ALTA CEO
Foto: Divulgação

Alguns dias antes do ALTA Airline Leaders Forum que ocorreu em Bogotá na Colômbia, realizamos uma entrevista com o CEO da ALTA, José Ricardo Botelho. O executivo compartilhou suas perspectivas para o futuro da aviação na América Latina e também o que espera do futuro para o setor.

Confira a entrevista a baixo:

Aeroflap: O senhor entrou na liderança da ALTA durante o momento mais turbulento da aviação, o senhor acredita que o setor sofreu muitas mudanças? Principalmente levando em consideração a pandemia

José Botelho: Entrei justamente no ápice da pandemia, foram observados níveis assustadores não só na América Latina e Caribe como no mundo tudo. Foram números assustadores porque estamos em uma ascendente muito boa, os números subiam 5% a cada ano, com um crescimento constante há 16 anos. Em 2019, tínhamos voos conectando América Latina e Caribe à todos os outros continentes, você poderia pegar um voo para qualquer lugar do mundo. Diante do cenário, como ALTA e eu como CEO e Diretor-Executivo, precisávamos compreender a situação e entender que a população mundial sentia medo do desconhecido que era o Covid-19.

Entendo o medo, mas nós não poderíamos deixar de enfrentar e buscar soluções para este problema porque na América Latina e Caribe diferente da Europa que possui trens e ônibus como uma forma de transporte entre os países, você pega o Caribe é todo ilha e também não há estradas cortando toda a América Latina. Precisamos enfrentar esses problemas e mostrar para as pessoas através de decisões técnicas que este setor já esta acostumado com a palavra ‘safety’, algo que já esta na nossa veia pois lidamos com vidas todos os dias, então já estávamos preparados para lidar com o novo ‘biosafety’.

Os estudos nos mostraram que para cada 27 milhões de pessoas que voaram em 2020, uma foi contaminada com a Covid-19, mas essa uma pessoa que foi contaminada antes das novas medidas serem adotadas. O que se percebe que é mais ‘fácil’ digamos assim, uma pessoa ser atingida por um raio do que ser contaminada a bordo. Atualmente a bordo das aeronaves existe os filtros HEPA, com o ar sendo totalmente substituído a cada 3 minutos, como comparação em uma sala de UTI, o ar é trocado a cada 10 minutos.

A cooperação entre os governos, empresas e órgãos para aqueles países que mantiveram seus espaços aéreos abertos a recuperação foi muito mais rápida e maior e a conectividade interna foi mantida.

 

Aeroflap: Há uma limitação do setor para enfrentar um problema semelhante a esse no futuro? O que foi aprendido durante esse tempo?

José Botelho: O Brasil por exemplo, antes do programa de concessão de Aeroportos, a estrutura aeroportuária não suportaria a demanda que vinha em Ascenção ano após ano. A partir do momento que o país faz um dos maiores programas de concessão do mundo, com participação de todos os órgãos inclusive os militares que estão envolvidos com a aviação no Brasil, e hoje o país não tem mais aeroporto coordenado, os contratos de concessão estabelecem ‘gatilhos’ para atender a demanda.

No caso da pandemia, essa infraestrutura já vinha crescendo seja por contratos ou seja pela preparação dos aeroportos para isso, e a infraestrutura hoje permite o Brasil suportar isso com facilidade exceto algumas infraestruturas mais distantes dos grandes centros que ainda precisam de uma reformulação.

Aeroflap: O Brasil é conhecido pelo seu incentivo aos combustíveis sustentáveis, com a produção de etanol em larga escala para automóveis. No exterior é possível ver um movimento maior para utilização do bioquerose. Atualmente um planejamento para o uso deste combustível em massa pelas companhias da américa latina?

 

José Botelho: A ALTA possui o Comitê de Combustíveis e o de Meio ambiente, um está muito ligado ao CORSIA da ICAO e o outro do SAF também da ICAO, e ponto é como você pode trazer essa matéria prima do SAF para dentro da discussão do setor. Como você produz para se aliar a demanda que está crescendo? O SAF as vezes ele é produzido com resíduos até mesmo de cozinha, e essa matéria-prima é exportada para fora da América Latina porque aqui não há ainda uma indústria que possa produzir isso, e o que temos buscado com os governos para criar uma indústria voltada para a produção dessa matéria-prima e como forma de incentivo também as empresas virem produzir na América Latina.

Há uma possibilidade de criar uma empresa capaz e produzir, no Paraguai e então poderemos produzir esse modelo de SAF, o Brasil já produz um que é o Biocombustivel. Na ALTA, além das companhias aéreas, há também empresas que são produtoras de SAF, essas empresas podem nos mostrar como é todo o processo, qual a tecnologia utilizada. Então além da produção, também tem de haver o entendimento da necessidade de produzir o SAF, mudando a politica em relação ao combustível de aviação sustável, isso vai ser um facilitador para a produção na América Latina e Caribe.

 

Aeroflap: O Senhor acha que os Aeroportos também estão pensando em adotar veículos de solo mais elétricos e outras medidas para impactar menos no ambiente?

José Botelho: Se você voar hoje e observar nos Aeroportos há uma estrutura de captação de energia solar, as primeiras gerações hoje estão buscando passar para as mais atuais que é muito importante um trabalho de proteção ambiental nos locais, toda a cadeia de aviação está muito envolvida ao tema de diversidade e proteção ambiental. Toda cadeia está buscando trabalhar para que sejam criados frutos no futuro para as próximas gerações. A pandemia ajudou bastante nesse quesito porque hoje você tem toda uma tecnologia que permite impactar menos o ambiente e realizar diversas funções com aparelhos de fácil utilização sem tirar a importância como por exemplo usar o celular para fazer o check-in nos totens e no celular.

Aeroflap: Ainda há espaço para mais mudanças no setor e o Brasil pode ser uma dessas referencias de mudanças?

José Botelho: Sim, sempre. Eu costumo dizer que quem não se adapta é ‘extinto’, o Brasil ele tem sido um exemplo muito bom de políticas públicas e decisões técnicas e regulatórias adotadas no sentido de desenvolvimento do setor e ainda há espaço para mais mudanças. O Brasil votou na ANP a decisão sobre o Jet A e Jet A1, há muito mas muito tempo atrás o país decidiu que as companhias utilizassem somente o Jet-A1, somente três países no mundo, me arrisco a dizer que utilizam esse tipo de combustível.

Esse é tipo de combustível que se utiliza para aviões que vão sobrevoar a Antártida, porque elas iriam querer esse combustível? Se você voa á duas cidades de temperaturas elevadas como para o nordeste não resolvem em nada e isso diminui a competitividade não pela empresa aérea, mas para a compra do combustível no Brasil. Esse passo dado pelo Brasil de permitir a compra do Jet A é um trabalho muito bom de todas as partes, ANAC, Ministério da Infraestrutura, do Turismo que entende que desenvolver a aviação é também desenvolver o Turismo.

 

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