Embraer KC-390 Millennium. Esse é o “nome e sobrenome” do maior avião militar projetado, desenvolvido e fabricado no continente sul-americano. Uma aeronave que carrega em seu DNA a história de perseverança e visão de Ozires Silva com o EMB-110 Bandeirante dos anos 1960, bem como a tecnologia do estado da arte que o põe no hall das aeronaves de transporte mais capazes no mundo.

Em agosto, a equipe do Portal Aeroflap conheceu de perto o KC-390 para produzir uma série de vídeos, bem como esta reportagem. Atualmente são quatro aeronaves em serviço com o 1º Grupo de Transporte de Tropas (1º GTT), o Esquadrão Zeus, uma unidade que desde de 2018 tem como sede a  Ala 2, Base Aérea de Anápolis.

Mas antes de falar sobre o presente, vamos voltar ao ano de 2005.

C-390 e KC-X: um projeto e uma necessidade

Há 16 anos, a Embraer começava os primeiros desenhos do que hoje é o KC-390. A aeronave nasceu a partir de um estudo do setor de inteligência da fabricante brasileira, que acabou encontrando uma necessidade de mercado a longo prazo. Várias nações iriam, nos próximos anos, substituir aeronaves de transporte militar mais antigas, especialmente o Lockheed C-130. O C-130J Super Hércules e o Airbus A400M Atlas já eram ruma realidade, todavia, uma realidade cara.

A partir desses estudos, a fabricante começou o projeto, com o desenho sendo inicialmente chamado de CXX e, mais tarde, designado como C-390. O projeto era basicamente um E190 E-Jet modificado com um grande compartimento de carga, asas altas e estabilizadores horizontais montados na fuselagem, e não no topo da deriva como temos hoje.

Imagem de 2009 da Embraer, com conceitos iniciais do KC-390.

Ao mesmo tempo, a Força Aérea Brasileira já estudava o futuro da sua própria frota de C-130 Hércules. O Hércules é uma das aeronaves militares mais consagradas de todos os tempos. Um avião reconhecido no mundo todo pela sua robustez, fácil manutenção, versatilidade e outros substantivos. Em produção desde 1954, o C-130 serve em instituições militares e governamentais do mundo todo, mas sua história no Brasil começa em 1964 com a chegada do C-130E 2450. Ao todo, 29 exemplares das variantes 130E e 130H foram adquiridos entre 1963 e 2001, com uma extensa modernização se iniciando em 2003. Em 1974, a FAB encomendou dois KC-130H, que também foram atualizados. Hoje são designados KC-130M e C-130M.

Os anos de operações nos mais diversos rincões do Brasil e até mesmo na Antártica cobraram seu preço, com a FAB anunciando neste ano que o Hércules será aposentado em 2024. Em 2007, a Força Aérea lançou o projeto KC-X para buscar um substituto para o C/KC-130. A Embraer, que já têm uma parceria histórica com a FAB, apresentou o seu projeto já modificado de acordo com os requisitos preliminares da Aeronáutica.

As duas organizações então se uniram, com a FAB passando a trabalhar ativamente na concepção do C-390. Avançando alguns anos, o projeto foi redesignado KC-390, o nome pelo o qual conhecemos hoje. A letra K indica que o a aeronave se trata de um avião-tanque (KC-130, KC-135, KC-46, por exemplo), deixando claro as principais missões do avião brasileiro: transporte e reabastecimento em voo (REVO).

Em 2009, a FAB e a Embraer assinaram o contrato para o desenvolvimento do KC-390, bem como a produção de dois protótipos, no valor de R$ 3.028.104.951, publicado no Diário Oficial da União do dia 23 de abril daquele ano, marcando o primeiro compromisso oficial do Governo Federal com o avião da Embraer. Cinco anos depois, no dia 20/05/2014, a FAB assinou o contrato Nº 9/2014 – UASG 120006 no valor de R$ 7.255.896.086, firmando a aquisição de 28 aeronaves KC-390, com a entrega da primeira unidade prevista para 2016.

