Foto: BAE Systems/Reprodução

Não era das melhores aeronaves, mas o de Havilland Comet foi o responsável por inaugurar uma nova etapa da história da aviação mundial. Sua entrada no mercado tornou o voo a jato, com passageiros a bordo, uma realidade palpável, após muitos experimentos desde a década de 40 no ramo militar.

Foi em 02 de maio de 1952, quando 36 passageiros embarcaram em um de Havilland Comet I da British Overseas Airways (BOAC), cientes, eles participaram juntamente com seis tripulantes da maior revolução da aviação comercial.

Foto: BAE Systems/Reprodução

O novo avião a jato, quadrimotor, tinha uma sinfonia bem distinta das então populares aeronaves com motor radial a pistão, que rugiam um grave e poderoso som na decolagem. O Comet não era tímido, seus turbojatos Halford H.2 Ghost 50 emitiam um som agudo ensurdecedor antes da aeronave se distanciar do solo e ganhar altitude.

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Era somente barulho! 70 anos depois um único silencioso motor Pratt & Whitney PW1500G, que equipa o Airbus A220, consegue ter mais empuxo em comparação com os quatro motores do Comet.

Seis tripulantes conduziram o avião de matrícula G-ALYP, batizado como “Yoke Peter”, para o voo inaugural com passageiros, decolando de Londres (Heathrow) até Roma, a primeira de cinco escalas (Beirute, Cartum, Entebbe e Livingstone) até chegar em Johanesburgo (África do Sul) após 23 horas e 40 minutos.

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Voando a 35000 pés, a tripulação contornou em altitude todos os aviões à hélice em serviço comercial, voando com a velocidade 50% maior, e longe das turbulências que até então eram normais nos voos.

“Era o Concorde da época – voava mais alto, mais rápido, mais suave do que qualquer outra companhia aérea da época e tornava todo o resto obsoleto”, disse Alistair Hodgson, curador do Museu de Aeronaves de Havilland, para a BBC.

O capitão RC Alabaster voou as últimas três etapas do voo de Cartum, lembra-se da cena vividamente.

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“Estranhamente, enquanto circulamos [com o Comet] o aeroporto, vimos todos esses carros e pessoas bloqueando as estradas, e pensamos que deveria estar ocupado. Foi só depois que desembarcamos que soubemos que eles tinham vindo nos ver”, disse o piloto à BBC em 2017.

 

Interior e poucos passageiros

Na década de 50 a aviação custava caro. Os aviões consumiam muito combustível, o de Havilland utilizava motores a reação, que consumiam três vezes a mais na decolagem do que motores a pistão.

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E ainda havia um agravante: Nem todos os aeroportos disponibilizavam o novo QAV (Querosene de Aviação), ao contrário, a oferta da Gasolina Azul era comum. Mesmo assim a BOAC conseguiu aplicar o mesmo preço dos voos a pistão com sua nova aeronave.

Com motores “experimentais”, de baixo empuxo, autonomia e MTOW limitados, a primeira versão do de Havilland não podia transportar tantos passageiros a bordo: Somente 36 em duas classes. 

Comet 1
Projeção: Laurence Dunn

A tripulação técnica era composta por quatro pessoas: piloto, co-piloto, engenheiro de voo e navegador. Normalmente em trajetos longos, como este de Johanesburgo, três grupos de tripulantes iam a bordo da aeronave. Dois a três tripulantes atendiam os passageiros na cabine.

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O serviço a bordo era no mesmo padrão de luxo dos voos com aeronaves de motores a pistão e os passageiros tinham todo o espaço a disposição nos voos com o Comet. Os assentos reclinavam em grande ângulo, e a galley era enorme, visto que a comida era produzida e montada durante o voo, e não embarcada pronta para consumo.

O avião foi um sucesso entre os passageiros, apesar dos problemas das primeiras quatro de doze unidades do DH.106 Comet 1. Logo a BOAC colocou a aeronave em voos de Londres para Sri Lanka, Karachi, Cingapura e Tóquio.

“As quatro primeiras aeronaves tinham vedações defeituosas, costumávamos carregar fluido hidráulico para completar o sistema”, disse Peter Duffey, piloto do Comet, à BBC.

Não importa a velocidade que você estava, o feedback na coluna de controle [manche] parecia o mesmo”, diz Duffey. “Foi um perigo manusear a aeronave, sem dúvida acho que isso levou a um dos acidentes.”

De Havilland Comet
Cockpit do Comet 1 de 1951. Foto: Geni (CC-BY-SA 3.0)

O feedback de Duffey é devido aos sistemas hidráulicos do Comet, que reduziam o peso de movimentar a superfície aerodinâmica de controle de acordo com a velocidade.

O piloto ainda revelou que nas quatro primeiras unidades a parte elétrica e o sistema de navegação tendiam a superaquecer. As janelas da cabine também costumavam ficar embaçadas, visto que eles não pensaram em um desembaçador interno.

Infelizmente o de Havilland Comet de matrícula G-ALYP, o mesmo que inaugurou os voos comerciais a jato, participou da destruição do sucesso do Comet por um erro de projeto.

Um acidente após descompressão explosiva por fadiga de material, em 10 de janeiro de 1954, deixou o Comet por algumas semanas em solo, antes de outro acidente fatal em seguida.

Na época o avião britânico praticamente passou o controle deste iniciante mercado para dois aviões: O Sud Aviation Caravelle e o Boeing 707, que futuramente contaremos a história por aqui.