'The Hornet’s First Victory'. Arte de Mark Styling retratando o MiG-21 Fishbed iraquiano abatido pelo Cdr. Mark Fox.

Das mais de 40 aeronaves iraquianas abatidas pela coalizão durante a Guerra do Golfo, apenas três foram derrubadas por caças da Marinha dos Estados Unidos. E, dessas três, duas foram derrubadas com segundos de diferença por dois caças F/A-18C Hornet que estavam engajados em uma missão de bombardeio. 

Tudo isso correu no dia 17 de janeiro de 1991, durante o primeiro ataque diurno da Operação Tempestade no Deserto. Depois de meses de tensão e concentração de tropas no Oriente Médio, a Coalizão liderada pelos Estados Unidos realizou um ataque aéreo massivo durante a madrugada, destruindo vários alvos estratégicos no Iraque de Saddam Hussein,  com o emprego de bombas inteligentes e aviões stealth. Com o raiar do dia, a Operação continuou.

A partir de um porta-aviões da Classe Forrestal, o USS Saratoga (CV-60), decolaram quatro caças F/A-18 Hornet do esquadrão VFA-81 Sunliners, cada um armado com dois mísseis AIM-9M Sidewinder de curto alcance, dois mísseis AIM-7M Sparrow guiados por radar semi-ativo e quatro bombas Mk.84, cada uma pesando mais de 920kg, além de um tanque externo com 1200 litros de combustível. Nos comandos dos caças estavam o Comandante Bill McKee (subcomandante do Sunliners), o Tenente-Comandante Mark Irby ‘MRT’ Fox, Tenente-Comandante ‘Chuck’ Osborne e o Tenente Nick ‘Mongo’ Mongillo. Quatro, de um pacote com dezenas de aeronaves. 

Manhã de 17 de janeiro de 1991. o F/A-18C de Mark Fox no convés do USS Saratoga pronto para a missão que entraria para a história. Foto: cortesia do Cdr. Mark Fox ao portal The War Horse.

Como missão, eles deveriam atacar as instalações da Base Aérea de Al Walid (H-3), no oeste do país, impedindo seu uso pela Força Aérea Iraquiana. Na noite anterior, o enorme ataque da coalizão já havia danificado as infraestruturas das forças do Iraque.

No entanto, as vitórias não vieram de graça: um MiG-25PD Foxbat abateu o F/A-18C do Tenente-Comandante Michael Scott Speicher, também do VFA-81. Até o momento os pilotos no Saratoga acreditavam que ele tivesse pousado em terra, mas o Comandante do Sunliners já sabia o que de fato havia acontecido. Ele não contou aos seus subordinados para não atrapalhar a missão diurna que estava por vir. Os restos mortais de Speicher só seriam encontrados em agosto de 2009. 

Nick Mongillo e o F/A-18C que ele pilotou em 17 de janeiro de 1991.

Seguindo com o voo de ataque, os quatro Hornets, após horas de navegação e o reabastecimento em voo com um avião-tanque da Força Aérea, ingressaram no espaço aéreo iraquiano pelo sul, em formação de linha de frente. Acima deles, o E-2 Hawkeye e o E-3 Sentry forneciam o controle e a detecção dos inimigos, guiando os pilotos a partir do Bullseye (um ponto geográfico que todas aeronaves usam como referência), chamado pelo código Manny.

Mais tarde, John Joyce, operador de sistemas no E-2, chama a formação de Hornets avisando que inimigos haviam aparecido no radar, a 30 milhas dos caças americanos. Naquele momento, com apenas um movimento do polegar em um dos vários botões do manche, os quatro pilotos passam do modo ar-solo para ar-ar. O radar AN/APG-65 do F/A-18 deixa de escanear o solo e passa a direcionar seus pulsos ao ar, buscando os alvos que logo são encontrados. 

Mikoyan-Gurevich MiG-21 Fishbed iraquiano.

Bandits, 15 milhas à frente. São dois caças MiG-21 em formação e se aproximando dos Hornets em velocidade supersônica, sem realizar nenhuma outra manobra. Mongo trava seu radar no MiG da esquerda, a sete milhas de distância, selecionando rapidamente o Sidewinder e passando para o Sparrow em seguida.

À duas milhas do MiG-21, Mongo dispara o AIM-7M que atinge o MiG iraquiano 4 segundos depois. Splash one. O caça monomotor vira uma bola de fogo e segue supersônico até colidir com o deserto. No mesmo instante que o míssil guiado por radar atingia o caça inimigo, Mongo já selecionava o AIM-9 guiado por calor, se precavendo caso o primeiro disparo não fosse efetivo. 

Um F/A-18A do VFA-161 Chargers disparando um AIM-7. Foto: Museu de Aviação Naval.

Ao mesmo tempo, na ponta direita da formação, Fox engajava o outro MiG. Ao contrário de Mongo, Fox dispara primeiro um AIM-9 Sidewinder. Ele já havia disparado versões anteriores do Sidwinder em treinamento e ficou surpreso ao ver que o míssil que havia acabado de lançar em combate contra o inimigo não deixava uma trilha de fumaça.

Acontece que a versão 9M foi a primeira que recebeu o motor-foguete que não gerava fumaça, uma vantagem tática sobre o inimigo. Fox achou que o míssil não tivesse adquirido alvo e logo disparou um AIM-7M para garantir a destruição doinimigo. Para sua surpresa, o míssil saiu da fuselagem do seu F/A-18 no mesmo momento em que o AIM-9 impactava o MiG-21. O Sparrow também atingiu o caça em chamas.

Dois inimigos abatidos com poucos segundos diferença na primeira missão diurna da Guerra do Golfo por dois aviões carregando 8000 libras de bombas, cada um. Momentos depois, as quatro aeronaves do VFA-81 estavam sobre seu alvo e despejaram suas bombas sobre as bases iraquianas. Na volta, Mongo e Fox passaram pelos destroços dos MiGs que haviam destruído logo antes. Horas depois estavam de volta ao deque do Saratoga. A missão foi cumprida. Mark e Mongillo foram os dois únicos aviadores da Marinha dos EUA que abateram caças iraquianos na guerra de 1991. 

O Então Comandante Mark Fox no cockpit de seu F/A-18.

Hoje, os dois caças usados por eles, números 401 (BuNo 163508) e 410 (BuNo 163502) estão sendo reformados no Museu Nacional de Aviação Naval, localizado em Pensacola, Flórida. Mongillo saiu da Marinha com a patente de Capitão (equivalente a Coronel nas outras forças). Em junho de 2018, Mongo contou sua história no Fighter Pilot Podcast. Mark se aposentou em 2016 como Contra-Almirante.

Fontes: The War Horse, Aviation Geek Club, Fighter Pilot Podcast. 

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