ITA Itapemirim Voos
Foto: Gabriel Benevides/Aeroflap

Nascida em tempos de pandemia, a ITA ou Itapemirim Transportes Aéreos suspendeu na última sexta-feita (17/12) todas as suas operações de voo de modo a realizar ajustes operacionais e uma reestruturação interna. 

Com isso, não há uma previsão de quando a companhia aérea irá retomar as suas operações, principalmente pelo fato da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) ter suspendido o seu certificado de Operador Aéreo (COA), significando que a empresa não poderá realizar e comercializar novos voos comerciais.

Chama a atenção o fato da companhia sequer ter completado 6 meses de operações, antes de ficar sem caixa e precisar paralisar os seus voos. O braço de aviação do Grupo Itapemirim nasceu em Recuperação Judicial, e todo o grupo ainda continua em RJ na justiça brasileira.

 

Uma nova companhia nasceu em tempos de crise 

Com o seu primeiro voo de passageiros realizado na manhã do dia 29 de junho de 2021, o histórico voo IPM-001 decolou do Aeroporto Internacional de Guarulhos (GRU) com destino a Brasília.

Na ocasião, o voo inaugural contou com executivos do Grupo Itapemirim e jornalistas.

Confira o vídeo do momento especial abaixo: 

Logo, nascia mais uma companhia aérea brasileira indo contra qualquer pessimista a surpresa de o Brasil ter mais um player na aviação mesmo diante da crise que a indústria aérea estava enfrentando por conta da pandemia do coronavírus. 

A Itapemirim Transportes Aéreos tinha nos planos unir o seu modal aéreo e rodoviário, algo inédito que deveria começar no primeiro semestre de 2022. Segundo Sidnei Piva, o Grupo Itapemirim planejava atender cerca de 1700 cidades com a nova distribuição entre aviões e ônibus. 

Além disso, a ITA Transportes Aéreos esperava contar com até 10 aeronaves em operação em outubro deste ano, ampliando para cerca de 50 aviões e 35 rotas comerciais até junho de 2022.  

Confira o planejamento da companhia:

  • São Paulo-Guarulhos: 29 de junho de 2021
  • Brasília-Guarulhos: 29 de junho de 2021
  • Belo Horizonte-Confins: 1 de julho de 2021
  • Rio de Janeiro-Galeão: 1 de julho de 2021
  • Salvador: 1 de julho de 2021
  • Porto Alegre: 1 de julho de 2021
  • Porto Seguro: 1 de julho de 2021
  • Curitiba: 3 de julho de 2021
  • Recife: 1 de agosto de 2021
  • Maceió: 1 de agosto de 2021
  • Fortaleza: 1 de agosto de 2021
  • Florianópolis: 1 de agosto de 2021
  • Natal: 1 de agosto de 2021
  • Vitória: 1 de setembro de 2021
  • São Luis: 1 de setembro de 2021
  • Aracaju: 1 de setembro de 2021
  • Goiânia: 1 de setembro de 2021
  • Ribeirão Preto: 1 de setembro de 2021
  • Belém: 1 de outubro de 2021
  • Manaus: 1 de novembro de 2021
  • Santarém: 1 de novembro de 2021
  • Foz do Iguaçu: 1 de dezembro de 2021
  • Macapá: 1 de fevereiro de 2022
  • Imperatriz: 1 de abril de 2022
  • Navegantes: 1 de abril de 2022
  • Presidente Prudente: 1 de abril de 2022
  • Uberlândia: 1 de abril de 2022
  • João Pessoa: 2 de abril de 2022
  • Campo Grande: 1 de maio de 2022
  • Palmas: 1 de maio de 2022
  • Cuiabá: 1 de maio de 2022
  • Porto Velho: 1 de maio de 2022
  • São José do Rio Preto: 1 de maio de 2022
  • Teresina: 1 de junho de 2022
  • Maringá: 1 de junho de 2022

 

Nem tudo saiu como o planejado na Itapemirim

Com a missão ambiciosa de ampliar os seus destinos em pouco tempo, a ITA Transportes Aéreos viu o seu planejamento desmoronar em decorrência da sua frota limitada, sem contar com os problemas mecânicos e de operações de solo, formando um efeito cascata em toda a malha operacional e consequentemente, inúmeros atrasos nos seus voos planejados. 

