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Equipe com cerca de 13 jogadores representa o Brasil no torneio SATAL do jogo DCS World. O Harpia foi campeão em duas categoriais da disputa e vice-campeão em uma. Imagem: Heberth Thaylon.

A participação de brasileiros em campeonatos de eSports não é nenhuma novidade. Equipes nacionais em jogos como League of Legends e Counter Strike são bastante acompanhadas com enormes torcidas. Agora, mais um grupo de brasileiros se destaca no meio, mas dentro de um nicho bem menor que jogos MOBA ou FPS: os simuladores de voo. 

A equipe brasileira Harpia, que tem cerca de 13 membros, se sagrou campeã e vice-campeã de três categorias do torneio SATAL, do simulador de combate aéreo DCS World (Digital Combat Simulator).

O SATAL tem as ligas Gold e Diamond. Os brasileiros competiram em ambas, ficando em primeiro lugar nas categorias 4×4 das duas ligas, bem como 2º lugar na liga Diamond 6×6. A equipe Harpia também se destacou por não ter perdido nenhuma partida na liga Diamond 4×4, terminando esta categoria de forma invicta. 

Esta foi a edição de 2021 do SATAL, que terminou apenas este ano. Na sua primeira participação, na edição de 2020, a equipe ficou em 4º lugar.

O estudante Rangel Alcântara, apelidado de Trigger, aponta que isso mostra a extensão do campeonato, disputado por times de todo o mundo, onde o Harpia é o único do Brasil.

Ele também explica que o SATAL tem equipes que representam países, como o próprio Harpia, ou times com membros de diversas nacionalidades. Nas finais, os brasileiros enfrentaram pilotos virtuais da Turquia e outra equipe composta por membros de vários países.  

A ave de rapina brasileira, famosa por sua envergadura, se tornou o nome da equipe brasileira de DCS. A arte foi criada pelo membro Arthur Mazzucatto.

O nível de simulação do jogo eletrônico é alto. Heberth Thaylon, um dos membros da equipe, destaca que versões do DCS são usadas por forças aéreas de verdade, como as da França e EUA, que tem no DCS uma ferramenta de instrução para seus pilotos de Mirage 2000 e A-10, respectivamente. 

 

O Harpia começou a ser formado em 2019 por iniciativa de Rangel. Na época, ele e outro colega, de apelido ‘Zero’, queriam formar uma equipe brasileira para participar do SATAL. Este é um torneio internacional de alto nível para equipes e esquadrões que voam o DCS.

“Não tinha nenhuma equipe brasileira ainda nas competições do DCS. Eu pensei que seria legal termos essa equipe representando a comunidade brasileira na arena competitiva do DCS”, conta Rangel.

“É um ambiente altamente competitivo que utiliza a plataforma DCS como meio para a competição. São várias aeronaves disponíveis para serem utilizadas e o combate é feito dentro de uma arena [virtual]”, explica Thaylon.

O F/A-18 Hornet é um dos caças mais utilizados pelo Harpia em suas competições virtuais. Imagem: Heberth Thaylon.

Trata-se de uma competição de Combate BVR (Além do Alcance Visual), onde os pilotos virtuais usam mísseis de médio e longo alcance de seus caças contra a equipe inimiga. Ganha a equipe que abater a outra e pousar no aeródromo de origem. 

Aeronaves da equipe

Os membros do Harpia utilizam três aeronaves principais: o F-14 Tomcat, o F-16 Viper e o F/A-18 Hornet. Todos são módulos pagos do DCS: o jogo base é gratuito, mas as aeronaves mais completas não. Os preços podem ir de R$ 78 a R$ 413. O Dassault Mirage 2000C também é esporadicamente usado pela equipe. 

O mais chamativo nos aviões é claramente a pintura, que foi inspirada em outra usada por um caça F-5 Tiger II da Força Aérea Brasileira para comemorar o aniversário de 60 anos do 1º Grupo de Aviação de Caça.

O esquema original foi adaptado por Thaylon, onde o característico avestruz foi substituído pela ave brasileira, que se destaca pela sua grande envergadura.

Pintura de caça F-5E da Força Aérea Brasileira inspirou a mesma usada pelo time Harpia. Imagem: FAB via Heberth Thaylon.

A expressão “Senta a Púa!”, grito de guerra dos pilotos de caça da FAB, permaneceu na aeronave, como símbolo da nacionalidade dos aviadores virtuais.

Marcos Costa, chamado de Chuck na equipe, completa dizendo que é uma forma de homenagear a FAB. “É a força aérea que nós admiramos e nos orgulhamos como brasileiros”, afirma o funcionário público. 

O nome Harpia também é uma homenagem ao país, mais uma prova de que a equipe quer carregar a bandeira brasileira no ambiente do combate aéreo virtual.

Combate virtual, táticas reais

A competição SATAL se dá no mundo dos pixels, mas os membros do Harpia garantem que as técnicas usadas pelo Harpia no torneio são as mesmas usadas por pilotos de caça da vida real. 

“Apesar de ser uma competição de eSports, o DCS é um simulador. Por esse motivo as táticas, manobras e comunicação […] a gente tenta trazer o máximo do mundo da aviação de caça real”, explica Thaylon. 

Imagem: Heberth Thaylon

“Fundamentos e conceitos da aviação de caça real se aplicam no DCS. Comunicação, posicionamento, táticas… Qualquer coisa que você aplica na vida real, você pode aplicar no DCS e ter um aproveitamento positivo”, completou Filipe Fibra, outro membro do Harpia.

Thaylon afirma que a equipe faz uma extensa pesquisa, em fontes públicas, de formações e táticas de combate para aprimorar e acrescentar manobras nas suas partidas. Essas e várias outras aplicações da vida real foram levadas e adaptadas ao ambiente virtual do simulador DCS e empregadas, com sucesso, pelos “aviadores” virtuais brasileiros. 

DCs Harpia F/A-18 eSports combate aéreo
Imagem: Heberth Thaylon

Para manter a proficiência, a equipe – formada por pessoas de várias e idades e diversos grupos profissionais – se reúne semanalmente, voando em cenários diversos e que buscam simular os mesmos vistos em partidas do torneio SATAL de eSports. 

Outro aspecto que se assemelha à vida real sãos os debriefings. Após os treinos, os jogadores permanecem reunidos e usam um software chamado TacView para discutir erros e acertos durante um voo simulado. A mesma coisa é feita por pilotos de combate reais também, mas, logicamente, dentro de suas especificidades. 

“Em uma Red Flag da vida os aviões gravam a telemetria [do combate] para depois ser estudada no debriefing. Para termos um bom nível competitivo no DCS, a gente também precisa dessa telemetria e pra isso temos o software”, explica Rangel. 

Além das partidas 

O Harpia pode ter começado para se dedicar ao SATAL, mas ao longo dos anos a relação dos membros extrapolou a arena do torneio virtual. Fora dos computadores, os participantes da equipe já se reuniram algumas vezes.

Marcos diz que o time agora é como uma família. “Na verdade o Harpia tornou-se um grupo de amigos onde o jogo é mais um detalhe. A importância maior é o nosso relacionamento. Damos mais importância pra isso do que para a competição”, afirma.  

Os próprios apelidos dos jogadores são brincadeiras entre eles. Heberth diz que, assim como na vida real, os “callsigns” surgem a partir de situações engraçadas ou embaraçosas.

Ainda assim, o espírito do Harpia permanece. O objetivo é expandir a representação brasileira na comunidade de DCS, além de participar em outros torneios e campeonatos do simulador de combate aéreo.