Um S-70 Firehawk dos Bombeiros do Condado de Los Angeles despejando os mais de 3780 litros d'água de seu tanque ventral. Foto: Lockheed/Sikorsky/Divulgação.

No verão estadunidense, os incêndios florestais são sempre um grande problema, principalmente no estado da Califórnia. Milhares de hectares de terra e mata são dizimados pelo fogo todos os anos, além das perdas de vidas humanas e animais e o prejuízo com a destruição de residências. 

Há décadas os EUA usam aeronaves no combate aos incêndios florestais, desde pequenos helicópteros que transportam bombeiros à linha linha de fogo – ou até criam novos fogos de incêndio controlados – até grandes jatos comerciais, como o DC-10 e o Boeing 747-400 Supertanker. Até mesmo aeronaves que foram usadas na Segunda Guerra Mundial, como o Grumman TBF/TBM Avenger, já estiveram presentes no combate às chamas.

O 747-400 modificado pela Evergreen Aviation e operado pela Global Supertanker podia lançar 74 mil litros de água. Foi o maior “Avião-Bombeiro” de todos os tempos. Foto: Global Supertanker/Divulgação.

O anfíbio Canadair (atual Bombardier) CL-415 é um dos mais famosos aviões de combate incêndio, e se destaca pela sua capacidade de reabastecer seu tanque interno em corpos d’água como rios, mares e grandes lagos. São vários modelos, mas hoje vamos falar especificamente de uma aeronave de asas rotativas: o S-70 Firehawk. 

História

O Sikorsky S-70 Firehawk é uma das diversas variantes do UH-60 Black Hawk, modelo desenvolvido pela Sikorsky (companhia que hoje faz parte da Lockheed Martin) para substituir o clássico UH-1 Huey do Exército dos EUA. O Black Hawk esteve presente em inúmeras operações militares no mundo todo, provando seu valor e mostrando suas capacidades na inserção e extração de tropas, evacuações aeromédicas, transporte de suprimentos, busca e resgate e várias outras missões. No Brasil, o Black Hawk está em serviço na Força Aérea Brasileira e no Exército Brasileiro, ao passo que a Marinha do Brasil emprega o S-70B Seahawk em missões de resgate, patrulha e guerra antissubmarino/antissuperfície. 

No final década de 1990 o Departamento de Bombeiros do Condado de Los Angeles (LACoFD) se uniu à Sikorsky e à United Rotorcraft com a seguinte missão: desenvolver uma versão do Black Hawk para combate a incêndios. A partir desta necessidade, três S-70A Black Hawks adquiridos pelos bombeiros foram modificados pela United para atuar nesta nobre missão. 

As modificações 

É importante destacar que o Black Hawk já poderia ser usado como plataforma de combate a incêndio, mas para isso ele empregava uma ferramenta chamada Bambi Bucket. O Bambi Bucket foi criado pelo canadense Don Arney e é um dos instrumentos mais usados nos trabalhos de combate ao fogo. Basicamente é um cesto carregado pelo gancho da fuselagem do helicóptero com uma abertura no fundo operada mecanicamente.

Um UH-60 da Guarda Nacional do Michigan mergulhando o Bambi Bucket em um lago. Foto; Helen Miller.

O cesto é preenchido com água ao ser mergulhado em um lago, mar, rio ou até mesmo uma piscina (o que ocorre de forma bastante comum), o helicóptero voa até o fogo, despeja a água e a operação se repete múltiplas vezes. Apesar da versatilidade, o bambi bucket não carrega tanta água. Outra limitação é uso retardante, que teria de ser reabastecido junto com a água.

A United Rotorcraft realizou, junto à Lockheed, o desenvolvimento de um pacote de modificações que transformaria o Black Hawk no Firehawk, um verdadeiro Black Hawk de bombeiros. São duas modificações principais: um tanque de água ventral e a extensão dos trens de pouso frontais. 