Inclusive para quem se empolgou a ver uma companhia que abriu mão de cobrar bagagem despachada e marcação de assentos sem custos, assim que iniciou as suas operações, Sidnei Piva de Jesus chegou a anunciar que a companhia serviria a bordo feijoada em voos que tinha o Rio de Janeiro como destino, algo inédito até então. 

Para quem está acostumado a realizar voos diretos com uma companhia aérea, a Itapemirim ficou refém da sua frota, sendo que qualquer problema técnico significava que a companhia era obrigada a realizar voos com paradas não planejadas em outros destinos, o que acabou pegando muita gente de surpresa, e claro, iniciava a desconfiança por parte dos passageiros sobre o futuro da empresa aérea.

Em um mundo cada vez mais digital, a Itapemirim foi na contramão com os seus serviços de web check-in, limitando os seus serviços sem a existência de um aplicativo que facilitasse o embarque, gerando filas nas suas bases e muitas das vezes o embarque se tornava uma tarefa caótica para quem estava prestes a viajar. 

Outro fato que enfureceu boa parte dos passageiros foi a desagradável experiência da companhia remarcar ou cancelar voos com avisos em cima da hora sem alguma comunicação prévia, gerando revolta e desconfiança de investidores contra a companhia aérea. 

Sem aeronaves suficientes para dar conta dos destinos  e operando no limite, restou a Itapemirim postergar o seu planejamento de abertura de novas frotas, bem como o recebimento de novas aeronaves também não saiu do papel. 

Com apenas seis aeronaves, a companhia estava realizando voos regulares em São Paulo-Guarulhos e Congonhas (SP), Brasília (DF), Belo Horizonte-Confins (MG), Fortaleza (CE), Florianópolis (SC), Maceió (AL), Natal (RN), Rio de Janeiro-Galeão (RJ), Porto Alegre (RS), Porto Seguro (BA),  Recife (PE) e Salvador (BA).

 

Cancelamentos de voos a poucos dias do início das operações na Itapemirim

A Itapemirim se envolveu em uma polêmica com os clientes antes de começar a voar, ao cancelar os voos quase um mês após o início da venda dos mesmos, que foi no dia 21 de maio.

Na ocasião a companhia explicou aos clientes que precisou reorganizar a malha de voos. Realmente, a ITA passou de um modelo hub-to-hub para um triangular, como aplicado por outras aéreas nacionais em algumas rotas. Além disso, a menor quantidade de aviões na estreia também pode ter afetado a programação da empresa.

Nos primeiros cancelamentos, a Itapemirim deu uma passagem aérea de cortesia para os passageiros afetados, além de, logicamente, cumprir com o dever de reembolsar ou reagendar para qualquer data os voos cancelados. Na 2ª onda de cancelamento a empresa só ofereceu o tradicional reembolso ou remarcação.

E na época a empresa já estava planejando integrar o modal rodoviário e aéreo, ideia que surgiu logo no início da pandemia. Você pode ver um capítulo dessa história, que aconteceu em Minas Gerais mas nunca saiu do papel, Clicando Aqui.

 

A gota d’Água no copo que estava transbordando

Itapemirim
Parte da frota da Itapemirim no Aeroporto Internacional de Carrasco (MVD) – Foto: Autor desconhecido

Com pagamentos atrasados e benefícios interrompidos antes dos 6 meses de operações regulares, a Itapemirim viu uma diminuição do seu quadro de funcionários, em especial dos tripulantes e comissários de bordo da companhia.

As queixas também vieram por parte dos mecânicos, que alegavam a falta de uniformes e condições adequadas de trabalhos, restando ao SNA cobrar e questionar a companhia por melhores condições de trabalhos. 

No final de novembro, a Itapemirim finalmente iniciou suas operações internacionais com voos não-regulares, ligando o Brasil ao Uruguai para levar os torcedores para acompanhar a final brasileira da Taça Libertadores. 

Porém, ninguém contava que a companhia deixaria de cumprir os seus voos domésticos para focar exclusivamente nos voos fretados, decisão considerada inusitada e nunca vista antes.

Curiosamente, conforme apuração dos colaboradores do Portal Aeroflap, apenas uma aeronave cumpriu voos domésticos pela companhia entre os dias 24 e 25 de novembro, mal a Itapemirim sabia que faltavam pouco mais de 4 semanas para a realização do seu último voo. 

Ao mesmo tempo, credores também solicitavam uma investigação da Recuperação Judicial, por supostamente a Itapemirim utilizar dinheiro de pagamento dos credores para fundar a nova aérea, sem autorização judicial.

