Airbus A330 MRTT FAB

No dia 28 de janeiro o Presidente Jair Bolsonaro anunciou, em live, a aquisição de dois aviões Airbus A330 para a Força Aérea Brasileira (FAB). O Presidente, na verdade, mencionou “A230”, todavia, esse modelo não existe.

Ainda na live, o presidente mencionou que as aeronaves serão adquiridas com recursos resgatadas através da Operação Lava Jato. Se a aquisição for concretizada, a FAB finalmente fechará a lacuna deixada pela aposentadoria dos antigos Boeing KC-137.

Airbus A330 Multi Role Tanker Transport

O A330 MRTT é a versão militarizada da aeronave comercial A330-200. A sigla MRTT significa Multi Role Tanker Transport e deixa clara as duas missões da aeronave: reabastecimento em voo e transporte.

A330 MRTT reabastecendo um E-7A Wedgetail. Foto: Airbus.

Como avião-tanque, o A330 pode carregar 111 toneladas de combustível, sem tanques adicionais. De acordo com a Airbus, esta é a maior capacidade dentre todos os aviões-tanque em serviço. 

A aeronave pode realizar reabastecimento em voo (REVO) com os sistemas de lança e receptor (flying boom) ou cesta e sonda (probe and drogue), sendo esse último o sistema empregado pela FAB. Entretanto, a aeronave só pode ser reabastecida por lança, através do Universal Aerial Refueling Receptacle Slipway Installation (UARRSI). 

A aeronave pode combinar os sistemas através da instalação da lança voadora da própria Airbus (Airbus Military Aerial Refuelling Boom System, ARBS) e pods de REVO Cobham 905E nas asas, como mostrado na foto abaixo. 

Essa é a configuração mais comum até agora, pois, logicamente, permite o reabastecimento de aeronaves que utilizam os dois sistemas. Como exemplo, podemos citar o próprio cenário Europeu, onde há um grande número de caças F-16 Fighting Falcon, F-35 Lightning II (tanto dos operadores europeus quanto dos EUA) e F-15 Eagle/Strike Eagle, que usam o sistema de lança voadora, enquanto os outros usam cesta e sonda. 

Através da lança voadora, o A330 MRTT pode transferir até 3600 quilos de combustível por minuto. Os pods 905E transferem 1300 quilos de combustível por minuto, enquanto a FRU (805E) transferem 1.800 quilos por minuto. 

A330 MRTT (KC-30) reabastecendo dois caças EF-18M Hornet do Ejercito del Aire (Força Aérea Espanhola).

Todavia, para clientes que não tenham interesse no sistema de lança voadora, a aeronave pode receber o Fuselage Refuelling Unit (FRU), que consiste em um casulo Cobham 805E instalado internamente na cauda da aeronave, permitindo o reabastecimento simultâneo de até três aeronaves pequenas, como caças. 

A330 MRTT da RAF (Voyager KC.Mk 3) reabastecendo um A400M Atlas. Foto: Airbus.

O MRTT pode transportar até 45 toneladas de carga, além de 380 passageiros em classe única. A aeronave também pode ser empregada em missões de evacuação aeromédica (MEDVAC) carregando 130 macas comuns, ou 40 macas, 20 assentos para equipe médica e 100 passageiros. 

A aeronave também pode receber um módulo para descanso de tripulação ou ser convertida para transporte VIP/Presidencial, como foi feito pela Força Aérea Real (RAF) em um de seus Voyager KC.Mk 3.

A aeronave foi configurada para realizar o transporte da Família Real Britânica e/ou membros do alto escalão do governo, como o Primeiro-Ministro. 

Configuração de MEDEVAC. Imagem: Airbus.

Os porões de carga da aeronave foram modificados para permitir o uso de contêineres e paletes tanto civis quanto militares. As configurações de cargas e passageiros são totalmente configuráveis de acordo com as necessidades de cada missão, o que mostra a grande flexibilidade do modelo.

 

Operadores

Até agora, 61 aeronaves foram encomendadas por sete países diferentes mais a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Até novembro do ano passado, 46 aeronaves já haviam sido entregues ao seus respectivos clientes. 

O A330 MRTT já é operado nas forças aéreas da França, Arábia Saudita, Austrália, Reino Unido, Singapura, Coréia do Sul, Emirados Árabes Unidos. O Qatar adquiriu a aeronave também e aguarda a entrega da sua primeira unidade. 

As aeronaves da OTAN serão operadas através do programa Multinational Multi-Role Tanker Transport Fleet. Seis países (Bélgica, Tchéquia, Alemanha, Luxemburgo, Noruega e Holanda) participam do acordo de operação mútua das aeronaves da Organização. 

O Ejercito del Aire (Força Aérea Espanhola) converterá três A330 adquiridos da companhia aérea Iberia em MRTT. 

 

A necessidade da FAB

Em 2013 a FAB aposentou oficialmente seus quatro Boeing KC-137E (707-300C), em serviço desde os anos 80 e adquiridos usados da VARIG. Com a saída dos “Sucatões”, como eram popularmente (e maldosamente) chamados, criou-se a necessidade de uma nova aeronave para cumprir as missões de transporte e reabastecimento em voo de longo alcance. 

Através do Programa KC-X2 a FAB começou a busca por um substituto. O A330 MRTT era uma das opções, porém, em maio de 2013 o Comando da Aeronáutica escolheu o Boeing 767. Duas aeronaves seriam convertidas em avião-tanque pela Israel Aerospace Industries, mesmo processo realizado pela Força Aérea Colombiana. 

Foto: Agência Força Aérea.

Todavia, o contrato não foi pra frente e a lacuna permaneceu. Entre 2016 e 2019 a FAB alugou 767-300ER, designado C-767 e matriculado como FAB 2900. Durante esse período a FAB fechou parcialmente a lacuna, podendo realizar missões de transporte de longo alcance, porém, a falta de um reabastecedor permanece. 

Atualmente as aeronaves de REVO da FAB são os dois KC-130M matrícula 2461 e 62.

O KC-390 Millennium já fez testes de reabastecimento com os F-5EM/FM Tiger II e A-1A/B/AM/BM AMX, mas ainda não faz essas missões operacionalmente. Isso deve acontecer logo, à medida que a aeronave vai sendo implantada na FAB. 

KC-390 reabastecendo um par de caças-bombardeiros A-1 AMX durante testes. Foto: Claudio Capucho – Embraer.

Todavia, KC-130 e KC-390 são aeronaves táticas, não tendo o mesmo alcance, autonomia e capacidade de transporte de combustível que o já aposentado KC-137 e o seu futuro substituto. São aeronaves com funções diferentes. 

A possível aquisição das duas unidades do A330 MRTT mencionada pelo Presidente Bolsonaro no final do mês passado finalmente pode preencher a lacuna aberta desde 2013, aumentando em muito as capacidades de transporte e reabastecimento em voo da Força Aérea Brasileira.