O Firehawk possui um tanque com capacidade para transportar e lançar 3785 litros d’água, ou seja, 1287 litros a mais que a capacidade máxima do maior Bambi Bucket empregado pelo Black Hawk. Integrado ao tanque principal, o Firehawk possui um tanque menor de 114 litros para a mistura de químicos retardantes, produto muito usado em combates a incêndios florestais e reconhecido pela cor vermelha. O tanque também possui um spray interno para limpeza e remoção de bactérias e as portas em forma de V permitem que a água seja despejada com força e precisão, atravessando folhas, galhos e arbustos para atingir até as chamas. 

Para receber o tanque na barriga, os trens de pouso frontais do S-70 foram estendidos em 45,7 centímetros. Estribos maiores foram instalados para o embarque e desembarque de bombeiros e tripulantes.

Foto: Lockheed/Sikorsky/Divulgação.

O Firehawk pode reabastecer seu tanque de duas formas. Uma é pousando a aeronave e posteriormente enchendo o mesmo com água através de uma abertura, o que pode ser feito com uma viatura de bombeiros, por exemplo. Porém, a principal maneira é o uso do snorkel retrátil integrado. O equipamento é uma mangueira de 3,66 metros que fica montada em uma espécie de mangotinho no lado direito do tanque. Quando o tanque precisa ser reabastecido, o piloto leva o helicóptero até uma fonte de água, aciona o comando que estende a mangueira e uma bomba começa a sucção.

As primeiras versões do Firehawk tinham uma bomba com força suficiente para completar o reabastecimento em 1 minuto. Já o S-70i recebeu uma bomba que consegue fazer o abastecimento completo em apenas 45 segundos. Com o tanque cheio, a mangueira é recolhida e o helicóptero parte para o fogo. A força da bomba vem dos dois motores turboeixo General Electric T700-GE-401D, cada um podendo gerar uma potência máxima contínua de 3356 shp.

S-70 Firehawk do Corpo de Bombeiros de San Diego reabastecendo o tanque. Foto: SDFD.

“Essas máquinas estão passando por algumas das condições mais extremas que você pode imaginar em um helicóptero. Toda vez que a aeronave está combatendo um incêndio, ela atinge a potência máxima de seis a oito vezes por hora. Deve lidar com o calor, mas também com o trabalho pesado quando o tanque está cheio de água”, disse Bill Neth, gerente de programas do cliente da GE Aviation.

É justamente o design militar do Black Hawk que permite que o Firehawk aguente as exigências do voo de combate a incêndio. O helicóptero é capaz de fazer curvas de 4G com o tanque completamente cheio, voando em meio à fumaça densa e quente. Com o feedback das operações do UH-60 no Oriente Médio, a GE melhorou a performance dos T700 em condições de alta temperatura, enquanto a Sikorsky fez melhorias nas pás do rotor principal. Dentre os opcionais do cliente estão um filtro nas entradas de ar e as pás dobráveis para transporte. 

Além do combate ao fogo

A principal função do Firehawk é sim o combate às chamas nos incêndios florestais, mas o método de trabalho da aeronave vai depender de quem é operador. Como primeiro cliente do Firehawk, o LACoFD desenvolveu, ao longo dos anos de operação, as mais diversas técnicas de voo com o S-70 bombeiro. 

O Firehawk também é responsável por transportar os bombeiros florestais à linha de combate. A aeronave é capaz de transportar de 11 a 13 especialistas totalmente equipados (de acordo com a configuração da cabine) deixando-os no local determinado, reabastecendo seu tanque e voltando para a área do fogo. Esse tipo de operação é feita nos primeiros estágios do incêndio em vegetação, uma fase considerada crítica para o combate já que o fogo está mais fraco. A velocidade máxima de 268 Km/h do S-70, combinada com as bases avançadas dos bombeiros, permite um rápido deslocamento até o foco de incêndio

Além disso, o Firehawk também possui um guincho externo lateral para missões de busca e resgate. Caso o tanque ventral seja removido, a aeronave pode fazer uso do gancho no centro da fuselagem, capaz de carregar objetos de até 4 toneladas. Em missões de evacuação aeromédica, a cabine pode ser configurada para levar até quatro pacientes em macas. 