 

O início do fim 

A Itapemirim entrou em dezembro com muitos problemas para resolver e ainda com a malha bagunçada. Muitos passageiros enfrentavam problemas com voos cancelados, e a companhia continuava as alterações constantes na sua malha de voos regulares.

Os últimos dias antes da suspensão de voos também foram marcados por uma ampla troca de executivos na empresa, alterando boa parte do quadro administrativo da mesma. A Itapemirim também enfrentava problemas com o SNA, por atrasos no pagamento de Vale Alimentação, Diárias de tripulantes, Plano de Saúde e FGTS há meses.

A companhia também estava operando com pagamentos à vista, pela desconfiança de alguns fornecedores com os pagamentos a prazo pela empresa. Por outro lado, a empresa tomou duas multas da ANAC seguidas, por não entregar dados de tráfego aéreo de setembro e outubro.

Apesar da complicada situação, e dos diversos voos atrasados, os tripulantes mesmo assim trabalhavam com excelência para entregar o voo mais seguro possível, mesmo com aviões de maior idade. Poucos problemas operacionais em voo ocorreram durante a operação da Itapemirim.

Em todos os voos que participamos, os tripulantes mereciam sempre notas acima da média, na comparação com outras companhias. Prestatividade e bom serviço em voo, apesar dos problemas, eram lemas dos tripulantes, que destoavam com a má administração da empresa na sede em São Paulo.

De qualquer modo, a Itapemirim seguia com os planos de expansão, e em novembro chegou a receber mais uma aeronave para a sua frota, um Airbus A319 que ainda está no Aeroporto do Galeão, e nunca operou voos pela companhia.

Em outros aeroportos pelo mundo, como na Indonésia, um outro A319 que operaria com a matrícula PS-JCP, e outro avião, um A320 que operaria com a matrícula PS-CHM, mas que estava aguardando a transferência em outro país.

Apesar dos voos atrasados e de todos os problemas, poucos sabiam que as operações seriam suspensas dia 17 de dezembro, e recebemos até mesmo casos de passageiros que embarcaram logo cedo com a Itapemirim, e agora não têm as passagens de volta.

 

Os aviões da Itapemirim

A companhia afirmou pouco antes de iniciar os seus voos que esperava finalizar 2021 com mais de 20 aviões na frota, e atingir 50 aviões voando em meados de 2022.

Como sempre, o planejado saiu diferente da realidade. A Itapemirim terminou agosto com cinco aviões na frota, fechando dois meses de operação de voos. E depois disso a frota pouco cresceu, com a chegada de mais um A320 em outubro, que entrou em operação no mês seguinte, e como falamos anteriormente, a chegada de mais outra aeronave, o primeiro A319 em novembro.

Os aviões Airbus A320 eram equipados com 162 assentos em Classe Única, uma configuração muito espaçosa, mas parte do conforto variava de acordo com a aeronave, visto que os assentos eram das operadoras anteriores, e no caso do PS-SPJ, não havia a possibilidade de reclinação, muito boa no PS-TCS, por exemplo.

Foto: Pedro Viana/Aeroflap

Abaixo dos assentos à 4 saídas USB de carregamento rápido para cada fileira de três assentos. É uma boa quantidade, mas para aqueles que usam notebook é possível sentir a falta das tomadas 110V.

Abaixo podemos ver uma comparação dos assentos das duas primeiras aeronaves, a primeira com revestimento em tecido e com reclinação do assento, e a segunda em couro e sem possibilidade de reclinação.

Por dentro as aeronaves realmente não aparentavam ter 15 anos de uso. As capas dos assentos estão novas, nos painéis de acabamentos não há arranhados, os bins estão bem novos e sem marcas de malas, o carpete do chão também está sem aspecto de uso, como novo de fábrica.

Curiosamente a empresa prometia um bom serviço de bordo, algo que ninguém conferiu devido ao bloqueio da Anvisa às refeições a bordo dos aviões. Pelo uso de máscaras, as companhias aéreas não podem oferecer o serviço de bordo em seus voos domésticos.

Mas na imagem abaixo é possível conferir o “padrão de voo internacional” apresentado para a imprensa.

 
 
 
 
 
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As aeronaves que a Itapemirim recebeu no Brasil até o momento têm as seguintes matrícula (por ordem de entrega):

  • PS-SPJ
  • PS-AAF
  • PS-SFC
  • PS-TCS
  • PS-ITA
  • PS-MGF
  • PS-SIL

 

Artigo por: Gabriel Benevides e Pedro Viana

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