Os cinco primeiros jatos com as "pinturas" comemorativas. Foto: Mercurio Studi - Mirco Pecorari via The Aviationist.

Celebrando seus 60 anos, a Frecce Tricolori, equipe de demonstração da Força Aérea Italiana, apresentou cinco jatos MB-339PAN com pinturas especiais aplicadas no estabilizador vertical das aeronaves. 

As pinturas, que na verdade são adesivos, foram criadas pelo artista italiano Mirco Pecorari do AircraftDesignStudio, inspiradas nas equipes da década de 1950 que precederam a Frecce, criada em 1961: Cavallino Rampante, Getti Tonanti, Tigri Bianche, Diavoli Rossi e Lancieri Neri.

“Eu re-imaginei os emblemas ostentados nos anos 50 pelos F-86 e F-84F pertencentes às equipes de exibição acrobática que antecederam o Frecce Tricolori, para que pudessem ser aplicados na cauda do MB-339”, disse Mirco ao portal The Aviationist

“O projeto prevê a entrega de 11 aeronaves aos jatos da equipe: a ideia é que as 5 pinturas sejam aplicadas em 5 pares de MB-339 com uma décima primeira aeronave com cauda especial com a insígnia dos 60 anos. […] Embora pareça que eles são pintados, o que você vê na cauda da aeronave são na verdade adesivos: fizemos vários testes em voo antes de encontrarmos os materiais certos que poderiam ser instalados na aeronave, cobrindo os existentes tinta, e não seria descascado pelo voo em alta velocidade dos jatos”.

Detalhe das caudas dos jatos MB-339PAN. Foto: Mercurio Studi – Mirco Pecorari via The Aviationist.

Antes da fundação da Frecce Tricolori, em julho de 1961, oficialmente designado 313° Gruppo Addestramento Acrobatico (Grupo de Treinamento Acrobático), houveram diversas equipes de demonstração, todas baseadas em esquadrões operacionais da própria Força Aérea Italiana (Aeronautica Militare – AMI). 

A primeira foi a Cavallino Rampante (Cavalinho Empinado) do 4º Stormo (Ala), com os jatos De Havilland DH 100 Vampire recém chegados à AMI. A denominação foi inspirada pela heráldica da unidade. Nas apresentações de 30 minutos, quatro jatos realizavam simulações de ataque, passagens com velocidades mínimas dentre outras acrobacias e manobras.

A equipe se apresentou pela primeira vez em Roma em 2 de junho de 1952, e realizou sua primeira transferência para o exterior para Melsbroek, na Bélgica, em 13 de julho do mesmo ano. O sucesso foi tamanho que a Força Aérea decidiu dar seguimento a esse tipo de atividade.

Vampire da AMI. Foto: Aldo Bidini via Wikimedia.
Cavallino Rampante na cauda do MB-339. Foto: Mercurio Studi – Mirco Pecorari via The Aviationis

No mesmo ano, o 5º Stormo estava recebendo seus primeiros Republic F-84G Thunderjet. A unidade e seus esquadrões subordinados (101°, 102° e 103° Gruppo) receberam a incumbência de formar a nova equipe de demonstração, batizada como Guizzo, callsign do 103º Gruppo. 

As quatro aeronaves “Guizzo” se apresentaram pela primeira vez em 14 de abril de 1953 na Base Aérea de Villafranca, seguidas de participações em shows aéreos em Soesterberg (Holanda), Livorno, Lucca, Caselle e Centocelle e, em 1954, Madrid (Espanha), Colônia e Nuremberg (Alemanha).

Em 1955, a AMI definiu que a responsabilidade de representar a Força Aérea e o país com uma equipe acrobática seria atribuída à cada Unidade de Caça com base em rodízio anual. Uma equipe serviria como “reserva” por um ano e como “regular” no ano seguinte, explica o portal. 

Nesse ínterim, em 1953, a 53 Aerobrigata, de Aviano, também deu origem a uma nova equipe acrobática. Equipada com quatro F-84G, e inicialmente conhecida como Equipe “Bellagambi”, em homenagem ao nome de seu líder, a equipe estreou em 13 de setembro de 1953, durante show aéreo em Ferrara, onde foi chamada para representar a Força Aérea no lugar da Guizzo, que estava se apresentando em Lucca.

Desativada e reconstituída em 1955, a equipe foi rebatizada de “Tigri Bianche” (Tigres Brancos, homenageando a insígnia do 21° Gruppo) e foi a primeira equipe a adotar uma pintura especial para distinguir suas aeronaves das em uso com unidades operacionais.

Devido ao envolvimento dos Guizzos na realização do filme “I Quattro del Getto Tonante” (“Os Quatro dos Jatos Trovejantes”, tradução italiana do nome do F-84G), um longa-metragem sobre a vida dos pilotos da equipe, o Tigri Bianche realizou uma longa série de exibições na Itália e no exterior durante sua primeira temporada como equipe reserva.