Cinco meses e um dia após a publicação do contrato de aquisição, foi realizada a cerimônia de roll out do primeiro protótipo do KC-390, o PT-ZNF, em Gavião Peixoto (SP). O maior avião desenvolvido pela Embraer, e o maior avião projetado e produzido na América do Sul, era oficialmente apresentado ao público. No dia 03 de fevereiro do ano seguinte, o PT-ZNF fez seu primeiro voo, tripulado por dois pilotos de testes e dois engenheiros da Embraer. O segundo protótipo, PT-ZNJ, ficou pronto em março de 2016 e fez seu primeiro voo no dia 28 de abril do mesmo ano.

Porém, ainda em 2014 a crise econômica mundial começou a ter efeitos mais pesados no Brasil. Nos anos seguintes, o projeto sofreu alguns adiamentos por conta de atrasos dos repasses. Ainda assim, ZNF e ZNJ seguiram voando para certificar o modelo. Em 2017, um incidente grave deixou o PT-ZNF danificado: durante testes de formação de gelo e pré-estol (condição de voo que antecede o estol, que é a perda de sustentação), os tripulantes acabaram perdendo o controle do protótipo 001 após o desprendimento de uma carga. Em menos de 30 segundos o jato perdeu quase 2500 metros de altitude; na recuperação, a Força G acabou danificando o avião.

Após isso, o ZNF foi reparado e voltou aos testes, mas acabou se envolvendo em outro acidente no dia 05 de maio de 2018. Durante testes em solo, o avião varou a pista de Gavião Peixoto, novamente sofrendo danos sérios. Felizmente, ninguém da tripulação se feriu. É importante destacar que o avião ainda estava na fase de desenvolvimento, logo, incidentes são “esperados” durante esse período.

Apesar dos sustos, o grande dia chegou. Dez anos depois da assinatura do primeiro contrato, a Força Aérea Brasileira recebia oficialmente o seu primeiro KC-390, o FAB 2853. A cerimônia realizada na Base Aérea de Anápolis (Ala 2), em Goiás, foi presidida pelo Presidente da República Jair Messias Bolsonaro, que batizou a nova aeronave junto do então Comandante da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro do Ar Antonio Carlos Moretti Bermudez, e o então Ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva.

Na solenidade, o KC-390 foi oficialmente incorporado à frota da FAB, passando a ser operado pelos militares do Esquadrão Zeus, o 1º Grupo de Transporte de Tropa.

GTT – Do Rio para Anápolis

Emblema do 1º GTT. A inscrição em latim “generant aquilae aquilas” significa Águias gerando águias. Imagem: FAB.

O 1º GTT não é goiano, mas sim carioca. A unidade foi criada em 22 de janeiro de 1958 pelo Decreto Nº 43.089, na Base Aérea dos Afonsos, Rio de Janeiro. Ao longo de sua vida, operou o C-82 Packet, o lendário C-115 Búfalo e o grande C-130 Hércules em missões de transporte e lançamento de tropas e paraquedistas do Exército Brasileiro, bem como voos de transporte tático, logístico e suprimento em áreas atingidas por desastres e calamidades naturais.

Hoje o esquadrão é chamado de Zeus, o deus dos deuses na mitologia grega, mas antes era conhecido por outros dois nomes. Em 07 de fevereiro de 1958 foi ativado o 1º Esquadrão do 1º Grupo de Transporte de Tropa (1º/1º GTT), o Esquadrão Coral. Já o Esquadrão Cascavel (2º/1º GTT) foi ativado em 1º de novembro de 1961, pela Portaria S-67/GM3 da própria Força Aérea.

Em 1975, o Cascavel recebeu o C-130H, mais potente e resistente que os C-130E já operados pela FAB; no ano seguinte a unidade recebeu dois KC-130H, o primeiro avião-tanque da Força Aérea Brasileira, que mais tarde foram repassados ao Esquadrão Gordo (1º/1º GT). Ao longo dos anos, Coral e Cascavel sempre operaram em conjunto, com um alto nível de cooperação entre as unidades.

