F-5 EM FAB Aeroflap
Caças F-5EM da Força Aérea Brasileira. Foto: Gabriel Centeno.

O Northrop F-5 Tiger II é o principal caça de 1ª Linha da Força Aérea Brasileira. O avião está em serviço no Brasil desde 1975, tendo recebido uma extensa modernização que praticamente o tornou “outro caça”.

No entanto, o Tigre, como também é chamado pelos militares e entusiastas, se aproxima da sua aposentadoria. Neste ano a FAB deve receber os primeiros caças F-39 Gripen operacionais. Adquiridos em 2014, os 36 novos jatos substituirão o F-5, bem como o AMX A-1, dedicado às missões de ataque e reconhecimento.

Neste artigo, vamos conhecer seis curiosidades sobre o F-5 durante a sua carreira da FAB, que deve demorar pelo menos mais 10 anos para se encerrar. Vamos lá!

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F-5 santa cruz FAB
Caças F-5EM no pátio da Base Aérea de Santa Cruz, em 2018. Foto: Sargento Johnson Barros/FAB.

Três lotes distintos

A FAB adquiriu um total de 79 caças F-5 desde 1973, mas não foram todos de uma vez. A primeira compra se deu em 1973, quando foram encomendados 36 F-5E Tiger II e seis F-5B Freedom Fighter novos de fábrica por US$ 115 milhões (US$ $722.1 milhões hoje).

Estes primeiros F-5 receberam uma série de customizações solicitadas pela própria FAB, como assentos ejetáveis Martin Baker, rádios VHF, VHF/ADF e sistemas de auxílio de navegação ILS, VOR e DME. Por isso, os F-5E receberam modificações estruturais na forma de uma antena de barbatana e uma quilha dorsal, sendo que esta última virou um símbolo dos F-5E do primeiro lote. 

F-5 1gavca fab
Caças F-5E do 1º GAvCa. Foto: FAB.

Anos depois, após perder uma série de unidades em acidentes diversos (incluindo um fatal no primeiro voo de entrega), a FAB se viu na necessidade de adquirir mais caças. Após um impasse com o Governo dos EUA – que quase fez com que o Brasil comprasse caças da China – em 1988 foi assinada a compra de mais 26 caças usados por US$ 13,1 milhões (US$ 30,8 milhões em valores atuais), sendo 22 F-5E e quatro F-5F de dois assentos. 

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No entanto, esses aviões “novos” vieram em péssimo estado pois eram empregados por esquadrões aggressor, usados em treinamentos de combate aéreo aproximado (dogfight) por anos. Por isso, quando chegaram ao Brasil, os caças tiveram de ser reformados pelo Parque de Material Aeronáutico de São Paulo (PAMA-SP), no Campo de Marte. Esta organização ainda é responsável por realizar as manutenções mais pesadas nos F-5 e outras aeronaves da FAB.

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Os F-5E FAB 4864, 4857, 4875 e 4862, todos ex-aggressor, sobrevoando o litoral gaúcho em 1989. Foto: Livro do Northrop F-5 no Brasil/Arquivo Leandro Casella.

Todos os 26 aviões foram repassados ao 1º Esquadrão do 14º Grupo de Aviação (1º/14º GAv), o Esquadrão Pampa, com sede na Base Aérea de Canoas (RS). As aeronaves do 1º lote foram concentradas na Base Aérea de Santa Cruz (RJ), onde eram operadas pelos 1º e 2º esquadrões do 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa), os esquadrões Jambock e Pif-Paf. 

Avançando mais no tempo, chegamos ao 3º lote, também de caças usados. Com a modernização, contratada em 2001, a FAB também viu a necessidade de ter mais unidades do F-5. Antes mesmo de assinar o upgrade dos aviões, o Comando da Aeronáutica já sondava o mercado buscando caças F-5 usados, já que a produção havia se encerrado em 1987. 

