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Tinia: conheça de perto a guerra simulada da FAB no Rio Grande do Sul

Caças F-5 da FAB se preparam para mais uma decolagem durante a simulação de guerra do EXCON Escudo Tinia, no Rio Grande do Sul. Foto: Gabriel Centeno.
Caças F-5 da FAB se preparam para mais uma decolagem durante a simulação de guerra do EXCON Escudo Tinia, no Rio Grande do Sul. Foto: Gabriel Centeno.

Numa calma manhã de sol, o silêncio na Base Aérea de Canoas (BACO), no Rio Grande do Sul, é interrompido pelo rugido de um motor, seguido pelo estridente som de um jato ligando. O ciclo se repete mais quatro vezes, enquanto os caças F-5 Tiger II da Força Aérea Brasileira (FAB) são acionados para mais uma missão de combate no RS.

Um por um, os aviões se deslocam pelo concreto até a lateral da pista, onde componentes essenciais são inspecionados pelos mecânicos uma última vez, antes da decolagem. Os aviões seguem então para a região de Caçapava do Sul, onde representarão o inimigo para outros oito F-5 que decolariam da BACO mais tarde.

Na chamada Área Campanha, os jatos supersônicos se enfrentam para obter a superioridade no espaço aéreo gaúcho. Cerca de uma hora depois, combate encerrado. Os 12 caças, amigos e inimigos, começam a retornar para Canoas, em esquadrilhas de quatro aeronaves, pousando um a um na pista da base aérea gaúcha. Está concluída mais uma missão no Exercício Conjunto (EXCON) Escudo Tínia, que acontece até o dia 17/11 no RS. 

Caças F-5 da FAB durante o Excon Escudo Tinia

Guerra simulada

Nessa guerra nos Pampas, não existem mísseis rasgando os céus, bombas criando crateras ou qualquer uso de munição real. Os jatos decolam com mísseis de treinamento, instrumentos suficientes para emular o disparo do artefato real e fornecer dados para saber quem derrubou o que, e de que maneira.

Uma simulação, muito importante para que os militares estejam prontos para um conflito de verdade. 

Versão de treinamento do míssil israelense Python IV é um dos "armamentos" usados no EXCON Escudo Tinia. Foto: Gabriel Centeno.

Versão de treinamento do míssil israelense Python IV é um dos “armamentos” usados no EXCON Escudo Tinia. Foto: Gabriel Centeno.

Na mitologia etrusca, Tinia é considerado um Deus dos ares e por isso foi escolhido para dar nome ao Exercício de Guerra Regular para a Arena Aérea. Há seis anos um forte contingente de militares da Aeronáutica é enviado para o RS onde acontece o exercício, uma vez ao ano.

Desde 2022 a operação é chamada de Escudo-Tínia, uma forma de “formalizar” a presença de unidades antiaéreas do Exército Brasileiro, Marinha do Brasil e da própria FAB. Dispostos no terreno com mísseis portáteis de curto alcance, os chamados MANPADS, eles tentam impedir as ações de força aérea na zona do exercício. 

Na edição deste ano, são 33 aeronaves e mais de 1200 militares trabalhando a partir da BACO e da Base Aérea de Santa Maria (BASM). 

Aeronaves KC-390 realizam missões de reabastecimento, transporte de tropas e ressuprimento. Foto: Gabriel Centeno.

Aeronaves KC-390 realizam missões de reabastecimento, transporte de tropas e ressuprimento. Foto: Gabriel Centeno.

Aeronaves participantes

Durante o EXCON Tinia, BASM e BACO recebem militares e unidades aéreas do país inteiro, além dos seus próprios esquadrões. 

A base de Canoas recebe as seguintes aeronaves:

  • Caças F-5EM/FM Tiger II, dos esquadrões Pampa, Jambock e Pif-Paf; 
  • Aviões de alerta antecipado E-99M do esquadrão Guardião;
Avião-radar E-99 opera a partir de Canoas, em conjunto com os caças, durante o Escudo Tinia.

Avião-radar E-99 opera a partir de Canoas, em conjunto com os caças, durante o Escudo Tinia.

  • Helicópteros H-36 Caracal dos esquadrões Puma e Falcão;
  • Aeronaves de transporte C-95 Bandeirante, C-97 Brasília, C-98 Caravan de diversos esquadrões.

Da BASM, operam:

  • Caças-bombardeiros AMX A-1AM/BM dos esquadrões Poker e Centauro;
  • Caças-bombardeiros AF-1B/C Skyhawk (A-4) do esquadrão VF-1 Falcão da Marinha do Brasil;
  • Turboélices de transporte C-105 Amazonas dos esquadrões Arara e Onça;
  • Jatos de carga e reabastecimento em voo KC-390 Millennium dos esquadrões Zeus e Gordo;
  • Helicópteros H-60L Black Hawk do esquadrão Pantera; 
  • Drones RQ-900 Hermes do esquadrão Hórus.