Paraquedistas saltando de um C-130H do 1º GTT durante o Exercício SACI 1984. Foto: SGT Stan L. Tarver/Arquivos Nacionais dos EUA.

Em 2013, após 55 anos operando a partir do Campo dos Afonsos, o GTT e suas aeronaves foram transferidas para a Base Aérea do Galeão, que já sediava o Esquadrão Gordo. O Grupo foi transferido por questões orçamentárias: com as unidades de C-130 concentrando-se em apenas um local, há redução de custos de manutenção, aumentando, por consequência, a disponibilidade dos aviões. Assim, Gordo, Coral e Cascavel operavam juntos.

No entanto, o futuro reservava mais um desafio ao GTT. Em junho de 2018 a FAB transferiu o GTT novamente, dessa vez saindo do Galeão para o Centro-Oeste. A nova casa do 1º GTT, agora chamado de Esquadrão Zeus, era a Base Aérea de Anápolis (Ala 2). Distante cerca de 150km de Brasília, a Base Aérea começou a ser construída em 1972 para receber os novíssimos Mirage III EBR/DBR, os primeiros caças supersônicos do Brasil. De mudança, o Zeus recebeu a missão de implantar o KC-390. Os Hércules foram repassados ao Esquadrão Gordo.

O primeiro KC-390 foi entregue ao esquadrão em 04//09/2019. O segundo, o 2854, chegou para a unidade em 13/12/2019; o terceiro (2855) foi entregue em 27/06/2020 e o quarto avião (2856) em 19/12/2020.

Entrega do primeiro KC-390 em 2019. Foto: Sgt. Bianca Viol/FAB.

A Base Aérea de Anápolis também será a primeira a receber o Saab F-39E/F Gripen, novo caça da FAB que será operado pelo 1º Grupo de Defesa Aérea, o Esquadrão Jaguar. Para receber esses dois novos modelos, Anápolis acabou virando um canteiro de obras. A Base Aérea está passando por uma série de extensas reformas em sua infraestrutura, com a construção de novos prédios e hangares, reforma da pista, atualização da rede elétrica e do sistema de iluminação bem como outros serviços. Por isso, os militares do GTT estão alocados em um prédio junto dos esquadrões Guardião (2º/6 GAv, que opera os R-99/E-99) e Carcará (1º/6º GAv, que emprega o R-35). Já o 1º GDA foi transferido para a antiga sala de passageiros da BAAN.

Os quatro KC-390 no pátio da BAAN. Ao fundo, à esquerda,  pode ser vista a construção do hangar que vai abrigar as operações do 1º GTT  e a manutenção dos Millennium. Foto: Sgt. Bianca Viol/FAB.

Aquisições

Ao longo dos anos, a Embraer fechou parcerias internacionais com Portugal, Argentina e República Tcheca para a produção de partes do avião. A parceria com essas nações era representada na própria aeronave, com suas bandeiras pintadas ao lado da porta. Esses países, junto do Chile, também expressaram um forte interesse na aquisição do cargueiro militar, mas destes, apenas Portugal comprou o avião até o momento. A Empresa Brasileira de Correios também chegou a demonstrar interesse no KC-390 para operar na sua rede postal noturna.

Em julho de 2019, o Ministério da Defesa Português confirmou a compra de cinco KC-390 (com opção para uma sexta aeronave), um simulador de voo e treinamento de tripulantes por €827 milhões. Em 21 de setembro de 2021, o primeiro KC-390 da Força Aérea Portuguesa foi energizado na linha de produção da Embraer. No mesmo dia a FAP divulgou que quatro de seus militares, dois pilotos e dois mecânicos, estão em Anápolis desde o dia 14/09, onde estão recebendo treinamento do 1º GTT. Assim como no Brasil, o KC-390 vai substituir os C-130 Hércules portugueses. Portugal também deverá empregar os aviões no combate a incêndios florestais que assolam o país anualmente.

