Um F-14A Tomcat do esquadrão VF-201 Hunters disparando um AIM-7M Sparrow em 1987. Foto: R. L. Lawson - Collection NMNA

Grumman F-14 Tomcat. Um dos caças mais conhecidos e documentados de todos os tempos, famoso tanto por sua performance quanto por sua presença em filmes como Top Gun – Ases Indomáveis (1986) e Nimitz – De Volta ao Inferno (1980).

Já escrevemos um artigo com 14 curiosidades sobre ele que é um dos “gatos” mais famosos da Grumman Aerospace, mas hoje vamos falar sobre uma característica que o Tomcat divide com o F-11F-1 Tiger, outro caça da mesma fabricante: é um dos únicos aviões que abateu a si mesmo. 

O acidente bizarro ocorreu em 20 de junho de 1973 com o sexto protótipo do F-14. A aeronave com o registro BuNo (Bureau Number) 157985 era usada nos testes e avaliações de separação de armamentos em voo.

Durante o desenvolvimento de uma aeronave, uma série de voos de testes é realizada nos mais diversos parâmetros, o que normalmente acarreta na fabricação de múltiplos protótipos ou aeronaves de pré-produção. O próprio projeto do F-14, por exemplo, teve 12 desses aviões, três dos quais foram perdidos em acidentes. 

No caso de aeronaves de combate, a fase de desenvolvimento também inclui os testes de separação de armamentos do avião. Antes de entrar em serviço, um caça deve estar pronto para ser usado de forma segura e isso inclui o emprego dos mais diversos armamentos, especialmente aqueles que serão usados para derrubar um avião inimigo (mísseis e canhões). 

Pete Purvis F-8 F-14
Pete Purvis e um F-8 Crusader. Foto: Grumman Park.

E era um desses testes que o F-14 No. 6 faria em junho de 1973. O caça era tripulado por dois pilotos de testes da Grumman: Pete Purvis, no assento dianteiro e Bill “Tank” Sherman logo atrás. Ambos eram veteranos da Guerra do Vietnã, onde voaram o F-4 Phantom II, o caça que o F-14 substituiu. 

Neste voo, seria testado a separação bem-sucedida de uma versão inerte do míssil AIM-7E-2 Sparrow, disparado a partir da estação no meio do “túnel” que ficava entre os dois motores do F-14A, os turbofans Pratt & Whitney TF-30. Esta seção era chamada de panqueca. 

O teste seria realizado a 5000 pés, Mach .95 e em 0 G. Ou seja, o míssil não teria auxílio da gravidade para “cair” do caça. Além disso, os Sparrows ficavam montados de forma semi-embutida na fuselagem, com as aletas de controle encaixadas na aeronave.

Para auxiliar na separação do armamento, o F-14 também possuía pinos “explosivos” ligados a semicírculos que empurravam o míssil para longe do avião assim que o piloto (ou o Operador de Radar e Interceptação – RIO) acionasse o gatilho. Essa tecnologia não era nova e já estava presente no F-4, por exemplo. 

O túnel entre os dois motores do F-14, também chamado de panqueca. Foto: Chiefhuggybear via Wikimedia (CC BY-SA 3.0).

Contudo, o AIM-7E-2 já era uma versão obsoleta e feita de um material mais frágil que o AIM-7F, que seria usado pelo F-14 quando ele entrasse em serviço, o que ocorreu em 1974. Por isso, os engenheiros decidiram diminuir a carga dos pinos explosivos, temendo que a força pudesse danificar ou até mesmo quebrar o míssil na hora do disparo.

Mesmo com todas as preocupações, Purvis, Sherman e a equipe de testes esperavam que o teste ocorresse sem maiores eventos. Ensaios anteriores com o mesmo míssil foram bem-sucedidos. Cálculos e testes feitos pelas equipes também mostravam que tudo daria certo. Mas não foi assim que aconteceu.

AIM-7E e AIM-7F Sparrow.

Eles decolaram da Estação Aeronaval de Point Mugu, na Califórnia e seguiram para o mar com o míssil, onde seria disparado no Pacific Missile Test Range. O F-14 era acompanhado por um F-4 Phantom que atuava como “aeronave paquera” (chamado de Chase Plane nos EUA). 

Feitos os últimos cheques, tudo pronto para o disparo. Purvis pressionou o gatilho no manche do F-14, escutando o característico som de “Ka-whumpf” do disparo. Mas um som mais alto do que o esperado. Em seguida, ele viu o AIM-7 capotando em alta velocidade na sua frente, deixando uma chuva de destroços que foram engolidos pelo motor esquerdo. 

F-14 AIM-7E-2 colisão
O AIM-7E2 é disparado mas não se separa o suficiente do F-14. Foto via Pete Purvis – Flickr

O míssil não se separou o suficiente do caça. Ele deveria cair da aeronave e depois acionar o motor-foguete, mas acabou batendo no próprio avião, rompendo um tanque de combustível. 

Pelo rádio, o piloto do F-4 Paquera, Tenente-Coronel Fritz Menning, avisou que o F-14 estava em chamas, enquanto alarmes soavam no cockpit do caça. No assento traseiro do F-4, o fotógrafo Bill Irving registrava tudo. Segundos depois, a aeronave cabrou forte, a Força G impediu que o Purvis e Sherman ejetassem imediatamente.

F-14 Sparrow capotando
O AIM-7E-2 capota em frente ao F-14. Foto: Pete Purvis – Flickr.

Logo a pressão aliviou e um dos tripulantes acionou a alavanca dos assentos ejetores. Em dois segundos, ambos estavam fora do F-14, que caiu em parafuso chato, desintegrando-se ao atingir as águas do Oceano Pacífico. 

Entre o disparo do míssil, a ingestão de detritos e a ejeção dos tripulantes, passaram-se apenas 40 segundos. Purvis e Sherman caíram no mar em segurança e flutuaram em seus botes salva vidas até que fossem resgatados minutos depois por um par de helicópteros da Marinha. Menning também sobrevoou os dois até ser forçado a voltar para a base por conta de combustível. 

F-14 em chamas
O Tomcat em chamas. Foto: Pete Purvis – Flickr.

Contando sobre o ocorrido, Purvis diz que ele e Tank ainda tinham uma partida de boliche com a Liga da Grumman agendada para aquele mesmo dia. Eles foram, mesmo após o grave e acidente: “Felizmente, nenhum de nós deixou a bola cair no pé.”

A partir de 1974, o F-14 estava em serviço com a Marinha dos EUA. Anos depois ele foi adquirido pelo Irã, seu único cliente de exportação, onde opera até os dias de hoje. Nos Estados Unidos, o Tomcat foi aposentado em 2006, substituído pelo Boeing F/A-18E/F Super Hornet. 

Via F-14 Tomcat Association; The National Interest; Pete Purvis – Flickr

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