Para o voo pairado de precisão, o Firehawk possui piloto automático digital de quatro eixos, sendo certificado para operações com apenas um piloto. A cabine totalmente digitalizada reduz a carga de trabalho dos pilotos e agiliza as múltiplas operações que a aeronave pode realizar. Os pilotos também podem fazer uso dos óculos de visão noturna e o helicóptero pode receber sensor infravermelho (FLIR) ou farol de busca.

S-70A do LACoFD operando o guincho lateral durante um resgate. Imagem LACoFD/Divulgação.

Usuários e versões 

Como dito anteriormente, o cliente lançador do S-70 Firehawk foi o LACoFD, com três S-70A no final da década de 1990/início dos anos 2000. Hoje a instituição possui mais dois S-70i, a versão mais nova do Firehawk, com uma frota total de cinco aeronaves. Os helicópteros são fabricados na Polônia pela PZL-Mielec, subsidiária da Lockheed, e levadas à United Rotorcraft, no estado do Colorado, onde são modificadas para os serviços de bombeiro.

O S-70i também possui glass cockpit digital, sistema de controle de voo automatizado, controle de vibração ativa e sistema de monitoramento de saúde do veículo. Como opcional, a Sikorsky oferece ADS-B, sistema de planejamento de missão, moving map, radar meteorológico e outros itens. 

O Departamento de Florestas e Proteção contra Incêndio do Estado da Califórnia (CAL FIRE) possui três S-70i e encomendou um total de 12 aeronaves, o maior pedido até o momento. O Corpo de Bombeiros de San Diego (SDFD), também na Califórnia, possui apenas um S-70i.

A CAL FIRE adquiriu um total de 12 helicópteros Firehawk, o maior pedido até o momento. Foto: Sikorsky/Divulgação.

Jared Polis, Governador do Colorado, propôs a aquisição de um Firehawk para o orçamento fiscal de 2021-2022 bem como a compra de mais unidades do modelo ainda nesta década. As aeronaves seriam operadas pelo Corpo Aéreo de Combate a Incêndios do Colorado, estado que também sofre nas temporadas de incêndios florestais. A United afirmou que outros vários estados da região oeste dos EUA demonstraram interesse no modelo. 

Desde que começou a operar no Condado de Los Angeles, o Firehawk demonstra agilidade, confiabilidade e robustez nas operações de combate a incêndio. Mesmo sendo um ativo caro, com o preço variando entre US$ 19 milhões e US$ 22 milhões de acordo com o pedido, a aeronave é uma arma estratégica contra os incêndios que assolam a região anualmente. “Pelo dinheiro de um helicóptero, eles poderiam comprar 50 ou 60 viaturas, abrir estações, mas o impacto do Firehawk é incrível”, disse Mike Sagely, piloto sênior de Operações Aéreas do LACoFD, em uma reportagem de Helicopters Magazine

Curiosidade

O famoso jogo Grand Theft Auto: San Andreas, ou apenas GTA, fez parte (ou ainda faz) da vida de muitos de nossos leitores, até mesmo deste editor que vos fala. Mas o que isso tem a ver com o S-70? Bom, ele esteve no jogo de certa forma. 

A produtora Rockstar inseriu o helicóptero no jogo na forma do Raindance. O modelo não possuía o tanque ventral, nem o guincho lateral, mas ostentava uma pintura parecida com a do Firehawk protótipo. No jogo, o ‘S-70 Raindance’ era encontrado em San Fierro e na praia de Santa Maria, localidades que simulavam as cidades de San Francisco e Los Angeles. 

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