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Bayraktar TB2 da Força Aérea Ucraniana. Foto: Yulii Zozulia/Ukrinform/Future Publishing via Getty Images,

Desde o início da guerra entre Ucrânia e Rússia, um pequeno drone de origem turca tem sido usado pelos ucranianos para levar destruição às tropas russas. Na verdade, esse drone é um dos destaques no combate pelo seu baixo custo de aquisição e operação comparado ao tamanho do dano que ele causa. Seu nome é Bayraktar TB2. 

O TB2 não é uma novidade no mundo dos drones militares. Ele já havia viralizado antes com os diversos vídeos destruindo equipamentos militares avançados no conflito de Nagorno-Karabakh, 2020.

Bayraktar TB2 Ucrânia guerra
Baykar Bayraktar TB2 da Força Aérea Ucraniana.

Seu primeiro voo ocorreu em 2014 e seu desenvolvimento pela fabricante Baykar Technology foi a pedido do Exército Turco, após a experiência positiva com o demonstrador Bayraktar TB1. 

O nome Bayraktar na verdade se refere não a uma aeronave, mas sim uma família inteira de drones de vários tipos. Porém, dentre todos os membros – Bayraktar Mini UAV, VTOL UAV, AKINCI e outros ainda em desenvolvimento – o TB2 é o que mais se destaca, de longe, especialmente pelo seu desempenho em combate. 

O que é o drone TB2

O TB2 é uma aeronave não-tripulada de combate (UCAV) de média altitude e longa autonomia (MALE). Ele é controlado remotamente por três militares a partir de uma estação de controle em solo (GCS, também chamada de shelter), que possui as mesmas dimensões de cum contêiner de carga. A GCS também foi desenvolvida pela Baykar seguindo o mesmo padrão da OTAN. 

Estação de comando do Bayraktar TB2. Imagem via Wikimedia.

O drone é feito a partir de materiais compósitos, com uso de ligas de alumínio nas partes mais críticas. Isso reduz não só o peso do avião, mas também sua assinatura radar. Dessa forma, o TB2 também é mais difícil de ser detectado pelos radares de baterias de mísseis antiaéreos (SAM), um alvo prioritário durante o combate. 

Em termos de dimensões e performance, o Bayraktar TB2 apresenta as seguintes características: 

  • 6.5 metros de comprimento 
  • 2.2 metros de altura 
  • 12 metros de envergadura 
  • 27 horas de autonomia 
  • Velocidade máxima de 222 Km/h
  • Altitude máxima de 25 mil pés 
  • 150 kg de carga útil 
  • Peso máximo de decolagem de 700 kg

O custo de aquisição de um TB2 gira em torno de US$ 4 a 5 milhões. Contudo, o drone já destruiu equipamentos muito mais caros que ele próprio, como sistema de defesa antiaérea Pantsir S1 russo. O modelo foi alvo do TB2 em conflitos na Síria, Líbia, Ucrânia, Armênia e Emirados Árabes Unidos. 

O TB2 possui quatro pontos duros (dois em cada asa) para carregar diversas armas de precisão, como o míssil antitanque UMTAS/L-UMTAS, foguetes guiados Bozok e as granadas de 81mm Togan. 

Apesar da variedade de armamentos, o mais usado pelo TB2 são as bombas de precisão MAM (Smart Micro Munition). Desenvolvida pela Roketsan, a bomba possui três variantes: MAM-C, L e T, guiadas por laser e/ou GPS e Navegação Inercial. O peso varia de 6,5 Kg a 94kg, dependendo do tipo da bomba.

Os três modelos podem ser usados pelo TB2, sendo as verões C e L as mais empregadas. 

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TB2 da Força Aérea Ucraniana com bombas MAM. Foto: Ministério da Defesa Ucraniano.

Leve, barato, fácil de produzir e precisa, as bombas MAM se destacam junto do TB2 no combate, podendo engajar alvos parados ou em movimento. 

Emprego em combate

Segundo o portal de Open Source Intelligence (OSINT) Oryx, 793 veículos diversos foram confirmados como destruídos pelo TB2 em múltiplos conflitos. A lista não conta ataques contra depósitos de munição, tropas e edificações militares e cita somente os alvos que podem ser confirmados através de fotos e vídeos. Ou seja, a “conta” de alvos destruídos pelo drone turco deve ser ainda maior. 

O TB2 começou a se destacar nos combates entre Turquia e Curdistão, onde foi usado para atacar com precisão as tropas do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) e YPG (Unidades de Proteção Popular). As duas unidades são consideradas como grupos terroristas pelo governo turco, apesar de lutarem contra o Estado Islâmico. 

