Um par de caças-bombardeiros F-15E Strike Eagle disparando mísseis ar-ar AIM-7M Sparrow. O "código" desse tipo de míssil é Fox 1. Foto: USAF.

Em filmes como Independence Day (1996) e a famosa saga de jogos eletrônicos Ace Combat é possível ouvir seus personagens falando a palavra “Fox” seguida de um número – 1, 2 ou 3 – ao disparar um míssil. Em vídeos de jogos simuladores, como Digital Combat Simulator (DCS), a frase também pode ser escutada. Mas afinal, o que é Fox e o que isso tem a ver com mísseis? 

Indo direto ao ponto, a palavra Fox faz parte dos Códigos de Brevidade da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), uma grande aliança militar liderada pelos Estados Unidos. Apesar de ser padrão na OTAN, os códigos são usados por vários países que não são membros da organização, como o Brasil, por exemplo. Eles servem para indicar algum tipo de ação tomada em combate ou treinamento.

Fox indica o disparo de um míssil ar-ar, com o número subsequente indicando o tipo de míssil disparado. Na imagem que abre esta matéria podemos ver jatos F-15E Strike Eagle da Força Aérea dos EUA (USAF) disparando mísseis AIM-7M Sparrow, cujo código usado para indicar seu disparo é Fox 1

O que é um míssil ar-ar? 

Existem múltiplos tipos de mísseis, como os de cruzeiro, antiaéreos, anti-navio, ar-solo, etc. Neste tópico trataremos dos mísseis ar-ar. Essencialmente um míssil ar-ar é um tipo de míssil disparo de uma aeronave contra outra com o intuito principal de abatê-la. Nos dias de hoje, onde o combate além do alcance visual (BVR) é um dos principais aspectos do combate aéreo, o míssil ar-ar tornou-se, também, um instrumento tático, onde ele pode ser usado para “atrasar” o piloto inimigo, forçando-o a cometer um erro ou não engajar um aliado, por exemplo. 

Basicamente, temos três tipos de mísseis ar-ar: guiados por radar semi-ativo, guiados por calor ou guiados por radar ativo. 

Nem só caças usam mísseis ar-ar. Na foto, uma aeronave de patrulha marítima P-3C Orion disparando um AIM-9 Sidewinder. Foto: USN.

Fox 1

O código Fox 1 indica o disparo de um míssil ar-ar guiado por radar semi-ativo. Mísseis Fox 1 já fazem parte do combate além do alcance visual, no entanto, precisam ser guiados pela aeronave lançadora – que está “iluminando” o alvo com seu radar de bordo – até que atinja o inimigo. Caso o alvo seja destravado, o míssil perderá o contato e será vencido pela aeronave inimiga. A aeronave inimiga também faz o uso de chaffs – pequenos pedaços de metal – para se defender, além das contramedidas eletrônicas. 

MiG-29G da Luftwaffe disparando um míssil R-27R, designado AA-10 Alamo na OTAN. Foto: Michael Ammons/USAF.

Alguns exemplos são o AIM-7 Sparrow norte-americano, o Super 530D francês e o R-27R russo. Apesar de ainda estarem presentes em forças aéreas no mundo todo, os mísseis semi-ativos já vem sendo substituídos pelos guiados por radar ativo, que falaremos mais tarde. 

Mirage 2000B da FAB com um míssil Super 530D. Foto via Site Sistemas de Armas.

Fox 2 

Fox 2 indica o disparo de um míssil guiado por calor/infravermelho, comumente referido como “IR”. Mísseis IR se guiam até a aeronave inimiga através de sua assinatura infravermelho, basicamente “buscando o seu calor”. Mísseis infravermelho são os mais populares e primitivos, com o AIM-9 Sidewinder dos EUA sendo o míssil mais usado no mundo, tanto em presença nas forças aéreas do mundo quanto no combate. 

Um AIM-9 Sidewinder na asa de um F-14 Tomcat. Foto: Felix Garza/USN.

Inicialmente os mísseis eram “rear-aspect”, ou seja, só poderia ser disparados contra o aspecto traseiro da aeronave alvo, por conta da exaustão dos motores. Mais tarde vieram os mísseis all-aspect, permitindo que o piloto faça o disparo a partir de qualquer ponto contra a aeronave inimiga, e não só o aspecto traseiro. Pelo seu tipo de guiagem, mísseis Fox 2 são usados à curta distância, dentro da aerena do combate visual (WVR). 