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Esquadrilha de F-5E/F da Força Aérea Real Jordaniana. O F-5F no topo da formação foi adquirido pelo Brasil em 2007 e hoje é o FAB 4810. Foto Rogier Westerhuis/Airliners.net

Em 2003, o Governo quase adquiriu 12 caças da Suíça, mas por motivos desconhecidos o contrato não foi fechado. Apenas em setembro de 2007, dois anos depois de ter recebido o primeiro caça modernizado, a FAB conseguiu comprar o terceiro lote com a Força Aérea Real Jordaniana (RJAF), composto de oito F-5E e três F-5F.

F-5 ex-RJAF preservado no MUSAL. Foto: Camila Couto.

A ideia era modernizar todas as aeronaves, o que não aconteceu por razões orçamentárias. Apenas os F-5F de dois assentos passaram pela modernização na Embraer, enquanto os F-5E serviram como fontes de peças. Alguns ainda sobrevivem preservados em exposição. pelo país.

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F-5FM 4810. Foto: Embraer.

Hoje, a FAB possui 42 F-5EM e quatro F-5FM em operação em quatro esquadrões: Jaguar, Pampa, Jambock e Pif-Paf.

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Guerra eletrônica e reabastecimento em voo

Uma das inovações que o F-5 trouxe foi o reabastecimento em voo (REVO). O Tigre da Northrop foi o primeiro avião da FAB a poder receber combustível durante o voo, operação que ocorreu pela primeira vez no país em 04 de maio de 1976 com um dos dois KC-130H adquiridos em 1974.

REVO FAB
KC-130 reabastecendo um F-5. Tenente-Coronel Botelho/FAB.

A operação se faz necessária especialmente pelo baixo alcance do caça e as grandes distâncias que deve percorrer em um país continental como o Brasil. Hoje, as aeronaves A-1, H-36, F-39, SC-105, KC-390 e os A-4 da Marinha do Brasil podem fazer REVO, mas o F-5 foi o primeiro a realizar essa missão há quase 50 anos.

Ciman pod
Mecânicos montando um pod Caiman no F-5.

Além do REVO, o F-5 também introduziu a Guerra Eletrônica ativa na Força Aérea. Isso foi possível através da adaptação dos pods Thomson CT-51F Caiman nos F-5 do Esquadrão Pampa. Foram adquiridos dois casulos e quatro pods de interferência com a França em 1984. 

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Os pods foram desenvolvidos para uso no Mirage F1, mas receberam modificações para serem carregados no cabide ventral de alguns F-5E. O mesmo se deu mais tarde com alguns F-5E do 2º lote. Até 1995 as missões de guerra eletrônica faziam parte do dia a dia do esquadrão gaúcho, mas os problemas técnicos apresentados pelo Caiman e a perda de uma unidade em acidente ditou o fim destas operações.

Caiman pod F1 jaguar
O pod Caiman montado em um SEPECAT Jaguar.

Voando com o ‘inimigo’ em terras amigas

Como explicado anteriormente, um dos lotes adquiridos pela FAB era composto de aviões usados pela Força Aérea dos Estados Unidos em treinamentos. Contudo, pelo menos um desses F-5 foi usado em algo além disso. 

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Militares do 4477th Test and Evaluation Squadron (4477th TES) com o F-5E 14-01557. Foto via Wikimedia.

Uma foto disponível na internet indica que o F-5E de matrícula 14-01557 esteve em operação com o 4477th Test and Evaluation Squadron, esquadrão chamado de Red Eagles. Esta era uma unidade secreta da USAF criada na década de 1980 com um propósito importante: testar e descobrir tudo o que pudesse sobre caças soviéticos capturados, principalmente os MiG-17 Fresco, MiG-21 Fishbed e MiG-23 Flogger. 

Mais tarde, esse mesmo F-5 foi adquirido pela FAB e está em serviço até hoje! Quer saber mais sobre essa história? Confira esta matéria do Portal Aeroflap.

