Blackbird, uma palavra que se não somente remete à famosa música dos Beatles, nos faz lembrar imediatamente do avião que, durante a Guerra Fria revelou segredos da União Soviética e países de interesse dos EUA.

Até os dias de hoje, 22 anos após seu último voo, o Lockheed SR-71 Blackbird ainda é um avião enigmático, que chama atenção pelo seu desenho arrojado, pintura negra e, acima de tudo, sua velocidade de 3620 Km/h, voando imponente em altitudes de 85 mil pés. 

Neste texto vamos conhecer 10 fatos interessantes sobre o pássaro negro que reinou imbatível, espionando nações, escapando de mísseis antiaéreos e voando quase no espaço!

10 – Câmeras Potentes

O SR-71 era uma aeronave de reconhecimento estratégico – leia-se: espionagem -, com objetivo de localizar, identificar e fotografar os alvos que lhes fossem designados, como construções militares, quartéis, bases aéreas, etc. Pra cumprir sua missão, o Blackbird era equipado com um enorme conjunto de câmeras, radares e demais sensores, incluindo sistemas de inteligência eletrônica. 

Um de seus sensores ópticos de destaque era a Optical Bar Camera (OBC), uma câmera panorâmica de alta potência com uma lente de até 30 polegadas de distância focal. Desenvolvida pela companhia ITEK Corporation, a OBC era capaz de fotografar uma área de 100 mil milhas quadradas POR HORA! O filme fotográfico usado pela OBC tinha 3200 metros de comprimento, e tudo isso deveria ser analisado por militares especialistas depois que a aeronave retornasse da missão. 

O Optical Bar Camera do SR-71. Um “pouco” maior que uma DSLR comum.

Para geração de imagens de terreno, o SR-71 empregava radares de abertura sintética de visão lateral, capturando com detalhes incríveis (para a época) imagens de largas porções de solo. 

Mesmo voando a mais de 80 mil pés em velocidades de 3.2 vezes a do som, o Blackbird era capaz de produzir imagens detalhadas de alta resolução, além de obter dados de comunicação do inimigo quando era engajado por baterias de mísseis terra-ar. 

9 – Tá quentinho!

Mach 3.2 é uma velocidade altíssima. Mesmo voando a 85 mil pés, o atrito com ar muito fino ainda gerava calor extremo nas bordas do avião. A alta temperatura foi um dos aspectos que teve influência direta na construção e operação do Blackbird. Em determinados pontos, a superfície poderia poderia passar dos 500 C. As pequenas janelas dos cockpits do Blackbird não eram feitas com vidro comum, mas sim quartzo. Ultrapassando os 300 C em voo supersônico, o vidro simplesmente quebraria. Nas longas e cansativas missões, os pilotos esquentavam suas breves refeições apenas encostando a comida na janela. 

8 – Material Soviético

Para resistir ao calor, a Lockheed construiu o SR-71 empregando titânio em sua construção. No entanto, esse metal não é encontrado com abundância na América do Norte, o que dificultava muito as coisas. Mas existe um certo país que tem extensas reservas e plantas de extração de titânio: a Rússia! 

Para conseguir o precioso material, a CIA criou empresas de fachada para adquirir as grandes quantidades de titânio necessárias para a fabricação dos SR-71, que mais tarde seriam usados para espionar a própria União Soviética e seus aliados. 

7 – Vazamentos

Uma das características mais marcantes do SR-71 era o seu constante vazamento de combustível. Isso ocorria porque quando a aeronave estava parada em solo, as placas de titânio se contraiam, descolando-se umas das outras, o que permitia o vazamento de combustível entre as junções do material. No hangar, o SR-71 sempre estava parado em cima de uma poça de combustível, enquanto sua fuselagem estava sempre manchada 

À medida que o jato ia acelerando, o calor gerado pelo atrito aquecia o titânio que se expandia e preenchia as fissuras por onde o combustível corria. A alta temperatura da fuselagem também criou a necessidade para o desenvolvimento de um novo tipo de combustível especial: o JP-7. O JP-7 era um combustível com vários compostos, e só pegava fogo em temperaturas a partir de 60 C. 

6 – O irmão caçula

O SR-71 é extremamente famoso, mas não é o primeiro de sua família. O Blackbird é o mais novo de três irmãos. O primeiro é Lockheed A-12 Oxcart, também chamado de Archangel. Desenvolvido para a CIA na década de 1950, apenas 13 unidades foram fabricadas e operadas pela agência a partir da Área 51, no meio deserto de Nevada. Ainda hoje suas missões e operações são secretas.

A frota de jatos A-12 Archangel estacionados na base de Groom Lake (Área 51).

O “irmão do meio” era o YF-12. Desenvolvido a partir do A-12, o YF-12 seria um caça-interceptador, armado com três mísseis de longo alcance AIM-47 Falcon, projetados pela Hughes, junto com seu radar AN/ASG-18. Pouco mais rápido que o SR-71, o YF-12 seria o caça mais veloz de todos os tempos. Porém, com apenas duas unidades fabricadas, o projeto foi cancelado pelo então Secretário de Defesa Robert McNamara por conta de custos. 