Míssil A-Darter desenvolvido pela África do Sul em conjunto com o Brasil.

Os mísseis mais modernos, como o AIM-9X, R-73M/74, MICA-IR, IRIS-T e A-Darter já possuem grande autonomia, alta manobrabilidade e seus sensores são menos vulneráveis aos flares, contramedidas em forma de chamarizes que atraem o míssil guiado por calor para longe da aeronave que está se defendendo. 

Outra característica é o seu uso aliado aos capacidades com mira (HMS) ou display (HMD) integrados. Usando esse tipo de capacete, o piloto pode “travar” e disparar o míssil apenas olhando para o alvo, sem precisar manobrar a aeronave para lançar o armamento contra o inimigo. Por isso, eles também são chamados de “mísseis de dogfight”, que é o combate em curtas distâncias.

Na Força Aérea Brasileira, os pilotos de F-5M usam o capacete Dash IV, da fabricante israelense Elbit, em conjunto com o míssil Python 4, ao passo que o modelo mais popular é o Joint Helmet Mounted Cueing System, mais conhecido pela sigla JHMCS, usado pelos EUA e seus aliados, e também desenvolvido pela Elbit.  

Piloto de F-5 usando um capacete DASH IV.

Leia mais sobre os armamentos usados pelos F-5 da FAB. 

Fox 3

Chegando ao fim dos códigos para mísseis ar-ar, apresentamos o Fox 3, que indica o disparo de um míssil guiado por radar ativo. Ao contrário do Fox 1, mísseis Fox 3 não precisam ser guiados pela aeronave lançadora até que atinja o alvo, mas sim até determinado ponto, quando passa a usar seu próprio radar – ou seja, está se guiando sozinho – para buscar e atingir a aeronave inimiga. Esse ponto é chamado de “Pitbull”. 

Dessa forma, a aeronave lançadora pode se posicionar para engajar outro inimigo, realizar manobras defensivas ou outra ação que seja necessária na hora do combate. Assim como no caso dos mísseis de radar semi-ativo, o inimigo usará chaffs e contramedidas eletrônicas para tentar se defender, além de manobras evasivas. 

F-15C Eagle disparando um míssil AIM-120 AMRAAM. Foto: USAF.

O AIM-120 AMRAAM (Advanced Medium Range Air to Air Missile), desenvolvido pelos EUA, é o mais popular dentre os mísseis de radar ativo, adquirido por 34 países nas suas diversas versões. Outros modelos são os MBDA Meteor e o MICA-EM europeus, o AIM-54 Phoenix americano, o R-77 russo, o PL-15 chinês e o Rafale Derby israelense, esse último usado pela Força Aérea Brasileira. 

Caça chinês J-20 com a baia de armamentos aberta, onde podem ser vistos os mísseis PL-15. Foto: CNN

Outros mísseis, outros códigos

Como dito anteriormente, os códigos Fox 1, 2 e 3 se referem ao lançamento de mísseis de uma aeronave contra outra. No entanto, existem múltiplos mísseis ar-solo ou ar-superfície, ou seja, disparados de uma aeronave contra alvos em solo ou no mar, e para esses mísseis também existem os códigos de brevidades. 

Demonstrador do Gripen NG com mísseis RBS-15F, Meteor e IRIS-T. Imagem, Saab.

Para mísseis anti-navio, como o AM-39 Exocet francês, o RBS-15F sueco, o AGM-84 Harpoon e o AGM-119 Penguin dos EUA (este último usado na Marinha do Brasil), o código usado é Bruiser. Para o disparo de um míssil anti-radar, como o AGM-88 HARM, usa-se Magnum, e para mísseis ar-solo com o AGM-65 Maverick, usa-se Rifle.

Estes são apenas alguns códigos usados, disponíveis através de dados públicos na internet. Entretanto, é importante salientar que outros códigos são restritos e somente militares tem conhecimento dos mesmos. 

Um F-16C carregando mísseis AIM-120C (ponta da asa), AIM-9M (parte mais externa da asa), e AGM-88B (mais interno). O cabide do AIM-9 carrega o decoy ALE-50. Foto: Kevin J. Gruenwald/USAF.

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