Em agosto de 2018, o TB2 foi usado numa operação conjunta entre o serviço de inteligência e o exército turco, que resultou na morte do líder do PKK, İsmail Özden. 

Na Líbia, o modelo foi responsável por eliminar grandes concentrações de tropas e sistemas antiaéreos Pantsir, mas algumas unidades também foram derrubadas pelos SAM. Na Síria, o TB2 destruiu uma imensa quantidade de tanques, blindados de combate de infantaria (IFV), sistemas antiaéreos e peças de artilharia, atuando em conjunto com o avançado sistema de guerra eletrônica Koral.

No conflito de Nagorno-Karabakh, entre Azerbaijão e Armênia, a Força Aérea Azeri fez extenso uso do TB2 contra diversos alvos armênios. Mesmo em áreas “poluídas” por sistemas de guerra eletrônica de origem russa, como Avtobaza, Repellen e Groza, o TB2 se sobressaiu e foi capaz de engajar e destruir os alvos requisitados, sendo a maioria deles posições de artilharia das forças armadas azeris.

TB2 nas mãos da Ucrânia

Na Ucrânia, o drone turco é usado pela força aérea e marinha, que adquiriram 12 e seis unidades em 2019 e 2020, respectivamente. Desde o início da concentração de tropas da Rússia na fronteira, no início de 2021, o Bayraktar TB2 vem sendo usado para conduzir missões de vigilância e reconhecimento. 

TB2 da Marinha da Ucrânia. Foto via The Moscow Times.

Por volta de 23h57 do dia 23/02, o presidente russo Vladimir Putin declarava guerra contra a Ucrânia em rede nacional. Minutos depois, já no dia 24, começava o massivo ataque russo contra o país vizinho, com grande uso de mísseis balísticos, de cruzeiro e barragens de foguetes e artilharia. 

Contudo, contrariando a grande maioria das expectativas, a Ucrânia vem resistindo fortemente contra a invasão russa, causando grandes baixas e capturando tropas e veículos do exército de Putin, além de derrubar caças e helicópteros. 

 

Pelo menos 30 veículos e peças de artilharia perdidos pelos russos e pela autoproclamada República de Donetsk foram destruídos pelos TB2 ucranianos, novamente usando as bombas MAM.

Além do combate real, o TB2 também é usado pela Ucrânia na guerra de propaganda e informação contra a Rússia, através da divulgação dos vídeos do drone atacando as tropas russas.

https://twitter.com/ArmedForcesUkr/status/1497997019515961347

Revolucionário

O TB2 vem se destacando desde os combates na Líbia, mas com o conflito entre os azeris e armênios, o Bayraktar turco passou a ser considerando um gamechanger no combate. Como observa o Oryx, a aeronave “mudou a noção de como os conflitos modernos estão sendo combatidos.”

Leve e barato, o TB2 destruiu sistemas e equipamentos avançados, múltiplas vezes mais caros que o seu próprio custo de aquisição, mesmo se somarmos as bombas de precisão. Além disso, sua baixa assinatura radar (apesar de não ser uma aeronave completamente stealth) permite que o TB2 busque e engaje sistemas de baterias antiaéreas. Nesta semana, um BUK M1 russo foi destruído por um TB2 ucraniano. 

“O desempenho do TB2 diante desses sistemas, projetados para negar completamente às forças aéreas das nações mais avançadas a capacidade de funcionar, marcou um momento decisivo na história da guerra moderna”, diz o portal sobre a atuação do drone em locais com grande presença de sistemas de guerra eletrônica.

Além de poder atacar seus próprios alvos, o Bayraktar pode passar horas em cima de um ponto de interesse, sem ser detectado. E mesmo que não esteja carregando armamentos, ele pode guiar outras bombas ou mísseis de precisão até o alvo. 

https://twitter.com/ArmedForcesUkr/status/1498388026245984258

A disparidade econômica entre o drone e os alvos que ele foi capaz de abater deixa ainda mais claro que mesmo os sistemas mais caros – capazes de de destruir caças de altíssimo valor – são vulneráveis a aeronaves não-tripuladas bem mais baratas. 

A atuação do Bayraktar TB2 nas mãos da Ucrânia também aumenta o moral das tropas e da população que lutam contra a Rússia no momento. Assim como no caso da lenda urbana do ás chamado de Ghost of Kiev, internautas já criaram memes sobre o UCAV e sua positiva participação na guerra. 

Até o momento não há confirmação de algum desses drones ucranianos tenha sido engajado e destruído pelas tropas russas, o que apenas aumenta sua fama entre os que acompanham a guerra no leste europeu e aqueles que estão vivenciando ela. Por outro lado, também serve de grande propaganda para o produto da Baykar Tech.