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Com a realização do evento China Airshow, que ocorreu na semana passada em Zhuhai, não preciso nem falar que diversas fabricantes de avião estão divulgando suas previsões de crescimento para a China, que é o mercado de aviação com maior crescimento da atualidade.

Mas para as previsões dos próximos 20 anos as fabricantes ocidentais já contam com uma variável, os novos aviões chineses, fortemente influenciados pelo governo local e pelos os seus bancos.

A Airbus estimou que a China precisará de 7400 aeronaves com capacidade que varia de 110 a 650 assentos, se uma única fabricante vendesse esta quantidade de aviões, o valor total da venda seria e 1 TRILHÃO DE DÓLARES.

Obviamente este mercado engloba somente os aviões comercializados pela Airbus, aqui deixamos de contabilizar os jatos regionais, como o ATR 72.

Em uma condição de 20 anos atrás, a Airbus e a Boeing seriam as responsáveis por dividir a demanda de 1 trilhão de dólares, mas com os novos players da China, a concorrência tornou-se feroz, principalmente por alguns motivos que vamos listar abaixo.

Atualmente empresas chinesas, com parte da propriedade estatal, estão oferecendo ou desenvolvendo três aviões. O regional ARJ 21, o de médio porte Comac C919, e o CR929, este último um avião de duplo corredor e no mesmo porte de um Boeing 787.

 

O AVIC ARJ 21

Batismo do ARJ.

O ARJ 21 é uma aeronave regional, bastante semelhante ao Boeing 717, com uma capacidade média de 110 passageiros e configuração de dois motores CF-34, assim como os aviões E-Jet da Embraer. Foram anos desenvolvendo este avião, e desde 2003 há encomendas para o mesmo, apenas 8 unidades foram fabricadas e mais de trezentas ainda serão entregues.

O ARJ 21 é uma aeronave desatualizada, e não há movimentação na China para a substituição desse projeto que nasceu tarde e mal construído.

 

O Comac C919

Foto – COMAC

A China está arduamente desenvolvendo o C919, o novo jato na faixa de 150 a 170 assentos do país, que conta com motores de nova geração e comandos Full-Fly-By-Wire.

Inicialmente esse avião foi “um passo maior que a perna”, pois o país não tinha costume de desenvolver algo desse tipo e resultou em vários atrasos no projeto. Com seis protótipos de voo e mais de 4000 horas no ar, a primeira entrega deverá ocorrer somente em 2021.

Em uma análise podemos observar que a Boeing e a Airbus já estão no mercado dos jatos de corredor único de nova geração desde 2016 e 2017, respectivamente, quando os aviões de ambas as empresas iniciaram os seus voos comerciais, isto representa quase 5 anos de atraso dos chineses em relação às empresas ocidentais, retirando desta lista as questões sobre a baixa taxa de produção e entrega, algo que provavelmente a COMAC vai sofrer no início assim como no caso do ARJ 21.

Ao todo são 305 encomendas firmes para o C919 e mais 703 opções de compra, o que pode totalizar 1008 encomendas no total.

 

O UAC-COMAC (CRAIC) CR929

O CR929 foi apresentado recentemente, mas assim como o C919, já se inspira bastante em aeronaves de nova geração como o Boeing 787 e o Airbus A350, podemos observar isso pelo moderno mock-up apresentado durante o China Airshow.

No cockpit temos um arranjo semelhante ao Airbus A350, na parte externa temos um desenho que lembra o Boeing 787. Em questões de motorização e aviônicos a Comac já declarou que está buscando uma parceria com empresa ocidentais, a GE e Rolls-Royce são finalistas para o fornecimento de motores, e já declararam que planejam algo semelhante ao que encontramos no Boeing 787.

Cockpit do CR929, semelhante ao cockpit do Airbus A350.

Por ser um avião construído em parceria com a Rússia, que detém maior Know-How com a nova geração (neste ponto a certificação do MC-21 está mais adiantada em comparação com o C919), temos a informação que o CR929 também deve incorporar motores de nova geração fabricados pela Aviadvigatel, provavelmente uma versão baseada nas tecnologias do PD-14, que vai equipar o MC-21.

Atualmente não há nenhuma encomenda para o CR929, mas podemos esperar que a partir de 2019 empresas da China e Rússia se comprometam com o novo jato, que pode realizar o primeiro voo em 2022.

 

Pontos em comum

Considerando as encomendas do ARJ 21 e do C919, temos um ponto em comum, são mais de 1300 aeronaves encomendadas em sua maior parte (quase 100%) por empresas da China, ou bancos chineses que fazem leasing de aeronave.

No próprio governo há um incentivo em larga escala para que os bancos locais financiem a própria indústria, através de condições facilitadas para que empresas da China façam a compra de produtos fabricados no próprio país. Existe até mesmo um banco voltado para agricultura alugando avião de última geração.

É a movimentação do próprio mercado interno, seguindo os moldes da economia dos Estados Unidos, criando um mercado que envolve mais de 1,3 bilhão de pessoas.

 

Crescimento

O tráfego interno (doméstico) da China quadruplicou nos últimos 10 anos, com taxas de crescimento de dois dígitos e deverá se tornar o maior fluxo de tráfego nos próximos 10 anos. O tráfego internacional de voos que partem ou tem como destino a China quase dobrou nos últimos 10 anos.

De acordo com os dados de demanda da Airbus, a China deve ter um crescimento superior a 6,3% nos próximos 20 anos, esse valor de 6,3% é a média global de crescimento para a aviação nos próximos 20 anos, já contabilizando o maior tráfego na região da Ásia, logo onde a China está localizada.

No total a China representa 19% da demanda global por novas aeronaves nos próximos 20 anos, e deverá ser o maior mercado de aviação em 2037, superando os Estados Unidos que atualmente figura nesta posição.

Ao mesmo tempo as empresas da China sofrem a concorrência do Centro de Montagem Final da Airbus na China, que a partir de 2020 será possível produzir 8 aviões da família A320neo por mês, e da própria Boeing, que deseja abrir um Centro de Montagem e Entregas em parceria com a Comac.

Além disso as empresas ocidentais trabalham arduamente em novas tecnologias, e estão pelo menos 10 anos à frente da China em desenvolvimento tecnológico. A Boeing planeja estrear o NMA em voos comerciais até 2025, e a Rolls-Royce já trabalha no desenvolvimento de um novo motor para aviões de grande porte, que utiliza a tecnologia de engrenagens de redução da rotação do Fan Frontal, possibilitando um consumo 15% menor em comparação com um motor Rolls-Royce Trent 1000 que equipa o Boeing 787.

Atualmente é possível inferir que provavelmente esse número de encomendas vai aumentar nos próximos anos, principalmente com a entrada em serviço do C919, que vai atrair novas encomendas a partir das companhias aéreas chinesas, e também do CR929, que ainda será lançado em 2019 no contexto de novas encomendas, pois o projeto ainda está na fase de finalização dos parâmetros.