Em junho de 2020, a Embraer e o Governo Húngaro anunciaram a assinatura de um contrato para o fornecimento de duas aeronaves. Os aviões da Hungria foram adquiridos com capacidade de reabastecimento em voo e configuração especial que converte seu interior em uma UTI aérea. O contrato também cobre o treinamento de pilotos e especialistas. Dessa forma, a Hungria se tornou o segundo país europeu e o segundo membro da OTAN a comprar o avião da Embraer.

KC-390 nas cores da Força Aérea Húngara. Imagem: Embraer.

Como explicado anteriormente, a crise econômica mundial acabou afetando o KC-390 em 2014. Tais problemas vem ocorrendo até hoje. Em 26 de maio deste ano, a Força Aérea Brasileira confirmou que iria renegociar o contrato de 28 aeronaves junto à Embraer. A maior razão é o impacto da pandemia do Novo Coronavírus, que piorou ainda mais a situação econômica do Brasil e o resto do mundo. A FAB afirmou que o objetivo da revisão do contrato é “reduzir o número total de aeronaves entregues, com base no atual contrato, e buscar uma cadência de produção de 02 aeronaves por ano, fatores considerados adequados observando-se os aspectos operacionais, logísticos e financeiros.”

Em entrevista ao Valor Econômico, o Comandante da Força Aérea Brasileira, Tenente-Brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Jr., confirmou que a fabricante aceitou a renegociação, afirmando que entre 13 e 16 aeronaves deverão ser adquiridas, já que restrições orçamentárias impostas pelo combate à pandemia não permitem o financiamento das 28 aeronaves planejadas originalmente.

Linha de produção final do KC-390 nas instalações da Embraer em Gavião Peixoto.

O que se espera é que as aeronaves restantes sejam futuramente adquiridas em um segundo contrato.

Em detalhes, o KC-390

O KC-390 é uma aeronave bimotora de transporte tático multimissão. A palavra “tático” se traduz na aplicação operacional do avião: transporte de tropas, armamentos, munição, veículos, blindados e lançamento de infantaria paraquedista em pontos mais próximos da linha de frente do combate. Além disso, a outra missão desempenhada pelo KC-390 é o reabastecimento em voo, que será explicado em detalhes mais à frente.

Fora o transporte e o REVO, a aeronave foi projetada para realizar operações de busca e salvamento (SAR), evacuação aeromédica (EVAM), combate a incêndio e missões de reconhecimento. Tais capacidades estão sendo desenvolvidas pela Embraer e a FAB. O avião ainda está na sua fase de implantação em serviço.

Em novembro de 2019, em meio às negociações da joint-venture com a Boeing, a Embraer anunciou o novo nome e designação para aeronave: C-390 Millennium. Na FAB, o jato continua sendo chamado de KC, já que o prefixo C é voltado para as aeronaves que serão adquiridas sem a opção de reabastecimento em voo. Uma espécie de “versão básica” do avião, como categorizou o jornalista Cláudio Lucchesi da Revista Asas.

Durante o projeto, a Embraer estudou diversos motores para o KC-390, incluindo o CFM International CFM56, o General Electric CF34 (já usado nos E190/195), Pratt & Whitney PW6000 e o Rolls-Royce BR700/F130, mas o Millennium recebeu os turbofans International Aero Engines IAE V2500-E5. A posição alta dos motores diminui a ingestão de detritos. O V2500 é um motor bastante popular no mercado, usado nos jatos comerciais da família Airbus A320ceo (exceto o A138 ‘baby bus’). O V2500-E5 é baseado no 2500-A5 usado no A321, mas modificado de acordo com os requisitos da Embraer para o KC-390. Cada motor gera cerca de 31.330 libras de empuxo máximo.

Foto: Sgt. Bianca Viol/FAB.

As dimensões da aeronave são estas:

  • Comprimento: 35,20 metros
  • Envergadura: 35,5 metros
  • Altura: 11,84 metros
  • Comprimento do compartimento de carga: 18,50 metros
  • Altura máxima do compartimento de carga: 3,20 metros
  • Altura mínima do compartimento de carga: 2,95 metros
  • Largura do compartimento de carga: 3,45 metros
  • Volume: 169m³.
Imagem: Embraer.