COMAO

Ao longo do ano a Força Aérea realiza uma série de exercícios, mas três tem destaque pela quantidade de meios envolvidos. Em Campo Grande a FAB treina a guerra irregular no Exercício Tapio; no Carranca, em Santa Catarina, os militares exercitam a busca e resgate; e na Tinia, é treinada a guerra regular. 

Como explica o o Coronel Aviador Marcelo Zampier Bussmann, comandante da BACO e diretor do exercício, as aeronaves de defesa aérea (F-5) devem manter a superioridade aérea por determinado período para que as demais aeronaves possuam cumprir suas missões sem interferência do inimigo.

Coronel Aviador Marcelo Zampier Bussmann, comandante da BACO e diretor do exercício.

Coronel Aviador Marcelo Zampier Bussmann, comandante da BACO e diretor do exercício

“Durante o desenrolar dessa missão em que a superioridade aérea está assegurada no território, nós temos várias outras missões e ações de força aérea nesse período”, explica o oficial. 

Na vigilância aérea estão os E-99, aviões-radar que podem rastrear alvos a mais de 700 km, característico pelo radar montado no dorso. O gigante KC-390 fornece o combustível para prolongar o voo dos caças.

O C-105 faz a infiltração de paraquedistas do Exército, enquanto os A-1 e A-4 da FAB e MB simulam ataques no terreno, que mais tarde são vistoriados pelo drone RQ-900, também responsável por encontrar posições inimigas.

Os helicópteros também simulam a busca e salvamento em combate (CSAR). Como explica o o comandante da BASM, Coronel Luciano Antonio Marchiorato, os Black Hawk usam a tática do NOE (Nap-Of-the-Earth) para não serem alvos tão fáceis para os mísseis.

Comandante da BASM, Coronel Luciano Antonio Marchiorato.

Comandante da BASM, Coronel Luciano Antonio Marchiorato.

“É um voo de baixa altura extrema, a gente voa a 30, 50 pés do chão [entre 9 e 15 metros]. É um voo bastante interessante e um desafio para antiaérea”, explica o oficial que também pilotou helicópteros em sua carreira na FAB. 

Embora haja tropas em solo, Bussmann destaca que no EXCON Tínia não há conquista de terreno. As missões ocorrem no sul do Estado, em uma área situada de 200 km por 80 km entre Santana da Boa Vista, Caçapava do Sul e a fronteira com o Uruguai.

Os aviões atuam em pacotes, e a maior dificuldade está justamente na comunicação e coordenação entre todos esses pacotes (formados por múltiplas aeronaves), voando ao mesmo tempo em uma zona de combate limitada, com caças inimigos e artilharia antiaérea. 

CRUZEX

Realizada anualmente, 2024 não verá a reunião de meios bélicos no Rio Grande do Sul. Isso porque está prevista a realização do Exercício Cruzeiro do Sul, no Rio Grande do Norte. Mais conhecido por CRUZEX, a atividade é o maior treinamento de guerra coordenado pelo Brasil e conta com a participação de forças aéreas de outros países. A última edição foi em 2018. 

“No ano que vem não haverá Tinia, haverá outro exercício bem mais específico e só para essa questão do combate aéreo porquê a CRUZEX vai abarcar tudo isso aqui”, afirma o comandante da BASM. Para o Coronel, a Tinia é uma espécie de “mini CRUZEX”, mas com um pouco mais de liberdade, uma vez que, segundo ele, “dentro da CRUZEX a coisa é um pouco mais amarrada.”

Desafios e consolidação

O Tínia é o último grande exercício realizado no ano pela FAB e reúne, em um único evento, tudo aquilo que os militares aplicaram no período. “Temos todas as capacidades reunidas aqui. Os esquadrões fizeram tiro aéreo e terrestres, fizeram resgate, o pessoal de antiaérea fez seu treinamento isolado. Então eles vem aqui na Base Aérea de Santa Maria e Canoas e junta-se todo mundo”, diz Marchiorato. 

Pilotos de caça da FAB durante o exercício de guerra simulada Excon Escudo Tinia 2023, no Rio Grande do Sul.

Ele ainda destaca que o grande desafio do treinamento está na comunicação entre todos os participantes. “A comunicação entre todo mundo, incluindo o Exército e Marinha, é o que faz a diferença no sucesso do combate.”

Ao longo dos anos o exercício evoluiu, com cenários cada vez mais completos e complexos. Embora a defesa aérea seja um foco, a ideia é ter mais meios para reforçar o conceito do COMAO e tornar a guerra simulada ainda mais real.

 

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Estudante de Jornalismo na UFRGS, spotter e entusiasta de aviação militar.