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Aeronaves KC-390 Millennium da FAB. Foto/Divulgação: FAB por Sgt. Bianca Viol.

Em comunicado divulgado na noite da última quarta-feira (26), a Força Aérea Brasileira afirmou que vai revisar o pedido de 28 aeronaves de transporte e reabastecimento em voo KC-390 Millennium, desenvolvidos pela Embraer. 

O motivo é a falta de recursos, que tem sido remanejados para o combate à pandemia do novo coronavírus. O Comando da Aeronáutica deixa claro que a revisão do pedido visa a redução do número total de aeronaves entregues, bem como a taxa de produção anual do avião, mas não diz quantas aeronaves serão “cortadas”.

A FAB afirma que o número de aeronaves adquiridas “tem se mostrado superior à realidade orçamentária da Força, tanto para aquisição, quanto ao suporte logístico ao longo do tempo” e que a frota “vem apresentando excepcionais índices de disponibilidade e despachabilidade, resultando em uma capacidade muito superior em volume e agilidade no transporte de cargas e pessoal.”

Atualmente existem quatro KC-390 em serviço com a Força Aérea, todos operados a partir da Ala 2 (Base Aérea de Anápolis) pelo 1º Grupo de Transporte de Tropas, o Esquadrão Zeus. 

A aeronave vem sendo empregada continuamente dentro da Operação COVID-19, iniciada pelo Ministério da Defesa em 20 de março de 2020, transportando materiais e insumos hospitalares, cilindros e usinas geradoras de oxigênio, hospitais de campanha e vacinas.

Isocontêiner de oxigênio sendo carregado no KC-390. Foto: FAB/Divulgação.

Confira abaixo o informativo da FAB na íntegra. 

“A crise sanitária que o mundo vem enfrentando desde o fim de 2019 tem provocado reflexos na conjuntura econômica global, com impactos também na situação fiscal e orçamentária brasileira. Como consequência, os recursos destinados ao setor de defesa vêm sofrendo restrições que causam limitações diretas nos projetos estratégicos das Forças Armadas.

Nesse contexto, a Força Aérea Brasileira, mantendo seu compromisso com as metas orçamentárias e em consonância com o cenário atual, decidiu rever os caminhos a serem seguidos na continuidade do contrato de produção da Aeronave KC-390 com a Embraer. Devido à complexidade deste tema, é necessário considerar os diversos aspectos que impactaram diretamente esta tomada de decisão.

A questão principal refere-se ao número previsto de 28 aeronaves do atual contrato, o qual, neste momento, tem se mostrado superior à realidade orçamentária da Força, tanto para aquisição, quanto ao suporte logístico ao longo do tempo.

Desde o início de sua operação, a frota de aeronaves KC-390 vem apresentando excepcionais índices de disponibilidade e despachabilidade, resultando em uma capacidade muito superior em volume e agilidade no transporte de cargas e pessoal, fatores observados com sucesso durante as diversas missões realizadas ao longo de 2020 e 2021.

Assim, considerando a conjuntura socioeconômica atual e os altos índices de desempenho das unidades já entregues, o Comando da Aeronáutica entende que o escopo contratual deve ser reavaliado, com foco na melhor adequação da produção e nos interesses públicos.

Cabe ressaltar que, mesmo em um cenário economicamente estável, reavaliações e modificações contratuais no mercado da aviação internacional ocorrem com frequência, por se tratar de uma área dinâmica e que envolve cifras vultosas.

Em síntese, após uma série de análises orçamentárias e estudos operacionais iniciados em 2019, fundamentados  nas previsões legais em vigor, foi determinado pelo Alto-Comando da Aeronáutica o início do processo de negociação contratual junto à Embraer. O objetivo será reduzir o número total de aeronaves entregues, com base no atual contrato, e buscar uma cadência de produção de 02 aeronaves por ano, fatores considerados adequados observando-se os aspectos operacionais, logísticos e financeiros.