Por ser um avião primariamente voltado para missões de transporte, a principal característica do KC-390 é justamente seu compartimento de carga. Nele, o avião pode transportar um veículo de até 26 toneladas, como as baterias do sistema de lançamento de foguetes ASTROS II/2020 e o blindado de transporte de tropas Iveco Guarani.

Segundo a Embraer, também podem ser transportados:

  • 2x blindados de esteiras M113
  • 2x Oshkosh M-ATV
  • 1x APC Patria AMV 8×8
  • 1x BMP-3 russo
  • 1x APC Stryker com blindagem adicional
  • 1x helicóptero UH-60 Black Hawk
  • 2x contêineres de 20 pés.
Imagem: Embraer.

Também podem ser transportadas 23 toneladas distribuídas em sete pallets de 463 litros. O KC-390 pode transportar 80 soldados completamente equipados, 74 pacientes em macas com oito atendentes médicos na configuração de evacuação aeromédica, ou 64 paraquedistas. Os bancos e macas podem ser rapidamente montados com dois loadmasters. Com a carga máxima de 26 toneladas concentrada, o KC-390 tem um alcance de 2000 quilômetros, com essa autonomia aumentando para 2722 quilômetros ao transportar 23 toneladas. Já o alcance de traslado com três tanques internos é de 8463 quilômetros.

Um dos destaques do KC-390 é o CHS (Cargo Handling System), o Sistema de Gerenciamento de Carga. Para monitorar e controlar o que acontece no porão de carga da aeronave, o tripulante responsável, chamado de loadmaster, tem uma estação específica. Ela possui duas telas que podem ser controladas através de um mouse, similar ao que ocorre no cockpit. As travas dos pallets podem ser controladas automaticamente através de simples toques, agilizando e tornando ainda mais seguro o trabalho dos tripulantes.

Foto: Sgt. Bianca Viol/FAB.

O piso é rapidamente configurável. Com o pressionar de um botão e um rápido movimento de braço, ele pode ser facilmente alterado entre entre uma configuração plana ou com roletes para facilitar o embarque de cargas paletizadas. A aeronave já é compatível com todos os pallets de emprego militar em uso no mundo.

Logo atrás dos trens de pouso principais estão dois estabilizadores hidráulicos chamados de struts, um importante recurso para a segurança das operações de embarque e desembarque de cargas, especialmente aquelas mais pesadas. O sistema é acionado a partir da estação do loadmaster. Os próprios trens de pouso do avião também já são projetados para uma operação mais “bruta”, já que a aeronave pode operar a partir de pistas despreparadas.

Para o lançamento de cargas com precisão, o KC-390 utiliza o Ponto de Lançamento de Carga Computado Continuamente (Continually Computed Drop Point, CCDP), onde os computadores da aeronave calculam o ponto ideal para o lançamento do material, utilizando os dados de altitude, velocidade e vento. Com o sistema de Extração de Paraquedas de Baixa Altitude (LAPES), a aeronave pode entregar cargas de até 10 toneladas, ou 22 placas deslizantes com o CDS (Sistema de Entrega de Contêiner).

No compartimento de carga os tripulantes ainda tem um banheiro à disposição; antes de subir para o cockpit, existe uma galley com geladeira, forno e lixeiras. A cabine de comando do KC-390 é dominada pela estação do mecânico de voo (AMC), logo atrás do assento do copiloto. É dali que o tripulante auxiliar realiza as operações de REVO, monitorando as aeronaves abastecidas através de câmeras posicionadas na aeronave. Logo atrás estão duas camas para o descanso da tripulação em missões de longa distância, com a cama de baixo podendo ser usada como um jump seat.

Foto: Sgt. Bianca Viol/FAB.

O painel principal é composto por cinco telas de LCD coloridas. Estas são o “prato principal” da Rockwell Collins Pro Line Fusion Suite, a suíte de aviônicos empregada na aeronave, também encontrada nos jatos executivos Legacy 500 e jatos comerciais da Família E2. As telas são controladas pelos dois pilotos de forma intuitiva através de mouses montados no console central.

