NAe A-12 São Paulo

Um grupo brasileiro e um ex-almirante turco tentam impedir o sucateamento do Porta-Aviões São Paulo da Marinha do Brasil (MB), vendido por R$ 10,55 milhões à companhia turca Sok Denizcilik em um leilão realizado em março. 

Segundo o Defense News, o Instituto São Paulo/Foch está trabalhando para tornar a embarcação em um museu, impedindo que o navio seja levado à Turquia para ser transformado em sucata. Antes de se tornar o NAe São Paulo da MB, o porta-aviões pertenceu à Marinha Francesa, onde era batizado de Foch. 

O Foch, segundo navio da Classe Clemenceau, começou a ser construído em 1957 e esteve em serviço na França entre 1963 e 2000, mesmo ano em que foi adquirido pela MB para substituir o NAeL Minas Gerais, com o acordo bilateral para o navio estipulando o Brasil como seu “usuário final”. O NAe São Paulo entrou ao serviço da Marinha do Brasil em novembro de 2000.

O Porta-Aviões São Paulo atracado na Ilha das Cobras, onde passou a maior parte do tempo da sua carreira. Foto: Alexandre Galante – Poder Naval via Airway.

Depois que o Brasil descomissionou o navio em 2018, o governo iniciou o processo de venda, enquanto o Instituto São Paulo/Foch buscava convertê-lo em museu.

O governo não conseguiu encontrar um comprador no ano passado, mas depois vendeu o navio para a empresa turca Sok Denizcilik em um leilão no por cerca US$ 1,85 milhão para desmontá-lo. Mas o Instituto São Paulo/Foch não desistiu.

“Nossa história ainda não terminou com a venda do navio”, disse Emerson Miura, presidente do instituto, ao Defense News. “O descomissionamento do porta-aviões São Paulo deixou muita gente descontente. O porta-aviões São Paulo (ex-Foch) continua sendo o último navio de sua categoria e um dos mais antigos do mundo. Nosso instituto foi proibido de participar da compra porque o edital do leilão especificava a venda para corte”.

Emerson acrescenta que o Instituto está preparando uma nova proposta para adquirir o navio e transformá-lo em museu.

“Seria muito mais lucrativo e benéfico do que desmontar o navio. Aproximadamente 600 toneladas de amianto – perigoso para a saúde humana e a natureza – estão encapsuladas no navio. Tal acordo diminuiria as despesas de desmantelamento do navio, e transportar o navio para o Mediterrâneo seria muito caro. Estamos tentando entrar em contato com a Sok Denizcilik”, disse ele.

Caças F-14A Tomcat do esquadrão VF-14 Tophatters da Marinha dos EUA sobrevoam o então R99 Foch da Marinha Francesa durante um exercício conjunto em maio de 1990. Foto: John Leenhouts/US Navy.

Enquanto isso, na Turquia, o almirante aposentado Cihat Yayci também quer salvar o navio do desmanche, mas não para transformá-lo em museu. O ex-oficial da Marinha Turca quer ver o São Paulo reequipado e usado para treinar militares, em vez de ser desmontado para a sucata. O processo de desmontagem terá lugar nas instalações de reciclagem de navios do distrito de Aliaga.

“Em vez de desmontar este navio, devemos equipá-lo com diferentes sistemas que são usados ​​atualmente e iniciar o treinamento do pessoal de porta-aviões, com uma visão de futuro hoje. É fundamental iniciar o treinamento de pessoal para o futuro porta-aviões. Não importa a idade de São Paulo, ela deve ser pensado como um material educativo na forma de quebra-cabeças, desmontagem, uso e desgaste. Nesse ponto, o importante é treinar o pessoal da Marinha nesta plataforma e adquirir o hábito de trabalhar com um porta-aviões”, disse Yayci, que atualmente administra um centro de estratégia global na Universidade Bahcesehir. 

“Mesmo se não usarmos São Paulo ativamente para a Marinha turca, ele poderia ser usado como um simulador para desmontar, anexar, testar, desmontar, reparar”, disse Yayci. “É uma oportunidade ótima e muito barata para educação, experiência em engenharia, observação, exames. O preço deste navio é de US$ 1,9 milhão, enquanto um simulador semelhante custa mais de US$ 30 milhões.”

Mas alguns especialistas da indústria de defesa questionam a relação custo-benefício da reforma do São Paulo, mesmo para fins de treinamento, argumentando que o dinheiro seria mais bem gasto em projetos existentes. Além disso, o navio teve um passado problemático.

Em maio de 2005, ocorreu uma explosão na rede de vapor da sala de máquinas. Houve danos consideráveis ​​no sistema de propulsão. Após os reparos, e com o navio pronto para entrar em serviço em 2013, ele sofreu outro grande incêndio em 2012. O navio ainda estava em reparos até setembro de 2016; o então comandante da Marinha do Brasil, almirante Eduardo Leal Ferreira, disse que existem planos para renovar o sistema de propulsão do porta-aviões. A catapulta do navio também apresentou problemas.

Além disso, o acordo original entre a França e o Brasil, bem como um poderoso funcionário do governo turco, provavelmente impediria uma reforma.

O chefe da Presidência das Indústrias de Defesa do governo turco, Ismail Demir, que é responsável por definir e administrar a política da indústria de defesa da Turquia, disse que não há necessidade de gastar dinheiro e tempo em um navio velho.

“Construir um porta-aviões não é um grande negócio para a indústria de construção naval da Turquia. Se colocarmos isso na agenda no futuro, vamos começar a trabalhar em sistemas relevantes o mais rápido possível”, disse ele.