YF-12

Ainda assim, o YF-12 seguiu sendo usado pela NASA como aeronave de testes. Seu míssil AIM-47 deu origem ao AIM-54 Phoenix usado pelo caça naval F-14 Tomcat, enquanto o seu radar também deu origem ao AWG-9, principal sensor do Tomcat. Tudo o que foi aprendido com o A-12 e YF-12 foi empregado no desenvolvimento, fabricação e operação do SR-71, que foi o mais longevo e bem-sucedido dos três modelos. 

5 – Pneus prateados

Voando a Mach 3.2, a maior parte da fuselagem do SR-71 passava facilmente dos 200 C, fazendo com que os sistemas dentro do avião tivessem que ser projetados com alguma resistência ao calor. Não foi diferente com os trens de pouso. 

Para aguentar a temperatura, a borracha dos pneus do conjunto de trem de pouso do SR-71 eram cobertos por prata, dando uma chamativa cor ao instrumento. Por dentro, o pneu era inflado com nitrogênio a 415 psi. O uso de nitrogênio também evitava um possível incêndio por conta da ausência de oxigênio. cada pneu custava cerca de US$ 2300 e poderia ser usado apenas 15 vezes. Para auxiliar a desaceleração no pouso, o Blackbird tinha um enorme paraquedas de arrasto. 

4 – Buick V8

O coração do SR-71 era um par de motores Pratt & Whitney J58, turbo-ramjet, cada um gerando cerca de 34 mil libras e empuxo máximo. O J58 por si só já era uma maravilha da engenharia, capaz de levar uma aeronave com quase 70 toneladas a 85 mil pés e Mach 3.2.

Mas afinal, como os J58 eram ligados? Você pode ter certeza que não era usando uma chave de carro, mas era com motores de carro. 

Em aviões onde não se tem a APU (Auxiliary Power Unit), normalmente aeronaves mais antigas, se faz necessário uma fonte externa que gera ar-comprimido, girando os motores até uma certa rotação onde eles passam a operar sozinhos. No caso do Blackbird, os J58 usavam o AG-330, uma fonte externa que nada mais era do que dois motores Buick Wildcat V8, cada um com 401 polegadas cúbicas. Mais tarde, quando a Buick deixou o mercado, os Wilcats foram substituídos por motores Chevrolt LS-7, também V8.

Os dois motores giravam um eixo conectado ao J58, girando o motor até 3200 RPM. Cada motor precisava de um AG-330 para ser acionado. Eventualmente os AG-330 foram substituídos por um sistema de ar-comprimido instalado no hangar, bem mais barato e menos barulhento. 

3 – Impunidade operacional 

O reconhecimento é uma tarefa estratégica. Uma das passagens mais conhecidas de Arte da Guerra, de Sun Tzu, diz: “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas.”

O SR-71, assim como A-12, foi feito especificamente para buscar informações estratégicas dos inimigos dos EUA, especialmente a URSS. No entanto, o U-2, predecessor do SR-71 foi abatido fazendo esse trabalho. Mesmo voando alto, o U-2 era lento. Com o Blackbird, esse não era o caso. 

Em várias missões o SR-71, mesmo tendo algumas características furtivas, foi detectado e alvejado pelas baterias de mísseis antiaéreos, principalmente da União Soviética que detinha um formidável sistema de defesa com redes de radares e mísseis interligados. Mesmo assim, nenhum dos 32 Blackbirds foram atingidos. Voando alto e rápido, o piloto só precisava acelerar para fugir dos mísseis, que perdiam a energia na subida. Durante toda sua vida operacional, o SR-71 cumpriu sua missão impunimente.

2 – Trajes Espaciais 

As características operacionais do SR-71 obrigavam o piloto e o RSO (Reconnaissance Systems Officer) a usar trajes de voo semelhantes aos usados pelos astronautas em atividades no espaço. Desenvolvidos pela companhia David Clarke, os trajes pressurizados S1030 forneciam oxigênio constantemente, tornava a temperatura mais “agradável” e, acima de tudo, era a principal proteção do tripulante em caso de uma eventual ejeção, o que seria brutal acima de Mach 3 e 85 mil pés. O S1030 também serviu de base para o desenvolvimento dos trajes de ejeção dos pilotos de teste dos Ônibus Espaciais.

1 – REVO pra já!

Uma das necessidades operacionais do SR-71 era o reabastecimento em voo (conhecido no Brasil pela sigla REVO) logo depois da decolagem. Para não forçar a estrutura e os pneus, o Blackbird era abastecido com uma pequena quantidade de combustível em solo. A temperatura das asas não permitia a instalação de dispositivos de hipersustentação como flaps e slats. A corrida de decolagem do SR-71 também era enorme, com uma velocidade de rotate de 210 nós, mais peso tornaria a operação ainda mais limitada. Apesar do vazamento de combustível quando estava frio, esse fato não tinha tanto influência. 

Após a decolagem, o SR-71 deveria se reunir com um avião-tanque KC-135Q Stratotanker ou KC-10 Extender. O REVO acontecia na maior velocidade possível, já que o SR-71 tinha uma péssima performance em baixas velocidades. Dependendo da duração da missão, o Blackbird descia, reabastecia quantas vezes fossem necessárias e deve prosseguimento à espionagem supersônica. 

SR-71 sendo reabastecido por um KC-10 Extender.

DEIXE UMA RESPOSTA