Por fim, a Força Aérea Brasileira reforça que considera a Embraer uma parceira estratégica na implementação de soluções e desenvolvimento de produtos tecnológicos, que têm sido fundamentais para o pleno cumprimento de sua missão constitucional. Tal fato é evidenciado pelos projetos conjuntos que estão em curso, como o estudo para a concepção de veículos aéreos não tripulados e o desenvolvimento conceitual de uma nova aeronave de transporte leve.

Brasília, 26 de maio de 2021.

Centro de Comunicação Social da Aeronáutica”

Os quatro KC-390 em serviço com a FAB atualmente. Foto: Sargento Bianca Viol/FAB.

O KC-390 é uma aeronave de carga multimissão desenvolvida pela Embraer em parceria com a FAB para substituir o Lockheed C-130 Hércules, modelo de origem americana em serviço no Brasil desde 1964. 

Batizado como Millennium, o KC-390 pode transportar até 26 toneladas de cargas diversas, 80 soldados totalmente equipados ou 66 paraquedistas e é motorizado por dois turbofans IAE V2500-E5.

O modelo também poderá ser usado em missões de Busca e Salvamento, Vigilância e Patrulha Marítima. A capacidade de combate a incêndios também está sendo desenvolvida. Além do Brasil, o jato com 35 metros de comprimento já foi adquirido por Portugal (cinco unidades) e Hungria (duas unidades).

KC-390 reabastecendo um par de caças-bombardeiros A-1 AMX. Foto: Claudio Capucho – Embraer.

Outra importante missão que o KC-390 desempenhará é o reabastecimento em voo (REVO), operação que a FAB só realizada atualmente com dois KC-130M adquiridos na década de 1970, mas já modernizados. O processo de atualização dos turboélices começou em 2003. 

A FAB também tenta adquirir duas aeronaves de REVO e transporte de longo-alcance, algo que não se tem desde 2013 com a aposentadoria dos Boeing KC-137 (707).

A lacuna deixada pela aposentadoria do “Sucatão” – como o avião era popularmente chamado – foi parcialmente preenchida com o arrendamento de um Boeing C-767 (767-300ER) que esteve em serviço entre 2016 e 2019 com o Esquadrão Corsário. No entanto, o widebody só realizava missões de transporte, e não reabastecimento ar-ar. 

 

O C-767 FAB2900 preencheu a lacuna parcialmente. Foto: Sargento Manfrim/FAB.

Em 28 de janeiro, o Presidente da República afirmou que o Governo Federal estaria adquirindo dois A330 para a FAB. Dias depois, o Ministério da Economia vetou os recursos para a compra dos jatos. Todavia, no dia 10 de maio, o Ministério da Defesa autorizou o Comando da Aeronáutica a buscar dois aviões usados no mercado. 

É importante salientar que o Embraer KC-390 e o Lockheed KC-130 são aeronaves táticas, não tendo o mesmo alcance, autonomia e capacidade de transporte de combustível que o já aposentado KC-137 e o seu futuro substituto. São aviões com funções diferentes, que se complementariam em serviço na Força Aérea Brasileira. 

Em um país de dimensões continentais, esse tipo de aeronave – junto com um certo número de aeronaves táticas como as supracitadas – são necessárias não só para uma capacidade logística militar, reabastecendo em voo múltiplas aeronaves de caça, transporte, busca e salvamento, mas também em missões de apoio humanitário dentro do país ou internacionalmente. 

Por exemplo, o A330 MRTT poderia ter sido usado no resgate dos brasileiros em Wuhan no início da pandemia, operação onde foram empregados dois aviões presidenciais Embraer VC-1 (E195) com várias escalas ao longo do caminho. Em outro exemplo, em uma realidade pouco mais recente, poderia ter transportado materiais e pacientes na Operação COVID-19, onde os KC-390 tem sido usados de acordo com a demanda. 

Airbus A330 MRTT FAB