Entre os shows mais importantes estava o realizado em Tours (França), durante o qual os quatro F-84 apresentaram o downward bomb burst, manobra similar ao Looping com Desfolhado da Esquadrilha da Fumaça da Força Aérea Brasileira. Terminadas as filmagens do filme, em 1956, os Guizzos mudaram o nome para Getti Tonanti, participando em algumas exibições com uma manobra criada especialmente para a filmagem do filme: o tunô duplo.

Em 1957, a equipe era a “Cavallino Rampante” da 4 Aerobrigata, pilotando o Canadair CL13 Sabre MK4 (F-86E Sabre), equipado com geradores de fumaça que podiam ser controlados pelos pilotos e uma pintura colorida que decorava todo o jato. Sua estreia oficial foi em 27 de março na Base Aérea de Pratica di Mare, enquanto sua exibição em 31 de agosto de 1957, na Base Aérea de Rimini, é lembrada pela introdução à equipe de uma quinta aeronave, juntando-se às quatro originais.

A equipe efetiva em 1958 foi o Diavoli Rossi (Diabos Vermelhos), da 6 Aerobrigata, voando F-84F Thunderstreak, que fez sua estreia em 11 de março de 1957 na Base Aérea de Vicenza, quando atuava como equipe reserva. A partir de 15 de março de 1958, a equipe exibiu cinco aeronaves e mais uma solo.

Com seus sete F-84F, os Diavoli Rossi estiveram presentes em muitos shows aéreos, com destaque para o de Aviano, durante o qual a equipe italiana “competiu” contra a esquadrilha Sky Blazers da Força Aérea Americana. Asta apresentação resultou no Diavoli Rossi recebendo um convite para se apresentar nos Estados Unidos em abril de 1959, por ocasião do primeiro Las Vegas World Flight Congress.

Durante sua turnê americana, na qual o Diavoli Rossi voou em F-84F disponibilizados pela Escola de Armas da Base Aérea Luke, que foram pintados em um esquema ligeiramente diferente do usual.

Enquanto isso, em Cameri, a equipe Lanceri Neri (Cavaleiros Negros) da 2 Aerobrigata foi criada como a esquadrilha oficial para 1959, equipada com seis CL13 pintados de preto nos quais, pela primeira vez, as cores nacionais da Itália apareceram sob o asas e nos estabilizadores.

A equipe se apresentou em diversos eventos aéreos nacionais e internacionais e participou do mais longo traslado de formação feito por aeronaves da AMI participando, a convite do Xá da Pérsia, de um importante show aéreo em Teerã.

Cauda dos Lanceri Neri. Foto: Mercurio Studi – Mirco Pecorari via The Aviationist.

Em 1959, a Getti Tonanti voltou com os F-84F, voando inicialmente aeronaves com pintura padrão ostentando apenas o logotipo da “Deusa Diana, a Caçadora” , mas que, a partir da temporada seguinte, e coincidindo com as Olimpíadas de Roma , foram decorados com os anéis coloridos símbolo dos Jogos Olímpicos.

Em 1960 o Estado-Maior da Aeronáutica decidiu interromper o principal rodízio de formação de equipes para racionalizar o emprego de recursos humanos e aeronaves. A presença de duas equipes em duas Brigadas Aéreas havia se tornado insustentável, tal era o esforço no treinamento dos pilotos, que os desviava da atividade operacional. Decidiu-se então criar uma unidade definitiva que seria dedicada ao treinamento de acrobacias.

Em 16 de janeiro de 1961, por meio da portaria 5567/243, o Estado-Maior da Aeronáutica expediu o comando para a constituição do 313 ° Gruppo Addestramento Acrobatico, a partir de 1º de julho do mesmo ano, com sede na Base Aérea de Rivolto, na província de Udine.

No novo Esquadrão, seis CL13 foram combinados com quatro pilotos da equipe da 4 Aerobrigata, que no plano original deveriam ter sido nomeados como a equipe efetiva naquele mesmo ano. A estes pilotos juntaram-se outros que já tinham servido no Diavoli Rossi e Tigri Bianche. O “core” desses pilotos veio da equipe Cavallino Rampante e, portanto, teve o direito de escolher o indicativo de rádio da Unidade, que sobrevive até hoje: “Pony” – ao invés de “Freccia” (italiano para “Flecha”) ou “Rivo” (depois de Rivolto), como alguns sugeriram.

Hoje, a Frecce Triccolori é uma das equipes mais admiradas e reconhecidas no mundo. Depois de usar os Sabres, a esquadrilha empregou o Fiat G.91 entre 1964 e 1982, quando foram substituídos pelos atuais MB-339PAN, que deverão dar lugar ao Leonardo M345. 

Aeronave M-345 HET na pintura da Frecce Tricolori. Foto: Autor Desconhecido.