 

Outra característica são os HUDs (Head Up Display) desenvolvidos pela AEL Sistemas de Porto Alegre (RS). Os HUDs do KC-390 disponibilizam não só dados de voo, como também informações táticas. O equipamento também é bastante usado em voos com meteorologia ruim, onde o EVS (Enhanced Vision System) entra em ação. A AEL, que já tem uma conhecida parceria com a FAB e a Embraer através da modernização dos F-5M, A-1M e C-95M/P-95M, também fornece ao KC-390 os computadores de missão e os sistemas de autoproteção.

Para operar em ambientes hostis e contestados, a Embraer equipou o KC-390 com alerta radar (RWR, Radar Warning Receiver), alerta de laser (LWS), alerta de aproximação de mísseis (MAWS) e DIRCM (Directional Infrared Counter Measures). Esses sistemas trabalham juntos na suíte de autoproteção do jato. A aeronave também possui lançadores de Chaff e Flare, contramedidas usadas para a defesa de mísseis guiados por radar e assinatura infravermelho. Além disso, o KC-390 também conta com blindagem capaz de suportar tiros de 7,62x51mm e .50 BMG.

Ensaio de lançamento de chaff e flare no Rio Grande do Sul. Foto: Sgt. Bianca Viol/FAB.

O REVO é uma das missões chave a serem desempenhadas pelo KC-390 e para isso ele recebe um par de pods Cobham 912E, montados nas pontas das asas. Cada pod contém uma mangueira de 27 metros de comprimento, sendo capaz de transferir até 1818 litros de combustível por minuto. Em missões de reabastecimento, a aeronave será equipada com três tanques de combustível auxiliares, instalados no compartimento de carga, aumentando para 35 toneladas a quantidade de combustível carregada pela aeronave. O KC-390 pode reabastecer aviões de caça, transporte e helicópteros, voando entre 120 e 300 nós. Além de abastecer outros aviões, o KC-390 também pode ser reabastecido através de uma sonda REVO instalada no topo do cabine.

KC-390 reabastecendo um par de caças-bombardeiros A-1 AMX. Foto: Claudio Capucho/Embraer.
Testes de REVO com o F-5EM Tiger II.

Futuramente, o Millennium será capaz de realizar outras missões além de REVO e transporte. A Embraer está trabalhando no desenvolvimento e integração de um sistema modular de combate a incêndios. Em imagens de computação gráfica, a aeronave pode ser vista com um sistema parecido com o MAFFS II (Modular Airborne FireFighting System) usado no C-130 Hercules.

Ao contrário do MAFFS I, já em usado nos C-130M da FAB, onde dois grandes bocais se projetam para fora da rampa de carga, no MAFFS II, um único bocal é projetado através de uma porta lateral adaptada, lançando água e/ou químicos retardantes nos focos de incêndio.

Imagem: Embraer.

Além de combate ao fogo, a aeronave também poderá ser usada em operações de busca e salvamento (SAR). O KC-390 pode ser equipado com módulos de operações SAR, onde botes e materiais de sobrevivência podem ser lançados sobre a vítima com precisão. Um equipamento importante que será integrado é o pod Rafael LITENING II. Normalmente usado em aeronaves de caça para identificar e atacar alvos com bombas, o Litening pode ser usado no KC-390 nas missões de Busca e Salvamento, Vigilância e Patrulha Marítima.

Nesta captura de tela do vídeo da Embraer, o equipamento pode ser visto preso à fuselagem do KC-390. Imagem: Embraer.

O equipamento possui câmeras e sensores para gerar imagens de TV ou infravermelho (FLIR), que em missões de SAR podem ser usadas para identificar o local de um acidente aéreo, um naufrágio ou outras situações. Já o laser do Litening pode ser usado para a aquisição de coordenadas, marcação e designação de alvos. Os dados obtidos seriam repassados à helicópteros de resgate, agilizando o salvamento de uma vítima. Uma versão de SAR dedicada também oferecida ao Canadá em 2015, mas não foi adquirida.