Capacete com mira

A modernização realizada pela Embraer e a AEL Sistemas (subsidiária da Elbit Systems de Israel) praticamente transformou o F-5 e um caça de 3ª para 4ª Geração. Os upgrades deram aos Tigres um cockpit completamente novo e moderno, sistema de geração de oxigênio (OBOGS), radar multimodo, capacidade de combate além do alcance visual, novos armamentos e outras novidades para a FAB. 

Porém, um dos equipamentos mais importantes que a modernização trouxe foi o HMD, sigla para Helmet Mounted Display. Trata-se de um capacete que projeta na própria viseira as informações mais relevantes sobre o voo e o combate. O modelo usado pelos pilotos de F-5 é o Elbit DASH IV. 

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Piloto de F-5 usando um capacete DASH IV. Foto: Gabriel Centeno.

Apesar de ser um pouco mais pesado que o capacete comum, o HMD DASH IV traz a enorme vantagem de poder disparar contra o inimigo apenas olhando para ele e pressionando o botão de lançamento no manche. Além disso, o piloto pode olhar para fora a qualquer momento sem perder informações de altitude, rumo, velocidade e outras. 

Esta mesma tecnologia estará disponível para os pilotos de F-39 Gripen, que usarão o capacete Targo II, também da Elbit. 

Mistério na Lagoa

Para os gaúchos, a Lagoa dos Patos é um dos símbolos do Rio Grande do Sul. O corpo d’água cobre boa parte do estado e extenso desse jeito, ele tem seus segredos. Um desses segredos permanece muito bem guardado até hoje. 

Em 28 de julho de 1982, um par de caças F-5 do Esquadrão Pampa decolava para uma missão de combate aéreo 1×1 (dogfight), operação que sempre fez parte da rotina da unidade. As aeronaves voaram para uma das áreas de treinamento sobre a Lagoa dos Patos e começaram o combate. 

Caças F-5E sobrevoando a Lagoa dos Patos.

Em um dos F-5, de matrícula FAB 4831, estava o Tenente Aviador Edson
Luiz Chiapetta Macedo. Aquele seria seu último voo. Em algum momento do treinamento, o Tenente Edson sofreu uma desorientação espacial e mergulhou com o caça na Lagoa.

O outro F-5 regressou à Canoas e a FAB iniciou as buscas imediatamente. Durante duas semanas, a Força Aérea, a Polícia e o Corpo de Bombeiros procuraram pelo F-5, achando apenas pequenos pedaços. O FAB 4831 e o Tenente Edson Chiapetta jamais foram encontrados e mistério permanece até hoje.

O primeiro de todos os F-5

Diferentemente de outros aviões da sua época, o F-5E Tiger II não teve uma aeronave protótipo mas sim um modelo de pré-produção e isso se deve ao fato dele ser uma evolução do F-5A Freedom Fighter. 

Este F-5, que possuía a matrícula 11417 na Força Aérea dos EUA, fez seu primeiro voo em 11 de agosto de 1972, mas não foi preservado após os testes. Pelo contrário, entrou em serviço nos esquadrões aggressor da USAF. 

O F-5E 11417 fez seu primeiro voo em 1972. Foto: USAF.

Avançando para 1988, este mesmo F-5 foi adquirido no 2º lote da FAB e no Brasil virou o 4856. O “antigão”, que completa 50 anos em 2022, segue em operação firme e forte. Além disso, o 4856 também foi o primeiro F-5 modernizado entregue à FAB para uso operacional. O caça foi recebido pelo Esquadrão Pampa em setembro de 2005. 

O FAB 4856 no Esquadrão Pacau, unidade que recentemente foi desativada. Foto: Rafael Dinelli.

Além do primeiro de todos, a FAB também opera o 2º F-5 produzido. O F-5E 11418 virou o FAB 4857 no Brasil. Durante sua carreira, o avião foi usado em testes com o canhão de 30mm GPU-5/A, bombas Paveway II e mísseis AGM-65 Maverick. 

Com informações de Northrop F-5 no Brasil, Aeronaves Militares Brasileiras e História da Força Aérea Brasileira