenizar todos os envolvidos neste trabalho belíssimo que foi feito. No futuro vamos nos reunir de novo para melhorar nossos processos porque queremos e podemos melhorar”.

 

Benefícios

A remodelação da Terminal São Paulo tem como objetivo principal o aumento da capacidade  e, com isso,  redução de esperas no sequenciamento de aeronaves em descida e, também, de atrasos, relacionados à capacidade do espaço aéreo.

E, consequentemente, favorecer a redução do consumo de combustível e emissão de gás carbônico, além de atenuar a emissão de ruído aeronáutico nos entornos dos aeroportos. As melhorias alcançadas possibilitam, ainda, a redução da carga de trabalho de pilotos e controladores.

O Chefe do SDOP explicou que a Terminal São Paulo estará preparada para os próximos dez anos, em termos de aumento de até 10% na capacidade dos movimentos aéreos: “Isso vai permitir melhor fluxo, principalmente, em momentos de alta demanda”.

Responsável pela comunicação inaugural do Point Merge com a aeronave da Azul, o Segundo Sargento Rafael Mariano dos Santos, assegurou que, com a TMA SP-Neo, houve balanceamento entre os setores de entrada de Guarulhos com opções a Nordeste, Noroeste e Sudoeste: “As mudanças trazem eficiência e, consequentemente, torna-se possível controlar mais aeronaves ao mesmo tempo”.

Com a entrada em operação do TMA-SP Neo, foi atualizada a nomenclatura dos procedimentos RNAV (navegação aérea) – trajetória de aproximação em que são seguidos waypoints, previamente definidos, terminologia que é preconizada pela OACI.

“Os procedimentos que até então eram chamados de RNAV agora passam a se chamar RNP – Navegação Baseada em Performance (PBN) – que permite que uma aeronave voe uma trajetória específica entre dois pontos definidos tridimensionalmente no espaço”, completou o Sargento Mariano.

 

Gênese

O projeto TMA SP-Neo teve várias fases de planejamento, iniciadas em 2017, com um cronograma para execução e a definição de ações operacionais e técnicas. A primeira fase foi a análise de documentos que permitissem desenvolver algo tangível para o espaço aéreo, que concentra a maior circulação de tráfego no País, a TMA São Paulo.

Também foi feita uma pesquisa com controladores de tráfego aéreo (ATCO) e pilotos para verificar a opinião dos envolvidos no processo. O plano estratégico, tático e operacional reuniu, além do SDOP, o CRCEA-SE – à época Serviço Regional de Proteção ao Voo de São Paulo (SRPV-SP), os Centros Integrados de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (CINDACTA I, em Brasília; CINDACTA II – em Curitiba), o Centro de Gerenciamento da Navegação Aérea (CGNA) e o ICA.

Na sequência, foi feito um prognóstico em um simulador de tempo acelerado para modelagem das rotas e dos aeroportos para identificar necessidades e melhorias. Este ciclo foi fundamental para que a experiência e a habilidade dos ATCOs servissem de base para que os elaboradores do espaço aéreo fizessem o aperfeiçoamento da terminal mais movimentada do País.

O próximo passo foi a realização do exercício de simulação em tempo real (STR), momento em que, mais uma vez, os controladores participaram do processo com sugestões e/ou modificações. O objetivo foi a adaptação dos ATCOs à nova circulação.

A próxima etapa foi a produção de cartas de procedimentos de navegação aérea, para início do cronograma de treinamento, pelo qual passaram todos os controladores das áreas onde a circulação foi alterada: TMA Rio de Janeiro (RJ), Pirassununga (YS), Curitiba (CT), Florianópolis (FL) e Porto Alegre (PA). Foram 213 cartas aeronáuticas, validadas em voo pelo Grupo Especial de Inspeção em Voo (GEIV), para garantir a correção e a qualidade das publicações.

A atividade de treinamento foi iniciada com o lançamento das novas trajetórias de exercícios. Durante esse processo, observou-se que os ATCOs utilizaram menos comunicação via rádio e, como resultado, houve diminuição da carga de trabalho e, consequente, aumento de capacidade dos setores.

Desde o início, o trabalho foi pautado pela Tomada de Decisão Colaborativa (CDM). Nesta fase, profissionais flight standard das companhias aéreas – pilotos responsáveis por instrução, padronização e doutrina operacional das empresas aéreas – fizeram visitas de acompanhamento ao processo de treinamento e simulação da nova circulação. A doutrina operacional foi desenvolvida com o conhecimento de todas as pessoas envolvidas.

Para o Coronel Ciccacio, houve bom planejamento, ainda que o cronograma fosse extenso e permeado de subetapas – de enorme importância -, mas, com a participação de vários stakeholders, como a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (ABEAR), a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), as empresas aéreas, aeroportos e associações de pilotos.

“Eles não só fizeram sugestões, mas validaram em simulador o projeto. No caso dos parceiros, a IATA trouxe um experiente designer de Terminais (que foi da FAA – Federal Aviation Administration), para ministrar um workshop com os técnicos da nova terminal. Walter White é um dos melhores técnicos de design e hoje presta consultoria em todo o mundo”, explicou.

Finalizando, o Comandante do CRCEA-SE disse: “Tenho orgulho de ter participado de um projeto tão bem planejado e que envolveu toda a comunidade aeronáutica e que, com certeza, vai trazer bons resultados. Após a implantação só nos cabe parabenizar todos os envolvidos e, particularmente, o gerente que iniciou o projeto, Tenente-Coronel Aviador Robson Laube Roque Moreira, e o atual, Major Malecka, sem esquecer do apoio prestado pelos ex-chefes do SDOP, Major-Brigadeiro do Ar Luiz  Ricardo de Souza Nascimento, Major-Brigadeiro do Ar Fernando César da Costa e Silva Braga e o Brigadeiro do Ar Ary Rodrigues Bertolino. Ressalto, ainda, que não podemos deixar de perseverar na busca da melhoria contínua do SISCEAB”.

 

Via: Assessoria de Comunicação Social do DECEA