KC-390 SAR oferecido à Força Aérea Real Canadense em 2015. Imagem: Embraer.

O Litening, aliado ao radar tático Gabiano T-20 da Leonardo, também permite que o KC-390 realize missões de reconhecimento, trabalhando junto com outras aeronaves desta aviação, como o R-99, R-35 e os VANTs RQ-450 e RQ-900. Eles também permitem que o KC-390 possa realizar algumas missões de patrulha marítima, também voando com o P-3AM Orion e o P-95M Bandeirulha.

Todas essas missões, incluindo o REVO, podem ser realizadas de dia ou a noite. A Embraer já preparou a aeronave para uso dos Óculos de Visão Noturna (NVG). Os sistemas também contam com o enlace de dados que aumentam a consciência situacional das missões e diminuem a carga de trabalho dos pilotos.

Equipe verificando o radar do KC-390 Millennium durante testes no Alasca. Foto: Tenente-Coronel Emerson/COPAC.

O Fly-By-Wire do KC-390 também apresenta as características de Quick Change, podendo ser rapidamente alterado de acordo com as necessidades de características de cada voo. Em uma navegação tática, por exemplo, o Fly-By-Wire pode ficar mais “relaxado”, permitindo que a aeronave realize curvas mais acentuadas. A própria aeronave pode ser rapidamente reconfigurada entre qualquer missão em apenas três horas. No entanto, o número de tripulantes necessários varia de acordo com as características da missão. Em um voo de combate a incêndio, por exemplo, só seriam necessários dois pilotos e dois mestres de carga.

A aeronave pode ser completamente reconfigurada em apenas três horas. O KC-390 tem o termo “Multimissão” tatuado em sua pele. É um avião de transporte capaz de desempenhar inúmeros serviços nos mais diversos ambientes climáticos, seja no frio dos polos, na úmida Amazônia ou nos mais quentes desertos.

Mãos à obra

KC-390 sendo carregado com vacinas. Foto: FAB/Divulgação.

Após a sua incorporação oficial, não demorou muito para que o KC-390 logo voasse em missões reais. No final de 2019, começaram a surgir os primeiros casos de Covid-19 e em fevereiro de 2020 a doença já estava no Brasil. Começava um dos períodos mais negros da história.

O colapso dos sistemas de saúde em dezenas de cidades no país fez com que o Ministério da Defesa ativasse a Operação Covid-19. A FAB abriu um corredor aéreo, transportando hospitais de campanha, medicamentos, insumos hospitalares e EPIs. Mas, dentro de todos os materiais que a FAB transportou, o oxigênio foi destaque, especialmente na segunda onda da pandemia, onde o Amazonas foi fortemente afetado.

A falta de cilindros fez com que aeronaves C-105 Amazonas, C-130 Hércules e o próprio KC-390 fossem carregados com centenas de cilindros de O2 gasoso, mas não estava sendo o suficiente. A FAB passou a transportar grandes cilindros de O2 líquido no C-130, pois o KC-390 não estava preparado para carregar esse equipamento. Rapidamente, a Força Aérea, a Embraer e a White Martins chegaram a uma solução, adaptando válvulas de alívio de pressão no KC-390. No dia 16/01, o 2853 transportou os cinco primeiros tanques de O2 liquido de Guarulhos para Manaus. A aeronave também transportou um isocontainer de 17 toneladas com um volume de 6.047m³ de oxigênio líquido.

Isocontainer de oxigênio sendo descarregado em um cargueiro KC-390. Foto: FAB/Divulgação.

Foi também em meio à pandemia, que infelizmente ainda perdura, que o KC-390 realizou sua primeira missão internacional. No dia 04 de agosto de 2020, um incêndio causou a explosão de uma carga de 2750 toneladas de nitrato de amônia que estavam em um armazém no porto de Beirute, no Líbano. As imagens chocaram o mundo todo; 218 pessoas morreram e mais de sete mil ficaram feridas.

Em resposta, o Governo Federal lançou a Missão Multidisciplinar Brasileira de Assistência Humanitária à República Libanesa, onde um KC-390 e um VC-2 do Grupo de Transporte Especial foram enviados ao país. Enquanto o avião presidencial transportou médicos voluntários, autoridades e representantes da comunidade libanesa no Brasil, incluindo o ex-presidente Michel Temer, o KC-390 levou cerca de seis toneladas de medicamentos, comida e equipamentos para cuidados das vítimas da tragédia. As aeronaves saíram do Brasil no dia 12/08, chegando à capital libanesa no dia seguinte.

Em meados de agosto deste ano, o Haiti foi atingido por uma série de tremores e um ciclone tropical, deixando milhares de mortos, feridos e desabrigados. No dia 22/08, o O KC-390 FAB 2856 decolou de Brasília com destino à capital haitiana de Porto Príncipe, transportando uma equipe de 32 bombeiros militares do Distrito Federal, Minais Gerais e da Força Nacional de Segurança Pública, cerca de sete toneladas de materiais e equipamentos de emergência e mais 3,5 toneladas de medicamentos e insumos estratégicos. Todavia, o 2856 apresentou uma pane ao realizar um pouso já programado na Base Aérea do Cachimbo, localizada no sul do Pará. Desta forma, o KC-390 FAB 2854 foi deslocado até a BAPV para substituir o 2856, com a missão prosseguindo em seguida.

O KC-390 FAB 2854 e o C-130H TC-66 em Porto Príncipe. Ao fundo podem ser vistos helicópteros MH-60/HH-60 Jayhawk da Guarda Costeira Americana. Foto: 12th Air Force (Air Forces Southern)

No dia 11/09, o 2854 e o 1º GTT voltaram ao Haiti com mais cinco toneladas de alimentos, medicamentos, painéis solares e purificadores de água. A aeronave também trouxe de volta ao país os bombeiros do Distrito Federal, Minas Gerais e da Força Nacional  que estavam ajudando nas buscas e atendimento às vítimas.

Em janeiro de 2021, o 1º GTT esteve nos Estados Unidos participando do Exercício Operacional Culminating, com o KC-390 2855. A aeronave decolou na madrugada do dia 12/01 com 21 militares do Esquadrão Zeus e outros três do Exército Brasileiro. No treinamento, realizado em Fort Polk, na Lousiana, membros da FAB, EB, Exército e Força Aérea dos EUA realizaram operações conjuntas de assalto aeroterrestre, marcando a primeira participação do KC-390 e dos membros do Zeus em um exercício internacional. O Culminating se encerrou no dia 05 de fevereiro.

Militares do 1º GTT e do Exército Brasileiro ao chegarem em Fort Polk para o Exercício Operacional Culminating 2021. Foto: Sgt. Bianca Viol/FAB.

Mais recentemente, o 1º GTT levou o 2855 para participar do Exercício Internacional Cooperación VII, realizado na Colômbia. Dezenas de países das américas se reuniram para para treinar ações conjuntas em missões de ajuda humanitária e resposta à desastres naturais, com o KC-390 realizando o lançamento de paraquedistas colombianos. A aeronave brasileira também se destacou por apresentar 100% de disponibilidade durante todo o exercício, que se deu entre os dias 30/08 e 10/09.

Hoje, a FAB segue trabalhando na implantação da aeronave. Desde que entrou em serviço, o KC-390 vem apresentando uma boa disponibilidade, podendo ser rapidamente desdobrado em diversas localidades. Podem existir certos percalços entrada em serviço de uma aeronave totalmente nova, mas faz parte do processo.

À medida que o avião vai obtendo maturidade, mais capacidades vão sendo implementadas e mais fácil se torna a operação da própria aeronave, tanto em voo quanto em termos de sustentabilidade. Um longo caminho ainda será percorrido até que seja obtida a Capacidade Final de Operação (FOC), mas até o lá KC-390 seguirá realizando missões em prol do Brasil e outros países periodicamente.

Foto: Sgt. Bianca Viol/FAB.

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